28 de abr. de 2012
7 de abr. de 2012
GREVE
“Greve, greve, greve!”. O coro tomou conta da Praça do Patriarca, no Centro da capital paulista, na tarde desta quarta-feira, 4, interrompendo a fala da professora Lourdes Quadros, que defendia a continuidade do movimento. “Com essa contraproposta não dá. O governo Kassab não garante o direito de férias, não fez uma proposta real sobre os nosso salários... Temos de continuar parados”, defendeu. A votação foi esmagadora, com mais de 90% dos cerca de 10 mil profissionais a favor da continuidade. Em seguida, os educadores iniciaram uma passeata até a Câmara Municipal, para pressionar os vereadores a aprovar o projeto de lei sobre o reajuste da categoria.
A votação na assembleia reflete o ânimo dos profissionais da educação municipal, parados desde a segunda, 2, em um forte movimento. Ainda que a prefeitura de Gilberto Kassab (PSD) insista em dizer que apenas 10% das escolas estão paralisadas, o sindicato da categoria, o SINPEEM, contabiliza entre 60% a 65% das escolas, de todos os níveis, com algum nível de paralisação. Nesta quarta, segundo professores ligados à CSP-Conlutas, este nível pode ter alcançado até 90% das 1.434 unidades, por conta da assembleia e do ato previstos para hoje.
Entre as reivindicações dos profissionais de educação, há duas exigências fundamentais. Uma delas é sobre o reajuste salarial. No ano passado, repetindo o que foi feito por Alckmin na educação estadual, a prefeitura conseguiu “escalonar” o reajuste da categoria, definindo um índice prévio para os anos seguintes. Os profissionais agora sentem o efeito deste ataque, com os salários corroídos pela inflação, e exigem a antecipação imediata do índice de reajuste previstos para 2013 e 2014. O governo não acenou com isso, oferecendo apenas a antecipação de parcelas de um bônus que seria pago no fim do ano, o PDE. A assembleia não aceitou.
A outra reivindicação é a garantia do recesso de julho e dezembro e das férias coletivas de janeiro de 30 dias aos profissionais de ensino dos Centros de Educação Infantil (CEIs) e demais modalidades de ensino. A Justiça paulista decidiu que as creches e pré-escolas não poderiam ficar fechadas durante as férias e o recesso de julho, atendendo as crianças. Enquanto isso, hoje são mais de 300 mil crianças sem vagas na creche. Os profissionais de educação afirmam que não querem afetar o direito das crianças terem acesso nestes períodos, mas lutam para que a prefeitura não acabe com o seu direito às férias, para cumprir a decisão judicial. “Os governos não se preocupam com a educação. Para eles, as escolas são depósitos de alunos. Por isso que o país só investe 4,5% do PIB em educação, quando seriam necessários ao menos 10%, imediatamente. Nossa greve é pela qualidade de ensino”, afirma Lourdes Quadros.
Em São Paulo, os educadores aprovaram ainda um calendário de luta até a próxima assembleia, marcada para a terça-feira, 10, na Praça do Patriarca. Nesta quinta, eles retornam às escolas, para conversas e reuniões com a comunidade escolar, explicando os motivos do movimento. E, nos próximos dias, realizam atos públicos nas regiões e bairros da capital.
Além de São Paulo, o Distrito Federal e outras quatro capitais têm a rede municipal paralisada neste momento: Teresina, Belo Horizonte, São Luis e Natal. Além de diversas cidades, como Santa Rita, na Paraíba.
23 de jul. de 2011
HISTÓRIA DO HAITI
O Haiti é o país mais pobre do continente. Dois terços de sua população vive na mais absoluta pobreza. Muitas famílias sobrevivem com menos de um dólar por dia e a expectativa de vida média da população chega a apenas 45 anos. Isto é resultado de brutal pilhagem colonial e imperialista que o país sofreu ao longo de sua história. História que também está marcada por lutas heróicas.
A era moderna do Haiti é inaugurada por um genocídio. Em 1492, Cristóvão Colombo descobre a ilha de La Española, hoje em dia dividida entre Haiti, ao ocidente (oeste), e a República Dominicana, ao Oriente (leste). Em menos de meio século, a maioria de seus primitivos habitantes, mais de 300 mil índios taínos, havia sido exterminada, dizimada pela escravidão nas minas de ouro, em massacres e epidemias. A partir de 1505, é introduzido na ilha o cultivo da cana de açúcar. Barcos negreiros trazem escravos africanos para trabalharem no plantio. Na medida em que os colonos espanhóis, frente ao esgotamento das minas de ouro, abandonam a ilha rumo a América do Sul, os franceses ocupam a ilha de Tortuga, no norte do Haiti. Em 1697, a Espanha aceita a soberania francesa nessas terras que, após um século, recebem o nome de Haiti.
Graças ao cultivo da cana de açúcar, cuja importância era similar a de petróleo atualmente, o Haiti se converte em uma das colônias mais ricas do mundo. Uma riqueza que se baseava na brutal exploração de mais de 500 mil escravos africanos obrigados a trabalhar de sol a sol em condições desumanas. No momento da Revolução Francesa, a população de escravos é dez vezes maior do que a de brancos e de homens livres, majoritariamente mestiços e negros que obtiveram ou compraram sua liberdade.
Quando começaram a chegar os primeiros ecos da Revolução Francesa, em 1789, as aspirações de liberdade se expressam na voz de Toussaint Louverture, o Espartaco Negro. Sua figura domina a história até 1804, quando o Haiti conquista sua independência. Mais de 200 mil pessoas, a maior parte negros, morreram durante aquela revolução. Foi não só a primeira revolução anti-colonial triunfante na América Latina como, também, a primeira revolução vitoriosa de escravos no mundo.
Mas a economia haitiana estava em ruínas. As plantações haviam sido devastadas e ressurgiu o antagonismo entre a maioria negra e a minoria mestiça. Temendo um contágio abolicionista, as potências dessa época, que em sua maioria não haviam abolido a escravidão, isolaram e marginalizaram a jovem República negra. A guerra pela independência na América espanhola e uma larga série de guerras civis que sucederam impediram também a unidade de ambos os processos revolucionários.
As autoridades haitianas temiam que a França lançasse uma invasão. Paris, buscando recuperar sua antiga colônia, reclama em 1814 uma compensação no valor de 150 milhões de francos em ouro, para indenizar os colonos. Em 1838, a França reconhece a independência do Haiti, sobre a base da aceitação dessa “dívida”, agora reduzida a 90 milhões de francos. Até 1883, o Haiti pagou em partes o total dessa indenização. Em 2003, Aristide lançou uma campanha exigindo da França o reembolso dessa “dívida da independência”, cujo valor atualizado chega a 21,6 milhões de dólares. Obviamente, a França não pagou.
Durante o século XIX, o peso dessa dívida nas finanças do Haiti, a devastação das florestas e o empobrecimento do solo causado pela exploração excessiva durante o período colonial afetaram o desenvolvimento da nova República negra. Os choques internos originaram várias guerras civis e até a divisão temporária do país. Isso aprofundou o antagonismo entre as massas de ex-escravos, que sobreviviam nas zonas rurais, e a nova burguesia oligárquica urbana, sobretudo mestiça, que enriqueceu com o comércio de café. Sucederam-se golpes de Estado, motins e golpes palacianos.
No século XX mudam os protagonistas, mas não a realidade de pilhagem e miséria. Também vai emergir como potência dominante o imperialismo norte-americano. A partir daí, a América Central e o Caribe são considerados pelos EUA como seu “quintal”.
Inicia-se, então, a política do “Big Stick” (grande tacão) para demonstrar quem realmente manda. O verdadeiro significado dessa política fica evidente com a frase de presidente Monroe “América para os americanos”. Começa então uma série de invasões a distintos países da região. O Haiti foi ocupado pelos soldados dos EUA em 1915, que lá permanecem até 1934. Eles tomaram o controle da aduana e criaram exércitos para defender seus interesses. Depois, em 1957, eles irão apoiar a ditadura dos Duvalier, varrida em 1986 por uma imensa rebelião popular. Começa assim a história recente que analisamos no artigo principal dessa edição do Correio Internacional.
Atualmente, o domínio ianque da economia haitiana é quase absoluto: 89% das importações e 65% das exportações se realizam com os EUA. Aliado com uma pequena oligarquia mestiça (menos de 5% da população) e branca (pouco mais de 1%), oprimem e exploram a imensa maioria negra. Nas últimas décadas, à tradicional produção de café, rum e tabaco, foram agregadas também indústrias de vestido e de brinquedos para exportação, como as maquiladoras nas chamadas “zonas livres” de Porto Príncipe. Nelas as empresas multinacionais pagam salários de fome e ganham fortunas.
Como uma amarga ironia do capitalismo, uma parte destas roupas volta ao Haiti já usada, reingressadas por expressas estrangeiras para vendê-las a preços baixos ou como parte da hipócrita ajuda humanitária do imperialismo. A maioria dos haitianos só usa estas roupas de segunda mão porque não pode comprar uma nova, nem mesmo os que trabalham nas fábricas que as produzem.
Em meio a impasse, Democratas e Republicanos concordam que os mais pobres paguem o preço da crise
O impasse político que se arrasta nos EUA há algumas semanas fez acender o sinal vermelho da economia mundial ao mesmo tempo em que mostra que a crise desatada em 2007 está muito longe de terminar. No centro do imperialismo, a crise econômica se desdobra em uma grave luta política.
Em resumo, o governo Obama precisa aumentar o teto do endividamento público, que lá é definido por lei, para continuar pagando as contas, principalmente os serviços da dívida pública. O impasse está nos condicionantes para tal manobra. A fim de autorizar Obama a elevar o endividamento para além dos já inacreditáveis 14 trilhões de dólares, o Partido Republicano exige um rígido programa de cortes fiscais do Estado, atingindo, sobretudo os gastos sociais. Os democratas, por outro lado, a fim de resguardar parte de seu eleitorado, querem que uma pequena parte desse ajuste, ou 20%, venha de aumento de impostos.
Ambos, porém, concordam na meta de se reduzir em 4 trilhões de dólares o déficit público nos próximos 10 anos. No entanto, o prazo para a elevação do teto da dívida se encerra no dia 2 de agosto. O governo Obama e grande parte da mídia internacional anunciam o apocalipse caso não se chegue a um acordo até esse dia. A megapotência teria que declarar moratória em parte de suas dívidas. Investidores da dívida norte-americana ficariam a ver navios e velhinhos não receberiam suas aposentadorias. Tentam, assim, responsabilizar os fundamentalistas de direita do Tea Party pelo impasse, diferenciando-os dos democratas, supostos reféns desse jogo. Mas será mesmo assim?
Duas faces de uma mesma política
Os republicanos aparecem como os grandes defensores das contas públicas, enquanto o Partido Democrata tenta encarnar uma política supostamente progressiva, preocupada com os mais pobres. Tal imagem, no entanto, longe de representar duas alternativas realmente distintas, serve mais como marketing político, criando uma ilusão de alternância de poder no sistema bipartidário. Exemplos: o governo Clinton foi marcado pelo rigor fiscal, fechando seu mandato em 2000 com um superávit de mais de 5 trilhões de dólares. O início da era Bush e sua política de intervenção e ocupação militar no Afeganistão e Iraque fizeram explodir os gastos públicos e transformaram em poucos anos o superávit em déficit. Situação agravada pelo corte nos impostos dos mais ricos.
No final de seu governo, com a popularidade desgastada e diante de um país tomado pela crise econômica, anunciou um megapacote de estímulos ao sistema financeiro de 700 bilhões de dólares. Para fazê-lo aprovar no Congresso, contou com a ajuda do já presidente eleito Barack Obama que, pessoalmente, conclamou os parlamentares a aprovarem o pacote. Ou seja, o déficit público causado pelas guerras e isenções de Bush foi aprofundado com os pacotes de ajuda a Wall Street e às empresas. O déficit passou de 2,7% do PIB em 2007 para 12,7% em 2010. Já o tal da dívida foi de 62% para quase 100% hoje. Isso significa que o valor total da dívida norte-americana é o equivalente ao valor de tudo o que o país produz em um ano.
Mais do que rupturas, o que se pode perceber nesses anos é uma linha de continuidade cuja a essência é o privilégio aos grandes bancos e empresas. Talvez o maior exemplo disso seja a “estatização” da então combalida General Motors, salva da falência com recursos do tesouro norte-americano.
Mas se por um lado o conjunto de pacotes e estímulos ajudaram a impedir que a recessão evoluísse para uma depressão como a dos anos 1930, por outro a anêmica recuperação já vem dando sinais de esgotamento. O crescimento do primeiro trimestre deste ano foi de 1,9%, enquanto no mesmo período de 2010 foi de 2,8%. O desemprego, que havia recuado, voltou a avançar com a desaceleração. E o horizonte não é nada alentador.
Crise política
A falta de perspectiva de uma solução para a crise vem se transformando cada vez em uma crise política nos Estados Unidos. Por um lado amplos setores populares que se moveram durante a campanha de Obama à presidência se desiludiram com o seu governo. À permanência das tropas no Afeganistão e a demora na retirada do Iraque se juntam a continuidade da base de Guantánamo, os programas sociais limitados, como o sistema de Saúde alardeado pelo presidente e, principalmente, o alto desemprego e a economia cambaleante. Entre Wall Street, que financiou sua campanha, e os milhares de voluntários que se moveram para elegê-lo, Obama ficou com o primeiro.
Ao mesmo tempo tem-se o fortalecimento do Tea Party, movimento surgido em 2009 da “América profunda” e que vocaliza o pensamento mais conservador, xenófobo e racista do país. O movimento vem ganhando força, impulsiona o Partido Republicano enquanto o empurra ainda mais à direita. Se não chega a representar de conjunto uma política econômica alternativa à atual, ajuda a radicalizar a disputa política entre democratas e republicanos e pode desatar graves crises.
Foi assim que, no final de 2010, os republicanos tiveram a maioria nas eleições legislativas e conquistaram o controle da Câmara dos Representantes. Em abril deste ano o governo quase fechou em meio a um impasse entre democratas e republicanos na aprovação do Orçamento para a administração federal. E agora, caminha-se para a mais grave crise até agora e o que poderia parecer impensável há algum tempo, os EUA declararem “default”, começa a ser cogitado.
O que vem a seguir
É evidente que uma moratória dos EUA não interessa aos democratas e nem aos republicanos. Como estamos cansados de ver por aqui, no jogo da disputa política entre o governo e a oposição de direita, há um limite que se esbarra na defesa dos interesses da burguesia. No caso dos EUA, se trata dos interesses do Imperialismo hegemônico no planeta.
Os dois lados concordam em cortar gastos, inclusive sociais. Obama colocou na roda até mesmo o Medicare (serviço público de saúde para os idosos) e o Medicaid (serviço de saúde dos mais pobres) e a Previdência Pública, medidas que aumentaram ainda mais seu desgaste com os setores que o apoiavam, principalmente as centrais, como a chapa-branca AFL-CIO. O Partido Republicano, porém, exige que nem um centavo desse ajuste venha do aumento de impostos e ameaça barrar a elevação do teto da dívida.
Uma solução, porém, já começa a ser desenhada pelo próprio lado republicano. O senador Mitch McConnell propôs que o legislativo concedesse a Obama uma autorização para que ele, unilateralmente, aumente o teto do endividamento público. Assim, o país continuaria pagando suas contas e os republicanos colocariam na conta de Obama a elevação da dívida, arrastando a crise até as próximas eleições, o significado real desse impasse.
De fundo, os dois lados concordam que é necessário conter o monstruoso déficit. Após a gastança desenfreada para salvar empresas e banqueiros, alguém deve pagar a conta. E tanto democratas como republicanos também concordam sobre quem deve recair esse peso: nas costas dos trabalhadores e da maioria da população.
9 de jul. de 2011
René Girard o Profano e o Sagrado
A violência e o sagrado
René Girard
Em Violência e o Sagrado, tradução brasileira do original La Violence et le Sacré, o antropólogo René Girard integra a sua teoria do desejo mimético anteriormente desenvolvida com seus estudos sobre o sacrifício ritual nas sociedades antigas, buscando desenvolver uma teoria compreensiva do sacrifício humano em tais sociedades.
Girard inicia o livro demonstrando o duplo aspecto das vítimas expiatórias. Elas são a um só tempo tratadas como seres sagrados e criminosos. Isto é assim porque representam nestas sociedades o papel de válvula de escape dos impulsos violentos acumulados no interior da mesma. Ela é vítima substitutiva: sobre ela seus verdugos despejam todo ódio e
sede de violência que carregam, aliviando-se e livrando a sociedade de possíveis conflitos. Assim, para Girard, o sacrifício ritual, presente invariavelmente em todas as culturas primitivas e antigas, mesmo na Grécia clássica, contra vítimas humanas ou animais, tem uma significação real e não meramente simbólica, pois serve para ?apaziguar as violência intestinas e impedir a explosão de conflitos.?
Uma sociedade está sempre sujeita a uma escalada de violência devido ao círculo vicioso de represálias. Tal já foi observado por etnólogos em sociedades primitivas. O surgimento de uma violência incontrolável no interior de uma sociedade ocorre normalmente nos momentos da crise sacrificial, ou seja, quando os sacrifícios rituais já não mais atuam eficientemente como válvula de escape dos impulsos violentos.
Para Girard os ritos sacrificias bem como os mitos que os narram simbolicamente representam a forma de uma sociedade reviver o seu acontecimento fundador, o sacrifício não mais ritual, mas real e espontâneo de uma vítima expiatória. Aqui insere-se a teoria do desejo mimético. Conforme nos conta Girard, com fortes argumentos e amplo embasamento documental, o desejo mimético ( o desejo de ter o bem do outro) é inerente à natureza humana. Os homens desejam o bem e o ser do próximo invariavelmente, o que terminará por gerar a rivalidade mimética. O detentor do bem quererá defendê-lo mas, ao mesmo tempo, estimulará o desejo do outro pois o fato de o seu bem ser também desejado por outrem potencializa o valor do mesmo. Quando um irromper com um gesto violento o outro imediatamente revidará também por impulso mimético e assim se iniciará o blood feud, um rosário interminável de represálias que somente terminará com o sacrifício de uma vítima expiatória que trará de volta a paz à sociedade.
Para Girard, toda sociedade primitiva em seus primórdios experimentou o evento de uma crise de violência generalizada que ameaçava a sua própria existência e que findou com o sacrifício de uma vítima escolhida arbitrariamente sobre a qual foram despejado todos os ódios e desejos de vingança, restaurando-se a paz social e fundando-se a própria sociedade politicamente organizada. Os mitos narrariam figuradamente aqueles eventos, e dentre os mitos, Girard inclui não apenas as narrativas mitológicas, mas a tragédia grega e mesmo o Antigo Testamento. Nestes textos, Girard descobre a descrição figurada parcial ou total da rivalidade mimética, da escalada de violência e do sacrifício de vítimas expiatórias. A análise e comparação destes textos, bem como os subsídios científicos trazidos pelos estudos etnológicos e antropológicos, compõem a metodologia através da qual Girard chega às conclusões de seu trabalho. Assim Girard explica o sentido oculto de muitos dos textos das culturas primitivas e antigas: eles representam simbolicamente os horríveis eventos fundadores da sociedade que terminam no sacrifício da vítima expiatória.
Os ritos sacrificiais são invariavelmente encontrados nas sociedades primitivas e antigas. É válido lembrar aqui o exemplo do pharmakós grego, um pária que era mantido cativo para ser sacrificado em épocas de grandes crises e catástrofes, mesmo naturais, como se sua morte pudesse eliminar a crise ou a catástrofe, tal como,no acontecimento fundador da sociedade, o sacrifício da primeira vítima expiatória eliminou uma grave crise de violência. O rito serve assim para manter viva a memória do acontecimento fundador e para servir como um despejo de impulsos violentos. Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial que é muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentes e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.
Não apenas os ritos e os mitos são explicados por Girard através de suas teorias do desejo mimético e do sacrifício, mas inúmeros costumes primitivos como o uso de máscaras, a repulsa ao sangue menstrual e aos gêmeos, e muitas das proibições ou regras de direito primitivas. A teoria de Girard, cujos dois pilares são os conceitos de desejo mimético e de sacrifício de vítimas expiatórias, constitui assim uma verdadeira teoria antropológica e sociológica geral, compreensiva de muitos fenômenos sociais e humanos. Assim, as teorias de Girard nos ajudam a compreender problemas do nosso próprio tempo tais como o racismo, o anti-semitismo ou o aborto. Afinal, a perseguição por motivos de raça ou a luta pela liberação do aborto não seriam formas de ressuscitar o velho mecanismo sacrificial, elegendo novas vítimas expiatórias de nossos ódios intestinos.
Numa etapa posterior de seu trabalho, a partir da obra ?Das Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo?, Girard explica como o mecanismo dos sacrifícios rituais foi perdendo importância e sendo eliminado das sociedades ocidentais por força do judaísmo e do cristianismo.
29 de abr. de 2011
Requião não pode ficar mais uma vez impune!
No dia 25 de abril, o senador paranaense Roberto Requião (PMDB), protagonizou mais um episódio que revela o tipo de moral e de conduta política degradante que marcaram sua trajetória. Ao ser perguntado pelo repórter da rádio Bandeirantes, Victor Boyadjian, se abriria mão da pensão que recebe enquanto ex-governador, de R$ 24,1 mil reais, o senador roubou o gravador do jornalista e fez ameaças de agressão física contra ele.
Esta atitude é reprovável e inaceitável. Não é a primeira vez que Roberto Requião se envolve neste tipo de episódio. Em 2004, agrediu o repórter do Jornal de Londrina e também lhe “arrancou” o gravador das mãos. Em outras ocasiões, ameaçou publicamente demitir trabalhadores que lutavam por melhores condições de vida, em 2009, a época governador, declarou na imprensa "Isso não é uma ameaça é um fato. Se houver greve, mando todos embora e abro rapidamente um concurso. Garanto que tem muitas pessoas querendo trabalhar". Desta vez, para tentar justificar sua conduta, o senador argumenta que há mais de 40 anos os ex-governadores do Paraná recebem esta pensão. “Estou usando essa pensão para pagar as multas que me foram injustamente impostas”, justificou.
Apesar da demagogia e da “cara” popular, os dois últimos mandatos de Requião à frente do governo do Estado do Paraná favoreceram setores da burguesia que sempre financiaram suas campanhas. A reforma agrária não avançou, a maioria das promessas de melhorar as condições de trabalho dos servidores públicos não foram cumpridas, a condição dos serviços públicos (principalmente da saúde) não avançaram de acordo com as necessidades dos trabalhadores, o pedágio nas estradas não acabou e a criminalização da lutas do campo continuou. A aliança do PT com o PMDB garantiu ao primeiro partido diversos cargos no governo, em troca, a direção petista ofereceu o controle dos trabalhadores através dos sindicatos e da CUT do Paraná.
Punição imediata
Defendemos uma punição exemplar ao senador Roberto Requião. Este homem é um político de carreira, um burocrata do Estado, que sempre viveu e desfrutou dos privilégios do Estado. Foi deputado estadual, prefeito de Curitiba, governador por três mandatos e está no seu segundo mandato de senador federal. Requião não sabe o que é viver sem estar numa condição de poder, e se aproveita de sua condição privilegiada na sociedade, de burocrata do Estado, para oprimir trabalhadores e jornalistas. Chega de privilégios! Os trabalhadores, os cidadãos “comuns” são julgados por seus atos todos os dias, com os parlamentares e governantes não pode ser diferente. Não podemos aceitar uma atitude como esta de um parlamentar.
A carreira política de Requião é a demonstração clara de como funciona o sistema eleitoral brasileiro, onde os partidos e candidatos burgueses, financiados pelos setores empresariais, investem milhões nas campanhas eleitorais para garantir a eleição de parlamentares e governantes. Quando eleitos, governam a favor da burguesia e contra os trabalhadores.
Não temos nenhuma confiança nos parlamentares dos partidos burgueses, que são a ampla maioria e controlam o Congresso Nacional, não acreditamos na comissão de Ética do Senado composta por estes “senhores”, e tão pouco, no Presidente do Senado, José Sarney, que é do mesmo partido de Requião. Por isso propomos a mais ampla unidade das organizações dos trabalhadores pela cassação do mandato de Requião, a começar pelos sindicatos dos jornalistas de todo país.
A impunidade contra este senador neste momento significa um ataque à liberdade de imprensa, visto que o jornalista agredido moralmente estava no exercício de sua profissão. Este não é um episódio isolado, Requião é apenas uma expressão de algo que vem se generalizando, a criminalização aos movimentos sociais tem aumentado assustadoramente no país e no mundo (como assistimos na Líbia), e tem sua expressão mais clara no caso dos treze ativistas presos e criminalizados por protestar contra o presidente norte americano Barack Obama no Rio de Janeiro.
Abaixo as aposentadorias imorais aos ex-governadores
A Constituição brasileira garante o “direito” à aposentadoria especial a ex-governadores. No Paraná, os ex-governadores e também as viúvas de ex-governadores, recebem um benefício de aposentadoria equivalente a R$ 24,1 mil reais por mês. Até mesmo o ex-governador Orlando Pessutti, também do PMDB, que ocupou o cargo por apenas nove meses em 2010, passou a receber o benefício especial em 2011.
Estes “direitos especiais”, garantidos aos ex-governadores, revelam a natureza do Estado burguês, que garante diversos privilégios aos políticos de carreira que prestaram “bons serviços” à burguesia. Os inúmeros privilégios garantidos aos políticos e burocratas do Estado, são a garantia de uma condição social a estes senhores que nada tem haver com a vida do povo trabalhador. A verdade é que os “representantes do povo” não vivem como o povo trabalhador, e sim mais próximo do modo de vida dos ricos.
Além dos privilégios, o Estado burguês é uma “fonte” inesgotável de corrupção e imoralidade. A prova categórica desta afirmação foram os aumentos salariais absurdos e imorais que os parlamentares votaram a favor deles próprios. No início deste ano, votaram aumentos de 62% para deputados e senadores, de 134% para presidente e 148% para os ministros de Estado. Os parlamentares aumentaram seus salários e o da presidente Dilma para R$ 27 mil reais, enquanto para os trabalhadores votaram um aumento pífio de apenas 6% no salário mínimo.
Somos contra todos estes privilégios, que são parte da base material de toda a corrupção e imoralidade presentes no Estado burguês. Por isso defendemos o financiamento público de campanhas com igualdade para todos os partidos, direitos iguais na propaganda eleitoral e na imprensa, mandatos revogáveis a qualquer momento por iniciativa popular e salários dos parlamentares e dos membros de todas as esferas do poder público igual ao salário de um trabalhador qualificado.
Abaixo as aposentadorias imorais aos ex-governadores! Defendemos a suspensão imediata das aposentadorias concedidas aos ex-governadores e as viúvas de ex-governadores de todo país, a começar pelo Paraná. Não podemos confiar nos deputados da Assembléia Legislativa do Paraná, que no dia 18 de abril, rejeitaram após votação em plenário, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que propunha acabar com a aposentadoria vitalícia na Constituição do Paraná. Todas as organizações que representam os trabalhadores precisam se unir e manifestar repúdio a concessão destas aposentadorias.
22 de abr. de 2011
A morte de um canalha e a sobrevida do Apartheid
No sábado, 10 de abril, foi enterrado Eugene Terre’Blanche, o líder do grupo racista sul-africano “Movimento da Resistência Africânder” (AWB, na sigla original), morto a pauladas por dois jovens negros, no dia 4 passado
A notícia ganhou o mundo, principalmente sob a ótica do impacto que o episódio pode ter sob o país que receberá a Copa do Mundo daqui alguns meses. Contudo, há umas tantas outras perspectivas sob a quais podemos ver a por nós festejada morte do racista.
Terre’Blanche liderou o AWB desde sua fundação. Africânder é o termo pelo qual são conhecidos o povo e a língua dos descendentes de holandeses que construíram o monstruoso sistema do Apartheid (que quer dizer “separado”) e, através dele, manteve o poder durante a segunda metade do século 20. Terre’Blanche era um africânder bôer, ou seja, um fazendeiro, o núcleo duro e mais conservador do sistema racista.
Aliás, antes de falarmos sobre o impacto e as possíveis consequências do assassinato na atual situação sociopolítica da África do Sul, cabe fazer um parêntese sobre Terre’Blanche, figura nefasta, cujo papel na História parece ter sido esculpido em seu próprio nome. Nascido em 1941, o sujeito recebeu um nome realmente curioso. Eugene de alguma forma nos remete a “eugenia”, a pseudociência que, em meados do século 19, serviu como uma das principais bases para o racismo e o imperialismo.
Nomeada atrás de termos gregos – “eu” (bem) e “genno” (fazer nascer) – a teoria defendia que as pessoas bem nascidas, ou seja, com os melhores genes e dotados de características superiores, seriam os brancos, de olhos claros, de fisionomia europeia e, evidentemente, membros da elite socioeconômica do período.
Uma suposta predestinação que lhes dava o direito sagrado de dominar o resto: todos aqueles marcados pela herança macabra da pele escura, cabelo ruim ou o infortúnio insuperável de ter nascido abaixo da linha do Equador ou em algum ponto da Ásia ou do Oriente.
Este era apenas o primeiro nome do sujeito que criou o AWB, em 1973, pregando o separatismo e a supremacia racial, como forma de criar uma pátria de brancos. Uma ideia expressa no seu sobrenome, Terre’Blanche, “terra branca” em francês.
Barulhento e sanguinariamente violento, apesar de reduzido em membros, o AWB foi fundando nos fundos de uma garagem e ficou conhecido pelos seus efetivos paramilitares, eficientemente treinados e bem armados, que atuaram como “rambos dos Apartheid” em alguns dos piores e mais repressivos períodos do regime racista.
Coerente com seu sobrenome, Terre’Blanche e seu grupo foram contrários às negociações (favoráveis aos brancos, é bom lembrar) que puseram fim à legislação racista do Apartheid e abriram caminho para a chegada ao poder, em 1990, do Congresso Nacional Africano (CNA), liderado por Nelson Mandela, mantendo, até hoje, suas ações racistas e ataques assassinos.
Uma morte tardia
Dizer que um sujeito como este já foi tarde é pouco. Num mundo minimamente justo, sua asquerosa figura já teria sido varrida para o lixo da História há décadas. Se a História também não fosse marcada por retrocessos e traições, ele não teria sobrevivido à justiça revolucionária. Uma possibilidade impedida pela solução negociada da Frente Popular.
Uma história que nós brasileiros conhecemos através do governo Lula. Mas que, no caso da África do Sul foi uma punhalada mais profunda no que se refere ao papel dos movimentos sociais. Enquanto no Brasil, Lula aliou-se à elite dominante para barrar e prevenir qualquer possibilidade de crise com possibilidades revolucionárias, na África do Sul a solução frente-populista foi empregada para brecar uma crise que já estava em pleno curso e a todo vapor.
Mas, enfim, como a História é o que temos diante de nós, o líder do AWB acabou sua malfadada passagem pela vida no dia 4 de abril, morto a pauladas por dois de seus jovens empregados, um de 16 e outro de 21 anos.
Também fiéis ao seu papel na atual situação, a imprensa mundial tem dado mais destaque, em primeiro lugar, às possíveis consequências que o episódio terá na África do Sul que, a trancos e barrancos, está se aproximando do gigantesco desafio de hospedar a Copa Mundial de Futebol.
É verdade que há motivos para preocupação. Afinal, é um fato que há uma enorme expectativa em torno do evento. Inclusive, e principalmente, inclusive, por parte da maioria do sofrido povo sul-africano, os negros, que assim como grande parte dos brasileiros, é apaixonada pelo esporte. Mas também não se pode esquecer que qualquer tensão racial pode reabrir feridas muito mal remendadas e que se expressam inclusive no esporte, já que, na época do Apartheid, o futebol (a aversão dos brancos aos esporte) era um dos símbolos e expressões da segregação racial.
Além disso, jornais e sites ao redor do mundo têm destacado a brutalidade do assassinato a pauladas e, principalmente (fazendo eco às insistentes declarações do presidente Zuma e demais membros do CNA e aliados), têm ressaltado que a ação desesperada dos jovens trabalhadores foi motivada puramente por uma questão trabalhista: os garotos estavam revoltados pelo fato de Terra’Blanche lhes ter recusado o pagamento do salário mensal, que é importante lembrar, era, na moeda local, de 300 rands, o equivalente a míseros R$ 72.
São poucos os que procuram escavar as relações entre o episódio e as tensões e contradições criadas pela própria Frente Popular e pelos sucessivos (e cada vez mais neoliberais) governos do CNA. E muitos menos são os que trazem para o centro de suas análises a lembrança de que a “vítima” tinha suas mãos mergulhadas no sangue de sabe-se quantos negros; homens e mulheres; jovens, idosos e crianças, tendo estado pessoalmente à frente de torturas, assassinatos e uns tantos atos criminosos, motivados pelo seu racismo.
Feridas abertas do Apartheid
Mas queira ou não os porta-vozes do sistema, as marcas deixadas no corpo de Terra’Blanche inegavelmente são bem menores e muito menos numerosas do que as feridas que ele e sua gentalha imprimiram ao povo negro sul-africano no decorrer de décadas. Como também jamais poderiam se aproximar da profundidade das feridas deixadas abertas pela solução negociada capitaneada por Mandela e seus seguidores.
Foram exatamente as dores provocadas por estas feridas que motivaram os jovens que puseram um fim a Terra’Blanche. Suas marcas estão em todos os cantos. A sobrevida do falecido líder do AWB é apenas um exemplo da manutenção de práticas e situações que existiam no Apartheid.
Ao negociar o fim da legislação racista do Apartheid sem mexer na estrutura capitalista do Estado, o CNA permitiu a continuidade da exploração que motivava as leis que mantinham os negros em condições subumanas de vida. Ao mergulhar no neoliberalismo, os sucessivos governos sul-africanos aprofundaram esta situação, atacando, assim como no Brasil, os direitos trabalhistas, alimentando o desemprego e sucateando os serviços públicos.
O pior, e talvez ainda mais desesperador para jovens como os dois que confrontaram Terra’Blanche, é o fato de que, ao lado desta situação, da contínua atuação de grupos como o AWB e da visível tranquilidade com a qual a elite branca manteve e ampliou seus negócios e lucros, os negros e lutadores brancos sul-africanos têm visto a ascensão de uma elite negra vinculada ao próprio CNA, os parceiros-beneficiários do capitalismo local.
Uma situação, inclusive, saudada por jornalistas mundo afora. Este é o caso de John Carlin, em um artigo publicado em O Estado de S. Paulo, em 11 de abril. Antes, contudo, cabe ter em mente que Carlin é autor do livro Conquistando inimigos, no qual foi inspirado o roteiro de Invictus, o filme em que Morgan Freeman vive o papel de um Mandela que leva para o campo do rúgbi o processo de negociação nos primeiros anos de seu governo.
Defensor da tese de que a morte de Terra’Blanche terá pouco impacto sobre a situação sul-africana, Carlin defende que isto se deve ao fato de que o país é uma das democracias mais fortes do mundo, uma fortaleza conquistada porque o país “tem feito as coisas tão bem quanto se esperava dela”, existindo, hoje, inclusive, “até uma elite negra formada por pessoas que foram proeminentes na luta contra o apartheid e hoje levam uma vida luxuosa”, por exemplo, “como acionistas ou proprietários de grandes empresas de software”.
Apesar do entusiasmo com o qual Carlin comenta tudo isto, ele mesmo não pode esconder que todo este luxo é acessível a poucos, pouquíssimos, já que “a maioria dos negros está na mesma situação de antes, só que agora eles possuem uma commodity (mercadoria) à qual é difícil atribuir um valor: a dignidade”.
Para o azar e desespero dos sul-africanos, contudo, somente gente com perspectiva ideológica de Carlin pode ver alguma dignidade no fato de viver (depois de décadas de luta, dores e sacrifícios que envolveram milhões) com salários de R$ 72, em miseráveis casebres, sem acesso ao mínimo que um destes novos membros da elite, ombro-a-ombro com os velhos opressores, gasta em um de seus luxuosos jantares.
Os próximos lances
A proximidade da Copa pode, certamente, forçar uma minimização da tensão criada pela morte do velho canalha e para sempre fascista. O governo está apostando todas as suas fichas nisso, como também a imprensa mundial e todo o gigantesco negócio que gira em torno do campeonato. Cabe lembrar que o governo sul-africano já investiu algo em torno de US$ 6 bilhões. E grana é prioridade para todos eles.
Contudo, no momento, a tensão está fortemente no ar, principalmente no vilarejo de Vendersdorp, na região da capital Johanesburgo, onde os jovens estão presos. E, dentro do próprio CNA, pelo menos uma voz dissonante tem preocupado os planos do governo, a de Julius Malema, que com 29 anos dirige a Liga da Juventude do CNA.
Tudo indica que a dissonância é apenas no tom, já que Malema não parece discordar da política geral de seu partido, contudo ele virou alvo de críticas vindas de todos os lados ao incentivar que seus apoiadores e manifestantes que pedem a libertação dos jovens entoem um hino da época do Apartheid, singelamente intitulado “Kill the bôer” (matem os fazendeiros).
Se Julius vai se manter à frente das manifestações de solidariedade aos jovens e aprofundar uma diferença com o CNA é algo que só a História pode contar. O fato é que, no momento, ele tem atrás de si uma massa significada que entoa a música com o mesmo entusiasmo que grita “heróis, heróis”, país afora, toda vez que os jovens de Vendersdorp são citados.
A canção tem enfurecido muita gente, a começar pelos líderes do AWB que oferecerem nada menos do que US$ 280 mil pela cabeça de Julius. Quando não provocado comentários estapafúrdios (mas completamente sintonizados com o espírito frente-populista) como o do já mencionado John Carlin, que no seu artigo sugere que as massas continuem gritando, mas não mais “kill the bôer”, mas sim “Kiss the bôer” (beije o fazendeiro). Bobagem ofensiva que dispensa comentários.
No entanto, numa demonstração de que é apenas uma das alas mais raivosas daqueles que, apesar de não se verem representados na Frente Popular, não querem prejudicar o andamento dos negócios, o AWB também já declarou que não irá provocar qualquer distúrbio que possa impedir a realização da Copa.
Com trégua ou não, passada a Copa, a dolorosa realidade continuará batendo à porta de milhões de negros e negras todos os dias. E novamente estará colocado nas mãos deles uma tarefa muito mais difícil do que aquela empreendida pelos jovens que abateram Terra’Blanche: reconstruir uma alternativa de organização e luta dos milhões que ainda sofrem com a opressão racial e a exploração capitalista na África do Sul.
Uma alternativa que não só terá que superar o CNA e seus aliados, mas também apontar para uma perspectiva socialista, a única forma possível para que algum dia se curem completamente as feridas do racismo, deixadas pela apartheid.
Textos de Wilson H. Silva
A Rede Social: Metáfora de tempos impessoais
Em cartaz no Brasil, o novo filme do cineasta David Fincher (Seven; Clube da Luta) traz a história por trás da criação do site facebook, fenômeno de popularidade na internet com mais de 500 milhões de usuários cadastrados em todo o mundo.
Desde a sua popularização mais intensa, a partir de meados dos anos 1990, a internet tem sido terreno fértil para muitas inovações tecnológicas, tendo gerado, inclusive, uma bolha de crescimento que abalou a economia ao esturar, em 2001. O mercado das empresas “.com” nunca mais foi o mesmo e muitas empresas não voltaram ainda ao patamar anterior, mesmo com o significativo crescimento da economia geral desde então.
Contudo, algumas histórias de sucesso aconteceram da crise de 2001 para cá, e uma das mais impressionantes delas é o facebook. Criado a partir de um mural de fotos dos alunos da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o facebook encontrou amplo espaço para se expandir na onda das redes sociais. Pessoas de todos os lugares do mundo podem aparecer online, encontrar amigos e participar de grupos, mesmo quando as condições sociais são ruins, como um trecho do filme chega a dizer, ironicamente, sobre a Bósnia: “Eles não tem nem estradas lá, mas tem facebook”.
O filme mostra com muita competência o ambiente por trás do surgimento do site, a começar do “nerd” criador Mark Zuckerberg (interpretado por Jesse Eisenberg). Típico jovem desajustado com pessoas, mas à vontade com o computador, Zuckeberg inicia sua escalada ao ser deixado pela sensata namorada, que o vê como ele de fato é, uma criança grande. Infelizmente, praticamente todos ao seu redor são assim ou pior, como é o caso dos irmãos Winklevoss, com o sério agravante de serem, eles dois, pretensiosos filhos de milionários. A educação privada nos EUA, imensa maioria do sistema, se por um lado mantem o padrão de excelência de uma Harvard ou de um MIT, por outro sustenta essa aberrração elitista dos trotes, das brincadeiras xenófobas, dos clubes reservados e das redomas de poder que aparecem, pontualmente, ao longo do filme.
Os litígios da trama, então, tomam corpo quando os irmãos Winklevoos acusam Zuckerberg de roubar sua ideia a partir de um trabalho que eles deveriam desenvolver em conjunto, um site a princípio somente para os alunos de Harvard, enquanto o facebook segue sendo considerado a “nova onda” e se expande por várias outras universidades, a ponto de atrair Sean Parker (Justin Timberlake), criador de outro site importante, o Napster, que sacudiu a indústria fonográfica ao abrir as portas para o download gratuito de músicas pela internet. A influência de Parker, com sua afetação esnobe e sua ausência de moralidade, leva Zuckerberg a se distanciar de seu único amigo e cofundador do facebook, Eduardo Saverin (Andrew Garfield).
A competente direção de Fincher consegue tornar interessante algo que, de outra forma, poderia ser classificado como terrível, principalmente quando se percebe o quão impessoal, frio e distante tudo nessa história nos reflete. Um site de relacionamento criado por um rapaz em busca da atenção da sua namorada, sem sucesso algum, que deriva para disputas judiciais complexas, envoltas em manobras e pontilhada por uma atmosfera de isolamento. Triste, mas verdadeiro.
TEXTO:Rodrigo Baldin
As revoluções árabes e a situação da mulher no Brasil
Cecília Toledo, autora do livro "Mulheres: o Gênero nos une, e a classe nos divide", participou de um debate na Inglaterra sobre o 8 de março. Leia abaixo o artigo que a pesquisadora escreveu para a discussão.
Cecília Toledo
da revista Marxismo Vivo
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• Hoje, a revolução árabe mostra ao mundo a situação terrível deixada pelo imperialismo nos países que explora e oprime. Mostra ainda a força do povo e sua disposição para lutar por melhores condições de vida, por uma vida melhor para si e para sua família. Mostra também que a opressão secular que pesa sobre as mulheres trabalhadoras e pobres não as aplasta, não tem o poder de calar as mulheres, de fazê-las seres totalmente submissos e dominados, como são os planos do imperialismo. A revolta permanece interna nas mulheres, sob os veus, enquanto não explode uma situação propícia para que salte para fora.
No mundo árabe hoje a situação revolucionária está mudando as mulheres, porque as estão possibilitando ver o mundo com outros olhos, ver que não são seres sem vontade, sem paixão, sem raiva. Que não são seres incapazes de lutar por seus direitos com tanta força quanto um homem. E que podem ter nos homens pobres e trabalhadores grandes aliados e companheiros de lutas e armas.
São lições importantes para as mulheres de todo o mundo colonial e semicolonial, aonde a vida do povo trabalhador, em especial das mulheres, fica cada dia pior. A fome, a violência e a violação dos direitos humanos, estão destruindo vilas inteiras e tornando a opressão das mulheres algo já insuportável.
Números que assustam
Na América Latina hoje 800 milhões de pessoas vão dormir com fome todos os dias e a cada hora morrem 1.200 crianças por desnutrição e enfermidades infecciosas. No Brasil, que se orgulha de dizer que é a oitava economia do mundo, o Ministério da Saúde estima que ocorram 1 milhão de abortos clandestinos todos os anos. E cerca de 200 mil mulheres por ano são internadas nos hospitais devido a complições por abortos de risco.
Outro problema grave para as mulheres é a violência doméstica, que já se transformou no principal problema das mulheres latino-americanas. 25% delas sofreram já algum tipo de violência em casa. No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher é agredida em sua própria casa. 70% das agressões ocorrem dentro de casa e o agressor é o próprio marido ou companheiro.
Mais de 40% das agressões resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramento, queimaduras, espancamento e estrangulamentos. Isso faz com que um de cada 5 dias de trabalho perdido pelas mulheres seja devido a algum problema de saúde causado pela violência. Relatório da Unicef mostra que há uma relação direta entre situação econômica da mulher e a violência. As que ganham menos, sofrem mais. As que não tem renda própria são as maiores vítimas.
Garantem a comida e a riqueza
Apear de tudo, as mulheres são hoje a metade da força de trabalho em toda a América Latina, no campo e na cidade. Grande parte da riqueza que a burguesia e a imperialismo tomam do país e enchem seus cofrem saem dos braços das mulheres. Elas ocupam os piores postos, com a metade do salário do homem, trabalhos desqualificados, insalubres, que prejudicam sua saúde. Quando conseguem emprego, recebem salários inferiores aos dos homens, porque seu salário continua sendo visto como complementar ao do homem. Ocupam os trabalhos mais duros, repetitivos, que não exigem formação. São os trabalhos precários, instáveis, de tempo parcial.
Mas ainda assim, elas são responsáveis por 60% do trabalho que sustenta as famílias, colhem de 60% a 80% do alimento no campo e são provedoras quase exclusivas da assistência às crianças, aos doentes e idosos.
Sofrem o assédio sexual e moral e são tratadas pelos meios de comunicação como um produto sexual a ser vendido no mercado. Banalizam o sexo, reafirmando o papel subalterno da mulher na sociedade. Tudo isso se duplica quando a mulher é negra ou imigrante.
É claro o problema de classe na opressão e superexploração das mulheres, porque as mulheres burguesas não sofrem a exploração e podem mais facilmente superar os elementos de opressão graças a sua condição econômica. Isso cria um abismo entre as mulheres trabalhadoras e pobres por um lado, e as mulheres das classes privilegiadas, por outro, e faz com que a luta pela emancipação seja um terreno da classe trabalhadora.
O papel do PT e Lula
Nos anos 70 e 80 as mulheres trabalhadoras no campo e na cidade lutaram muito para melhorar sua condição de vida. Tiveram grandes conquistas, como os direitos trabalhistas, licença-maternidade e melhores salários, bem como o direito a se organizar em sindicatos e associações.
Com suas lutas, elas participaram ativamente da construção do PT e da CUT, contra a ditadura militar, e por liberdades democráticas. Pois nem bem o PT chegou ao governo começou a trair as lutas da classe trabalhadora e as mulheres foram perdendo suas conquistas.
Hoje os berçários, algo muito importante para as mulheres que trabalham, já não são obrigatórios nas empresas. A patronal põe se quiser, e como é um custo a mais para ela, não o faz, e o governo não fiscaliza.
A maioria da classe trabalhadora vive em favelas ou bairros muito pobres, com casas precárias, sem rede de esgoto ou água encanada. Isso para as mulheres é um peso a mais nas tarefas domésticas. Há um processo escondido de privatização, que distancia os trabalhadores da educação. Ao mesmo tempo, o desemprego e a redução das oportunidades no mercado de trabalho exigem melhor qualificação do trabalhador.
O goveno do PT, que conta com grande apoio pelas ilusões da classe trabalhadora em Lula e agora em Dilma, faz políticas compensatórias, e não medidas estruturais, que implicariam em expropriar as grandes fortunas, atacar o capital financeiro e tirar a terra dos grandes latifundiários para que a gente possa trabalhar, produzir e ter uma vida melhor.
Porgrama como o Bolsa Família e o Fome Zero nada mais são que milhagas. O melhor exemplo de que não resolvem o problema com elas mesmos: famílias trabalhadoras inteiras são forçadas a viver com R$ 100 ao mês, porque não têm trabalho ou porque fazem trabalhos precários. É a perpetuação da fome. O aumento do número de bolsa-família” não depõe a favor do governo, mas o contrário, porque significa que é um governo que não proporciona trabalho digno para o povo.
O poder do PT e de Lula, em quem a classe ainda confia, foi o de frear as lutas e criar a ilusão de que tudo se revolve no parlamento burguês, se um trabalhador ocupa a cadeira presidencial. A maioria dos sindicatos e da CUT, antes muito forte, agora são como coelhos a serviço do governo. Perderam sua combatividade e mudaram seus métodos de luta: antes, as greves e ocupações de fábricas; hoje, as negociações e os banquetes com os políticos burgueses. As direções sindicais se burocratizaram, apropriaram-se do poder nos sindicatos e se tornaram capangas que perseguem e ameaçam os ativistas de oposição.
Por onde passa a luta
Mas a situação piora a cada dia e a classe já não aguenta mais. Os políticos vivem em mansões enquanto se vê pela TV as casas dos bairros pobres se desmoronando pelas chuvas. Os deputados no parlmento e a própria presidenta Dilma aumentam seus próprios salários enquanto milhões de famílias morrem de fome ou fazem malabarismo para vivem com o Bolsa-Família.
Ainda que pequena, uma nova geração de ativistas surge no Brasil, disposta a enfrentar essa situação. Foi com base nela que se construiu a Conlutas em 2000, que hoje é já uma alternativa de luta frente ao oficialismo da CUT. Hoje a Conlutas reúne um grande número de sindicatos muito combativos e também grupos de oposição que vem imprimindo uma vida nova e sangue novo ao movimento sindical no Brasil. A Conlutas já nasce com um setor de mulheres muito forte, o Movimento Mulheres em Luta, que reúne trabalhadoras e jovens estudantes com um programa de reivindicações para as mulheres e a reotmada dos métodos de lutas tradicionais da classe operária, com as marchas, as petições à patronal, o enfrentamento ao governo. Começam a surgir comissões de mulheres nos sindicatos para discutir as reivindicações próprias das mulheres que devem integrar o programa comum da classe operária.
Hoje lutas para retomar as velhas conquistas perddidas, como os berçários em todas as fábricas e empresas. Lutamos pela licença-maternidade de seis meses; lutamos pela legalização do aborto, para que a mulher trabalhadora e pobre possa recorrer a um hospital público se decide ou necessite abortar. Lutamos por igualdade salarial com os homens e pelo pleno emprego. Lutamos pela terra para quem nela trabalha e lutamos pela escola pública de boa qualidade para nossos filhos.
O mais importante é que as mulheres, pouco a pouco, voltam a se dar conta que seu problema é um problema de classe, de que seu inimigo é o capitalismo imperialista; é a burguesia, que é formada por homens e por mulheres. E que portanto devemos lutar junto a nossa classe, a classe trabalhadora, pondo nossa opressão a serviço dessa luta, que é permanente, como mostra a revolução árabe.
Muito já nos contentamos com conquistas democráticas ou simples promessas de governos burgueses que se esfumaçam no ar nem bem se aproxima outra crise econômica, que põe seus lucros em perigo. Há que seguir até a conquista do poder pela classe trabalhadora, já que a história de nossas lutas, uma após outra, mostra que precisamos de uma direção que nos envolva em uma revolução permanente até a expropriação do grande capital e a expulsão do ocupante de turno que nos saqueia, para assim poder traçar a via de nossa emancipação completa, algo que só é possível se toda a classe operária se emancipa do jugo imperialista. Não há emancipação completa e verdadeira das mulheres sem que todos os trabalhadores tenham uma vida digna e feliz.
O impulso da revolução árabe, com milhares de mulheres nas ruas, sem medo e sem vergonha, hoje nos contagia de certeza na força das mulheres na revolução e por isso nós, mulheres oprimidas e exploradas de toda a América Latina lhes damos nosso apoio e saudação à luta pelo socialismo.
O “bom burguês” José Alencar recusou-se a assumir paternidade de filha
Além de ter sido o maior empresário da indústria têxtil do mundo, o grande burguês José Alencar foi protagonista de um corriqueiro – nada original, porém peculiar – golpe machista-burguês pouquíssimo divulgado pela imprensa. Ele sofria um processo por negação e impedimento judicial de investigação e reconhecimento de paternidade. A informação é do Yahoo! Notícias, na matéria “Suposta filha recebe notícia da morte ‘com tristeza’”
Alencar morreu deixando um suspeitíssimo processo de investigação de paternidade que ocorre em segredo de justiça desde 2001. José Alencar entrou com recurso e foi atendido depois de a justiça ter reconhecido que a professora aposentada Rosemary, 56 anos, era sua filha e poderia usar o seu nome. Alencar se negou a fazer o exame de DNA.
Inúmeros são os casos protagonizados pela corja de burgueses que se aproveitam sexualmente de mulheres, sobretudo das de nossa classe, sem assumir os eventuais filhos e filhas destas relações.
Pesquisando, descobri que José Alencar com cinismo, escárnio e completo machismo zombou do fato no programa do Jô (o que me embrulhou o estômago ao assistir) exibido em 3 de agosto de 2010:
“Essa senhora que fala que é mãe de uma minha filha nunca que poderia ter posto o pé naquele clube, aquilo era uma coisa... era uma religião. (...) Não há uma pessoa que tenha me visto com essa mulher. (...) “Como os próprios tribunais dizem, tem de haver indícios. Senão, amanhã, todo mundo que foi à zona um dia pode ser [submetido a exame de DNA]. (...)“São milhões de casos de pessoas que foram à zona. Só que, provavelmente, a maioria desses casos não tenham sido objeto de interesse claro, político e econômico. Agora, só pelo fato de ter sido [vice-presidente da República], eu vou me submeter a um exame de DNA, que também não é 100%?”
Estas são algumas das declarações de Alencar, entre calúnias dirigidas à mulher, mãe de Rosemary, que trabalhava como enfermeira e, em 1953, morava numa rua onde havia casas de prostituição, em Caratinga (MG). Segundo Alencar, sua esposa foi sua única namorada, mas ele classifica como namoradinhas algumas moças com quem dançava em bailes durante a juventude. E nega que uma ‘moça pobre’, como a mãe da professora, pudesse ter ido a um desses bailes.
Alencar nutriu-se, durante toda a vida de burguês, do trabalho, das energias, do suor e do sangue dos milhões de mulheres operárias que explorou na Coteminas, em Minas Gerais, no Brasil e no mundo. Ao menor indício de resistência, seu governo e do presidente Lula, colocou o exército brasileiro para dirigir a ocupação militar do Haiti e garantir a instalação das suas indústrias (e dos seus amigos, principalmente empresários norte-americanos) neste país. Uma produção com altíssimos lucros, que paga menos de dois dólares por dia à cada operária que trabalha cerca de 12 horas diárias, sob a mira das baionetas e dos abusos dos soldados da Minustah, além das péssimas condições de trabalho.
Portanto, esta é uma pequena parte da verdadeira história do grande, covarde e machista capitalista José Alencar. A verdadeira luta de José Alencar, em vida, não foi contra o câncer. Foi contra a nossa classe.
Seu império segue nos explorando, seu império segue nos oprimindo. É contra o império de capitalistas canalhas, exploradores, opressores e covardes como ele, que seguimos dedicando a nossa vida de luta pela Revolução Socialista.
15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Lembremos os nossos mortos
Jeronimo Castro*
• Na tarde do dia 17 de abril de 1996, em um trecho da rodovia PA-150 conhecido como curva do S, 19 sem-terra foram mortos e outros 60 saíram feridos em um dos massacres mais impressionantes do Brasil “democrático”.
O grupo que marchava havia feito uma ocupação da fazenda Macaxeira e exigia sua desapropriação para reforma agrária.
Era o tempo das grandes ocupações de terra, do MST com um apoio popular imenso, da reforma agrária pautada em todas as discussões políticas. De uma tremenda polarização no campo, onde sem-terra e trabalhadores de um lado, e latifundiários e burguesia do outro, lutavam para disputar que forma de propriedade e desenvolvimento agrário deveria predominar.
O efeito do massacre na população foi espantoso. Em todo o país houve atos. Em Belém do Pará, estado onde aconteceu o massacre, no dia do protesto, a Polícia Militar foi retirada das ruas para evitar que a população se enfrentasse com ela. E, raridade na história recente do país, a manifestação atacou um quartel sem sofrer nenhuma retaliação.
Nos meses que se seguiram ao massacre, o prestígio do MST cresceu como nunca. Uma marcha convocada por eles levaria ao que seria a Marcha dos 100 mil.
Quinze anos depois, nenhum dos envolvidos no massacre está preso, a reforma agrária continua por fazer e o agronegócio avançou justamente no governo do partido que supostamente era o maior aliado do MST, o PT.
O governo Lula, como nenhum outro, apoio, financiou e defendeu o avanço do capitalismo no campo. Uma contrarreforma agrária, de caráter mercantil e reacionário, foi executada. Uma campanha midiática foi feita para satanizar o MST e toda a luta pela terra. O próprio MST mudou, ao acreditar que o governo Lula era seu governo, ocupou postos na estrutura federal e freou a luta direta pela terra.
É verdade que nenhuma homenagem trará de volta os mortos, nem suprirá a ausência dos que tombaram naquele dia para seus companheiros, amigos e parentes. Os órfãos continuarão órfãos, as viúvas continuarão viúvas. Mas é necessário não deixar cair no esquecimento estes 19 mortos (1). Mais do que artigos e protestos, nós queremos homenageá-los com lutas. Manter viva não apenas na memória, mas nos nossos atos cotidianos, a bandeira que eles defendiam, e reivindicar como mais atual que nunca a luta por uma reforma agrária ampla, radical e sob controle dos trabalhadores.
Nós mantemos viva a certeza cantada naqueles dias, de que “nosso lema é ocupar, resistir e produzir”, e de que só sairá reforma agrária com a aliança camponesa e operária. Esta é a homenagem que queremos fazer a esses mortos, estes são os nossos heróis e mártires. Nós reivindicamos plenamente suas lutas, nós as levaremos adiante.
5 de mar. de 2011
4 de mar. de 2011
29 de set. de 2010
Salles e a transposição de Abril despedaçado
O diretor Walter Salles, ao traduzir Abril despedaçado para o cinema, ancorou-se em alguns dos elementos colocados no livro homônimo. Um desses elementos é a questão da morte impulsionada pela briga entre famílias e a presentificação da tradição através do respeito ao código. Ele também re-utiliza a bessa, trégua dada entre as
famílias que dura em torno de um mês e que marca as decisões burocráticas e a despedida da vida daquele que está “jurado de morte”. O nordeste é o espaço escolhido pelo diretor para desenvolver a história. A região é o cenário dos costumes tradicionais,como a disputa entre a família Breves e Ferreira. O local seco, áspero e miserável reflete a iminência da morte como anuncia o narrador-protagonista Pacu.
A passagem do tempo é incorporada cenicamente através da bolandeira. O antigo objeto que no século XIX fazia a moagem da cana representa a estrutura cíclica em que os personagens estão imersos: morte – vingança – morte. Ela destitui a humanidade dos personagens (ao colocá-los lado a lado com os bois e ratificar o discurso da força),nivela-os aos animais e reproduz a prisão existencial em que estão submetidos por força da tradição e da geografia.
A luz e o ambiente trágico
Entre as diversas concepções que interagem com a noção de fotografia no cinema,
compreendemos aqui que este elemento tem uma função dramática. A luz funciona
como um marcador que condensa um caráter narrativo e estruturante da trama.
Si la lumière peut être dramatisée, c’est que elle s’y prête de par
nature. L’art classique va jouer d’un drame proprement ontologique
(au plein sens du mot : où l’être de la lumière, et donc du
cinématographe, renvoie à l’être en général, humain en particulier). A
savoir une dualité, un dechirement de l’être intime de la lumière entre
clarté et obscurité, doublé d’une déperdition ou perte ; (D’ALLONES,
1991, p. 99)1
Do ponto vista fílmico, o primeiro elemento do romance incorporado foi a cor: o
vermelho. O frio, a aridez das montanhas e o sangue derramado (presentes no início do
livro) foram sintetizados imageticamente pela seqüência da camisa pendurada no varal,
flutuando ao sabor do vento, manchada de sangue. A carga simbólica da cena denota,
entre outras coisas, a possibilidade de comunicação com o além estabelecida pela
família-vítima. Como atesta o discurso dos personagens ao falar que o sangue
amarelado na camisa é sinal de que a alma do morto não encontrou sossego e precisa ser
vingada.
A imagem também é uma referência às tragédias gregas, pois as “camisas
ensangüentadas” aparecem como véus manchados em Oréstia, foram utilizadas pelos
habitantes de Creta durante a guerra de Tróia como elementos de comunicação com as
vítimas. Os gregos acreditavam que a recuperação do sangue não poderia ser realizada
sem o consentimento do morto (BUTCHER, 2002, p. 112). Um outro aspecto acerca da
luz no filme pode ser percebido com a utilização de sombras, representação da opressão
e da falta de perspectiva em que estão mergulhados os personagens.
Há ainda a presença constante de fortes contrastes – zonas de claro e escuro,
utilização recorrente da escuridão. A fotografia apresenta-se árida e seca, como a
geografia que cerca a casa dos Breves, áspera, em que uma parte do quadro sempre está
às escuras, representando simultaneamente a presença constante da morte, mesmo de
dia. Não há singeleza, os rostos e os elementos do quadro apresentam-se recortados e a
escala cromática vai dos ocres ao negro denso, com alguns pontos de cor,
principalmente o sangue que fotografado na cor vermelha intensa, viva. Nas seqüências
realizadas no espaço interior da casa da família Breves, como a que o pai bate em
Tonho, observamos que o diretor de fotografia utilizou apenas a luz do candeeiro para
iluminar os rostos dos personagens. A escuridão e o tom sombrio só desaparecem da
narrativa quando ocorre a ruptura no final da trama. Depois de livrar-se da opressão e do
destino trágico Tonho encontra o branco, a liberdade na praia.
Segundo Walter Salles, a concepção fotográfica de Abril despedaçado foi
inspirada no contraste entre luz e sombra trabalhado na pintura Rildebrant, pintor
viajante do século XVII, que se diferencia, por exemplo, de outro viajante por
representar o choque entre claro e escuro mais violento do que em Franz Post. Portanto
a violência da luz e a existência de zonas densas e escuras reforçam a presença
constante da morte.
1 Se a luz pode ser dramatizada, é aquela que é emprestada da natureza. A arte clássica vai jogar articular
o drama propriamente ontológico (no plano essencial da palavra: onde está a luz, e o reconhecimento da
dualidade íntima da luz entre claro e escuro, duplo de uma repartição).
A construção dos personagens
O narrador-personagem deixa de ser o jornalista viajante e passa a ser o Menino,
depois batizado de Pacu, que é apresentado como aquele que representa a voz da ruptura
dentro da trama. As cenas, como a que ele discorda do pai quando este delega a Tonho a
tarefa de matar o inimigo da outra família, ou quando ele imagina-se no mar
representam a idéia de que a sua inocência (trazida pelo olhar infantil) aponta para o
espaço da liberdade, pois ele é colocado como aquele que rompe as amarras da tradição
sertaneja.
Tonho é apresentado como “aquele condenado à morte”, mas que, ao conhecer o
amor de Clara, encontra-se novamente com a vida. O pai, um homem rígido, opressor e
rude, que busca a todo custo honrar o nome da família. A mãe é uma mulher oprimida
pelo marido. Os artistas mambembes, Salustiano e Clara, representam a possibilidade de
um mundo além do sertão. A cena em que os mambembes dão a Pacu um livro “com
histórias de peixe”, despertando no menino a curiosidade por um outro mundo. Clara ao
despertar o amor em Tonho possibilita-o de romper com o caminho que o levaria a
morte e leva-o à descoberta da vida.
Os personagens da família Breves carregam a sombra da morte, a violência trazida
pela luta entre famílias e a vida marcada por um destino pré-determinado e
fundamentalmente trágico. Na relação entre pai, mãe e filho não há espaço para
diálogos, afetos e ternura. Os dois filhos são representações de personagens símbolos
que traduzem a falta de identidade e a não-relação com a figura paterna.
2.2 O diálogo com o Cinema Novo
O diálogo da obra fílmica com a estética cinemanovista é bastante preciso à
medida que o diretor recorre a técnicas cinematográficas que se tornaram referência na
produção da década de 60. Uma destas técnicas é o uso da câmara na mão, utilizada, por
exemplo, na seqüência em que Tonho mata um filho da família Ferreira. Outra
característica é o tratamento de temas como a violência.
Do Cinema Novo: uma estética da violência, antes de ser
primitiva, é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o
colonizador compreenda a existência do colonizado; somente
conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador
pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora.
Enquanto não ergue as armas, o colonizador é um escravo; (ROCHA,
1965, p. 165)
Salles incorpora alguns pressupostos da “estética da violência” glauberiana, como
a questão da necessidade de ruptura para o processo de libertação, visto no filme na
seqüência em que tanto Tonho, quanto Pacu desobedecem à norma, rompendo com a
estrutura e a perpetuação do ciclo. A ambientação no Sertão nordestino também aponta
para um diálogo com o Cinema Novo, pois o espaço é considerado simultaneamente
como local da tradição e da libertação nacional.
Conclusão
Ao articular o discurso literário ao fílmico Walter Salles compõe uma narrativa
que se aproxima em alguns momentos da obra inspiradora, viabilizando
cinematograficamente questões relacionadas ao tempo (a bolandeira) e a dimensão
trágica (observada na fotografia), por exemplo. Do ponto de vista da transposição do
espaço, que originalmente foi representado nas montanhas albanesas, ele retoma o
discurso dos cinemanovistas para respaldar a idéia de que o Sertão seria o local que
possibilitaria a ruptura social e a quebra da alienação. Neste sentido, a ambientação da
trama ganha um aspecto duplo e contraditório, pois representa o “local da revolução” e
o espaço que determina a vida dos personagens.
Do ponto de vista dos personagens encontramos algumas mudanças que
apontam para uma tentativa de apaziguar o aspecto tenso do livro. Para tanto, ele troca o
personagem do escritor pelo do menino e acrescenta os personagens mambembes que
trarão um tom lúdico à trama.
Referências Bibliográficas
BUTCHER, Pedro, MÜLLER, Ana Luíza. Abril despedaçado: história de um filme.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
KADARÉ, Ismail. Abril despedaçado. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo:
Brasiliense, 1983.
Autor
1 Raquel do MONTE, Mestrando em Comunicação
Universidade Federal de Pernambuco.
E-mail: rdomonte@gmail.como
1 de jul. de 2010
GOLPE EM HONDURAS
Ainda sem um acordo para a crise, o golpe de Estado que levou à deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, completa um ano nesta segunda-feira. No dia 28 de junho de 2009, o Exército tirou Zelaya da residência presidencial, pela manhã, ainda de pijamas.
Os desentendimentos no país começaram quando o presidente deposto tentou fazer um referendo popular para que fosse permitida a reeleição presidencial na Constituição de Honduras. Uuma tentativa de continuar no poder. No país, o mandato de um presidente da República dura quatro anos e a reeleição é proibida pela Constituição, por meio de uma cláusula pétrea – ou seja, que não pode ser alterada.
Sem apoio de seu partido e do Congresso, Zelaya foi detido pelo Exército do país e levado à Costa Rica. Assim, com a queda do presidente eleito, diversos problemas políticos começaram a atingir o país. Internamente, Honduras se dividiu entre os manifestantes que apóiam e os que reprovam Zelaya. Passeatas, manifestações e confrontos violentos marcaram os dias que se seguiram. Além disso, a retirada forçada do presidente do poder não foi bem aceita por países como os Estados Unidos, Venezuela, Bolívia e Brasil.
Falta de reconhecimento no cenário mundial
O doutor em ciência política Moisés da Silva Marques, professor no curso de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP, explica que a situação atual no país não é como na época do golpe. Atualmente, “a grande questão é o reconhecimento do país nas relações internacionais”, diz.
“Na última reunião da cúpula da America Latina, da qual participaram países da região do Caribe, Brasil, e outros, não foi permitida a participação de Honduras, pois muitos países não reconhecem a posição do presidente Porfírio Lobo” [que assumiu o poder após as eleições realizadas em 29 de novembro de 2009], exemplificou.
Além da pressão dos países para excluir Honduras de encontros como esse, o golpe trouxe ainda outros prejuízos para o país, como a exclusão da Organização dos Estados Americanos (OEA). “A OEA é a mais antiga organização da região, ela zela basicamente pela questão de segurança, questão ambiental, paz na região, entre outras”, explica o professor. “É a ‘ONU’ regional”, classifica.
A exclusão de Honduras da organização aconteceu poucos dias depois do golpe contra Zelaya. Na época, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, condenou a deposição do presidente.
No início deste mês, a OEA aprovou a criação de uma comissão especial para avaliar a criação de uma comissão que deve avaliar a possibilidade de reintegração de Honduras. A comissão deve analisar a situação política e jurídica do país até o próximo dia 31 de julho.
21 de jun. de 2010
15 de jun. de 2010
A menina e o pássaro encantado
A menina e o pássaro encantado
uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
9 de mai. de 2010
Superexploração sustenta a recuperação da economia
• Mário* trabalha em uma unidade da siderúrgica Gerdau em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, há mais de vinte anos. É do setor de produção de cilindros utilizados para laminação, que abastece principalmente as fábricas de auto-peças. No final de 2008, como inúmeros outros trabalhadores país afora, ele percebeu que a “marolinha” de Lula era na verdade um tsunami. A crise internacional chegava com tudo no Brasil, deixando um rastro de demissões no setor industrial.
Primeiro, a produção caiu drasticamente. Depois, vieram os cinco meses de férias coletivas, e o inevitável medo da demissão. O tempo passou e a siderúrgica foi aos poucos retomando o ritmo. Muitos trabalhadores, porém, não retornaram. “Mais de 300 foram mandados embora”, atesta Mário, que calcula trabalharem na unidade uns 2 mil funcionários.
Hoje, quase um ano e meio depois da chegada da crise, a produção está quase no mesmo nível que antes. “Fazíamos cerca de 10 cilindros por dia, hoje estamos fazendo algo como 7 ou 8”, diz. A diferença, porém, é que, se antes havia 75 trabalhadores na mesma área que trabalha Mário, hoje há somente 40. Resultado: horas extras, pressão para aumentar ainda mais o ritmo de trabalho e assédio sobre os trabalhadores.
Na fabricante de aeronaves Embraer, em São José dos Campos (SP), isso é ainda mais explícito. Em 2008, a empresa produziu 204 aviões, no ano seguinte foram 244. E isso com 4.200 trabalhadores a menos.
Esses exemplos mostram exatamente a realidade nas fábricas hoje. O governo e a imprensa fazem alarde sobre o suposto fim da crise e a retomada do crescimento econômico. Na indústria, prevalece o discurso otimista que dá a entender que as dificuldades ficaram para trás. O que ninguém diz, porém, é que a tal recuperação se dá às custas do aumento brutal da exploração dos operários.
O que sustenta a “recuperação”?
No Brasil, a indústria foi o setor mais afetado pela crise. Para enfrentá-la, as empresas, com o apoio de centrais como CUT e Força Sindical, lançaram mão além das demissões, de férias coletivas com redução dos salários e todo tipo de flexibilização. Queriam manter suas margens de lucros reduzindo os custos com mão de obra. Além da Embraer, que demitiu 4 mil trabalhadores, a também privatizada Vale dispensou 1,3 mil. E a General Motors, recuou em 2.500 postos de trabalho em São José dos Campos (SP).
O governo Lula, por sua vez, lançou mão de uma série de medidas para ajudar os empresários. Bilhões em subsídios, financiamentos a juros baixos e isenções fiscais protegeram os lucros das grandes empresas e multinacionais.
A produção industrial ainda não retomou os níveis pré-crise, mas aumentou seu ritmo. Os patrões, porém, valendo-se da máxima que “crise” é sinônimo de oportunidade, arrumaram logo um jeito de lucrar ainda mais.
Como já haviam demitido, para que recontratar todos se podem forçar os trabalhadores que ficaram a trabalhar mais? Gastando menos com mão de obra e contando com a ajuda do governo, a Embraer, por exemplo, aumentou em 109% seu lucro líquido. Há hoje, em toda a indústria, 300 mil operários a menos do que em outubro de 2008.
Mais por menos
Se antes da crise, em pleno crescimento da economia, já havia uma enorme pressão para o aumento da produtividade, depois da onda de demissões isso só piorou. Como a produção cresce numa proporção maior que os empregos, os trabalhadores são obrigados a compensar essa diferença aumentando seu ritmo e a jornada de trabalho.
A metalúrgica Beatriz é auxiliar de produção e opera uma máquina de solda. A jornada é extenuante e as horas extras cada vez mais frequentes. “Trabalho 8 horas por dia na semana e 7 horas no sábado, mas ultimamente sempre tem hora extra no domingo”, relata. Quando faz hora extra, trabalha outras 8 horas.
Para a refeição, são 30 minutos. Mas na prática pode ser menos. A gente só sai, come e já volta.” Tudo muito corrido “para que a máquina não fique parada”.
O jovem Bruno, funcionário de uma autopeça de São Paulo, vê essa realidade cotidianamente. “Tem um setor grande da empresa que faz muitas horas extras”, relata. “Agora estão dizendo que a segunda parcela da PLR vai depender do rendimento, da produtividade, qualidade, e da frequencia”, conta o metalúrgico que ganha R$ 4,60 a hora e que percebeu um aumento no ritmo de trabalho nos últimos meses.
Controle
No último trimestre de 2009, a produtividade dos trabalhadores da indústria cresceu 10% em relação ao mesmo período do ano anterior. Enquanto a produção cresceu 5,8%, o emprego diminuiu 4%.
Como se não bastasse, a média salarial diminui, pois os operários que entram no mercado de trabalho são obrigados a aceitar salários mais baixos. Ajuda nisso a altíssima rotatividade da mão de obra.
Se os mais novos já são contratados sabendo dessa situação, os mais antigos são disciplinados, com um controle cada vez mais rígido do serviço. “Dizem bem claramente: quem não se enquadrar no sistema, é rua”, conta Mário. Não é de se espantar, assim, os cada vez mais frequentes acidentes de trabalho. Só na Gerdau de Pindamonhagaba foram oito só na época do carnaval.
* Todos os nomes são fictícios
“Vocês vão ganhar três vezes menos”
“Quem não estiver satisfeito, pode procurar outro emprego”. Foi o que Mauro ouviu na entrevista de seleção para um trabalho em uma fábrica de auto-peças do grande ABC, que tem cerca de 6 mil operários.
Durante a crise, a fábrica demitiu todo um setor da unidade, a fim de terceirizar o serviço e cortar custos. Não deu certo e a empresa teve que abrir novas contratações. Mas vão pagar um terço do que recebem os antigos funcionários. “Eles logo advertiram: aqui dentro vocês vão ouvir toda hora que estão ganhando menos que os outros”, conta Mauro.
Se antes do auge da crise, um operário ganhava quase R$ 10 por hora, agora a empresa oferece apenas R$ 3,50 aos que quiserem entrar.
No 1º de maio, Serra e Dilma fazem campanha eleitoral com recursos públicos
• Nesse 1º de maio a imprensa destacou os atos-shows promovidos pelas maiores centrais sindicais, que reuniram centenas de milhares de pessoas, principalmente na capital de São Paulo. Como já vem ocorrendo há vários anos, foram eventos bancados por estatais, bancos e empresas privadas, o que garantiu a contratação de uma série de artistas famosos, além do sorteio de carros e apartamentos.
Como este é um ano eleitoral e o clima de campanha já está se impondo, o governo se aproveitou disso para promover sua candidata à Presidência. Dilma Roussef não perdeu tempo e, ao lado de Lula, compareceu ao evento da Força Sindical e CGTB, ao ato organizado pela CTB, que também reuniu a UGT e a NCST e, encerrou o dia na festa da CUT.
Segundo a Folha de S. Paulo, só as estatais como Petrobras, Caixa e Banco do Brasil despenderam algo como R$ 2 milhões aos eventos que serviram como verdadeiros palanques eleitorais à candidata do governo. Nos atos, Lula mal teve a preocupação de disfarçar sua real intenção em comparecer pela primeira vez aos atos de 1º de maio, em oito anos de governo. Como no ato da Força, em que afirmou ao público: “Vocês sabem quem eu quero”.
Campanha eleitoral
Diante da escancarada campanha eleitoral realizada por Lula, Dilma e os dirigentes das centrais, o PSDB anunciou que entraria com uma ação no TSE por campanha eleitoral antecipada e financiada com recursos públicos. O que os tucanos não dizem, porém, é que, justo no momento em que Lula e Dilma faziam campanha nas festas das centrais, Serra participava de um evento religioso em Santa Catarina, bancado com verbas públicas de administrações tucanas.
O evento, organizado pela ONG Gideões Missionários da Última Hora, ligada à igreja Assembleia de Deus, recebeu R$ 540 mil do governo de Santa Catarina e da Prefeitura de Camboriú, ambos governados pelo PSDB. No congresso religioso, assim como Lula, Serra fez campanha aberta e chegou a pedir oração para ter “sabedoria para enfrentar as lutas e desafios daqui por diante”. O candidato tucano foi aclamado ainda como o “futuro presidente” pelos dirigentes da igreja.
Esse 1º de maio mostra, assim, que tanto o PT quanto o PSDB não pensam duas vezes antes de utilizar recursos públicos para promoverem seus candidatos. Expõe ainda o atrelamento das cúpulas das centrais sindicais ao governo, o mesmo que se recusa a reduzir a jornada de trabalho ou reajustar as aposentadorias, bandeiras que essas centrais dizem defender. É bom notar ainda que não só o PT que recorre às centrais sindicais pelegas em época de eleições. Em 2006, quem compareceu ao ato da Força Sindical em São Paulo, por exemplo, foi o então candidato à Presidência Geraldo Alckmin, que deve disputar o governo do estado este ano.
Financiamento
Um outro aspecto desse 1º de maio, além dos recursos públicos e das centrais pelegas, é o financiamento privado dessas festas. Que interesses tem, por exemplo, o Santander, Brahma ou Casas Bahia em financiar os atos e, por extensão, essas campanhas eleitorais? Isso se dá pois, uma vez eleito, tanto o PSDB quanto o PT governam para as grandes empresas. Nesse dia 4 de maio um levantamento da Folha mostra que 68% de tudo o que PT, PSDB, PMDB e DEM receberam em 2009 vieram de empreiteiras. Só o PT levou quase R$ 45 milhões. E olha que nem foi ano eleitoral!
É como diz o ditado: quem paga a banda, escolhe a música. É por isso que o PSTU se recusa a receber doações de empresas ou bancos, sendo financiado exclusivamente pelos trabalhadores. São os militantes e simpatizantes do partido que sustentam inclusive nossa campanha eleitoral, garantindo assim total independência na defesa da classe trabalhadora, na luta contra o capitalismo, e por uma sociedade socialista.
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“Greve, greve, greve!”. O coro tomou conta da Praça do Patriarca, no Centro da capital paulista, na tarde desta quarta-feira, 4, interrompen...