10 de ago. de 2009
Os discursos tradicionais cederam lugar às músicas, “mística” e palavras de ordem, na abertura do 15o Grito da Terra, nesta terça-feira (26), em Brasília. Já era quase meio-dia quando foi iniciada a cerimônia. Sob um sol forte, os manifestantes, espalhados no gramado em frente ao Congresso Nacional, deram-se as mãos, em uma demonstração de união, e acompanharam a “oração”: “Esse é um grito que vem do campo, clamando por paz e justiça social”, repetiram.
Os manifestantes demonstraram união com as mãos dadas durante a "mística"
A seca no Sul e as enchentes no Nordeste comprometeram o comparecimento dos manifestantes, mas este ano, o ato ganhou em organização. A avaliação é de Pascoal Carneiro, secretário nacional da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), que participou do evento, sendo saudado pelo presidente da Contag, Alberto Broch.
Pascoal Carneiro destacou que a organização está mais avançada, a pauta está mais enxuta e as negociações e contatos começaram mais cedo. Em resumo, o evento está mais bem preparado.
Agitando as bandeiras, os manifestantes desciam dos ônibus que os trouxeram do Estádio Mané Garrincha, onde estão acampados, acompanhando o refrão da música que vinha do carro de som: “Esse é o nosso país/Essa é a nossa bandeira/É por amor a essa pátria Brasil/Que a gente segue em fileira.”
Um ajuda o outro
Iara Aparecida de Sousa viajou mais de 24 horas, de Baliza, em Goiás, até Brasília, para participar, pela primeira vez, da manifestação. O marido, ao lado, Dalro Moreira Lopes, já é veterano. Eles são do Assentamento Bebedouro e se queixam das dificuldades para liquidar os débitos com o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Sebastião dos Santos Farias, também do Assentamento Bebedouro, grita, tentando superar o som do auto-falante: “É por causa disso que eu estou aqui.”
Iara interrompe para dizer que “cada assentamento tem uma dificuldade, é terra, crédito, infraestrutura”, explicando que todos estão na manifestação “para cada um ajudar o outro.” Ela diz ainda que não veio só para se queixar: “Do (Presidente) Lula, a gente não tem do que reclamar, se não fosse ele, a gente tava morto.”
A desburocratização na liberação de créditos faz parte da pauta de reivindicações. Pascoal Carneiro explica que, ao contrário dos empresários do agronegócio, os pequenos agricultores não dispõem de serviços de assessoria e advocacia para produção de projetos, o que dificulta o acesso ao crédito. Diz ainda que as alterações climáticas – secas e enchentes – dificulta o pagamento, defendendo a criação de mecanismos de seguro para os créditos.
Sem explicação
O secretário-geral da Contag, que é também vice-presidente da CTB, Davi Souza, explica que o aumento de áreas para a reforma agrária continua a ser a principal reivindicação do movimento. “Um governo popular, não explica a lentidão da reforma agrária”, destaca, acrescentando que existem outras demandas. Oura grande preocupação é com a produção rural.
Para o dirigente sindical, o governo está pressionado entre o grande produtor rural e a agricultura familiar, e a garantia de recursos para assistência técnica, crédito e infraestrutura é uma decisão política. Segundo ele, “o reforço na agricultura familiar garante o equilíbrio social do campo e da cidade.”
Ele lembra ainda, como importante reivindicação do movimento, a atualização do Código Florestal. “Queremos tratamento diferenciado para que agricultores familiares possam conciliar a produção de alimentos com a conservação do meio ambiente”, afirma. Segundo ele, essa é uma demanda que beneficia o campo e a cidade
Data-base dos agricultores
O Grito da Terra é o principal evento do movimento sindical do campo. A manifestação é considerada como uma espécie de data-base dos agricultores familiares, dos trabalhadores sem-terra e dos assalariados e das assalariadas rurais brasileiras.
A pauta do Grito da Terra Brasil é ampla e reúne reivindicações relativas às políticas agrícolas (assistência técnica, crédito), à reforma agrária (desapropriação de terras e criação e manutenção de assentamentos), às questões salariais (cumprimento e ampliação das leis trabalhistas) e às políticas sociais (saúde, previdência, educação e assistência social). A mobilização também defende os interesses das mulheres trabalhadoras rurais e da juventude rural.
O objetivo dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, acampados em Brasília durante esses dois dias – terça e quarta-feira (27) - é acompanhar as negociações finais e pressionar o governo federal para atender à pauta de reivindicações que foi entregue ao presidente Lula dia 29 de abril. A Comissão de Negociação da Contag participou de 38 reuniões com ministros, secretários e técnicos de órgãos da administração pública federal nas duas últimas semanas.
Homenagem a Adão Preto
Nesta quarta-feira, a Câmara dos Deputados realiza audiência púbica de acolhimento ao Grito da Terra 2009. O encontro, que tem como tema a Reforma Agrária: Conquistas e Perspectivas, será realizado pela Comissão de Direitos Humanos em parceria com as comissões de Legislação Participativa e Agricultura.
A audiência pública será aberta pelo presidente da Casa, deputado Michel Temer (PMDB-SP) e terá a presença de lideranças nacionais do movimento campesino. Na ocasião será feito homenagem especial ao ex-deputado Adão Preto (PT-RS), que morreu este ano e é lembrado como representante dos movimentos camponeses no Parlamento.
De Brasília
Márcia Xavier
8 de ago. de 2009
SOCIALISMO/REAL
O desejo de viver uma existência filosófica significa admitir que as questões são interiores à nossa vida e à nossa história e que elas tecem nosso pensamento e nossa ação. Significa também uma relação com o outro na forma do diálogo e, portanto, como encontro generoso, mas também como combate sem trégua. Encontro generoso porque, como nos diz Merleau-Ponty, no diálogo somos libertados de nós mesmos, descobrimos nossas palavras e nossas idéias graças à palavra e ao pensamento de outrem que não nos ameaça e sim nos leva para longe de nós mesmos para que possamos retornar a nós mesmos(Chaui: 2001).
O que é um mito?.
Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da
Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do
bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das
raças, das guerras, do poder, etc.)
Existem heróis e heróis. Se existe algo que me irrita profundamente é o jeito sem cerimônias com que o mestre-de-cerimônia do Big Brother Brasil saúda aquela penca de jovens – mais um ou dois da terceira idade – confinados na casa montada pela TV Globo no Rio de Janeiro: "Boa noite, meus heróis!" De tanto usada, a frase virou bordão do BBB. Seu autor? O jornalista e dublê de guru do programa, Pedro Bial.
Ora, o que há de heroísmo em um programa que, longe de agregar conhecimento, é um poço de futilidades onde quanto mais se escava mais há para se escavar? 15 ou 16 pessoas vendendo sua intimidade, seus pensamentos e corpos, hábitos e sotaques, expondo-se ao ridículo em centenas de situações, muitas destas de gosto profundamente duvidoso, tudo em troca de prêmios avulsos ou do prêmio maior de R$ 1.000.000.00. Repito, o que há de heroísmo nisso?.
Mas isso ?já passou?, agora a tentativa é tornar medalhistas com resultados apenas razoaveis( considero assim pois o Brasil se tivesse estrutura poderia formar cidadãos que quisessem praticar esporte em vencedores-tomara que consciente da miséria concreta do páis como um todo).O brasileiro foi e voltou na piscina do Foro Itálico para bater o recorde mundial da prova e garantir o primeiro ouro do país no Mundial de Esportes Aquáticos, em Roma.Na cerimônia de premiação, Cielo subiu no palanque branco com um largo sorriso no rosto. Abraçou os franceses Alain Bernard e Frederick Bousquet, que completavam o pódio, e recebeu sua histórica medalha de ouro. Cantou o Hino Nacional até a metade, e a partir dali se dedicou à missão de segurar o choro. Foi por pouco tempo.
Quem chora por seu país, enquanto na
quarta-feira (5), o presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, Paulo Duque (PMDB-RJ), rejeitou as sete acusações restantes contra o presidente do Senado, José Sarney: quatro representações e três denúncias. Na quarta-feira, ele já havia arquivado quatro acusações contra Sarney, além de uma contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Naquele mesmo dia, o presidente do Senado apresentou sua defesa em Plenário, negando ter cometido qualquer irregularidade.
É claro que a mídia burguesa, agora na tentativa de rever toda sua falta de ética, até por que também defende outro lado das oligarquias do país(PSDB E DEM)não tem moral real ou filosófica patinan ao não questionar do mesmo modo práticas corruptas como as do senador Artur Virgilio.
Penso no sul-africano Nelson Mandela, que passou 30 anos – mais que um terço de sua vida – preso nos calabouços das prisões sul-africanas por se opor ao regime do apartheid. Mandela sabia estar diante de uma das mais terríveis iniqüidades que um ser humano poderia cometer contra um seu semelhante: a superioridade afirmada de forma violenta com base na cor da pele. Quem, senão a coragem, pode acalentar um homem preso durante três décadas? Kofi Annan, sobre ele escreveu: "Se estivermos à altura de uma pequena parte do que Mandela é, o mundo será um lugar melhor."
Reconheço, meio a contragosto, que todos os heróis são espelhos do mundo e da sociedade em que vivem. Os heróis da industria cultural espelham o mundo da futilidade, o hedonismo, o império dos sentidos humanos, a interação quase total entre os espaços público e privado. Meus heróis espelham o mundo dos ideais, dos valores humanos, do desprendimento e do amor à espécie humana. Os heróis da industria do consumo lutam pelo prêmio financeiro e pelas conseqüências advindas de contratos pecuniários no mundo artístico. Meus heróis lutaram por aquilo em que acreditavam e sua recompensa era tão somente o sentimento de possuírem consciências tranqüilas, tanto que o mito do herói não foi por eles desfrutado: morreram em si para darem vida ao herói que neles subsistia.Che Guevara,José Martí,Gabriel García Márquez,Pablo Neruda,Milton Santos etc etc.
Jõao Filho. Professor de história na rede pública de São Paulo- Pós graduado em met. do ens. de filosofia.
2 de ago. de 2009
Escola de transgressão
Acusações de corrupção mudaram de sentido ao longo da história, mas a cultura da infração nasce da distância entre as leis e a sociedade.
Nas manchetes dos jornais, os escândalos de corrupção se repetem numa regularidade quase monótona. Diante de uma aparente crise geral dos valores éticos e de impunidade institucionalizada, o risco que corremos, no Brasil de hoje, é entrar num torpor cívico que não nos permita ultrapassar a pergunta: “E agora?”.
Para entender o agora, talvez um bom exercício seja aplicar nossa perplexidade a uma dimensão maior. A dimensão histórica. Será que a corrupção de hoje é a mesma que a de há 100 anos? Há mais corrupção hoje do que antes? Aumentou a corrupção ou aumentou a sua percepção e a postura diante dela?
Uma seqüência de episódios reforça a impressão de que a corrupção sempre esteve entre nós. No século XIX, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getulio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de combater a corrupção e foi expulso do poder acusado de fazer o que condenou. Nos últimos anos, as denúncias proliferam, atingindo todos os poderes e instituições da República e a própria sociedade. (...)
José Murilo de Carvalho.
30 de jul. de 2009
O DESCRÉDITO DAS INSTITUIÇÕES
É difícil saber o que tem sido mais danoso ao povo brasileiro: se é o modelo econômico real gerador da desigualdade, que patrocina uma elite privilegiada e deixa a grande maioria distante da riqueza produzida, ou se é o contínuo descrédito moral e político das instituições públicas que deveriam promover o bem estar geral da Nação.
A sucessão de desmandos e escândalos alimenta a descrença generalizada nos partidos políticos, nos governos, nos homens públicos e no papel do Estado como instância e instrumento capaz de enfrentar e resolver os problemas da sociedade. A desmoralização dessas instituições sustenta a apatia coletiva, a baixa estima popular, a desa-gregação social e a individualização das soluções.
Cada vez que um Sarney da vida tem as suas falcatruas escancaradas, massivamente sensa-cionalizadas pela mídia, reforça-se no seio da so-ciedade brasileira que as instituições só servem mesmo para os interesses da bandidagem; reitera-se a incapacidade das próprias instituições em sanar os esquemas de corrupção; reafirma-se a convicção de que a podridão contamina todos aqueles que se aproximam das instituições públicas.
O escândalo Sarney expressa exatamente a dose de descrédito que os donos do capital e defen-sores da supremacia dos mercados, precisam aplicar de tempos em tempos no povo para reforçar, de um lado, a inviabilidade das insti-tuições públicas como instrumentos de transfor-mação, e, de outro, o sentimento popular de re-jeição, asco e apatia diante da estrutura estatal.
A vida pregressa do senador Sarney vem desde os tempos em que ele fustigava os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino e João Goulart; desde os tempos em que ele deu total apoio à Ditadura Militar; desde que ele instalou no Maranhão uma oligarquia sustentada na apropriação das terras, bens e dinheiro públicos, nas negociatas e no empreguismo de parentes e apaniguados. Nada disso é novidade, José Sarney já deveria ter sido varrido da vida pública há muitos anos.
A novidade está no fato de que o velho oligarca está sendo rifado pela sua turma da direita, pelos partidos conservadores que são porta vozes das elites e do capital privado, pela mídia neoliberal; e a novidade está no fato de que o velho oligarca tem sido defendido e preservado pelo presidente Lula e por setores do próprio PT, por pessoas cujas trajetórias políticas foram construídas no campo democrático e progressista.
Portanto, não é a ficha corrida de Sarney que está no momento realimentando a descrença do povo nas instituições públicas; é a posição de Lula e dos parlamentares do PT que causam surpresa, espanto, indignação e, de novo, mais desânimo diante dos partidos, do Congresso Nacional, dos governos e do papel do Estado. A podridão de Sarney contamina um pouco mais a expectativa popular de que as instituições repu-blicanas possam ser instrumentos de trans-formação. As forças conservadoras do sistema sabem muito bem que podem pagar o preço de perder o seu velho aliado oligarca, desde que a contaminação dos setores progressistas atinja diretamente a auto estima do povo. Para elas, um povo desanimado, descrente, apático, é muito mais fácil de ser controlado.
Uma forma de romper esse círculo vicioso da dominação de classe é o povo trabalhador cons-truir instrumentos de luta que não se confundam jamais com os interesses das forças dominantes. Caso contrário, vamos continuar no show nosso de cada dia...
Hamilton Octavio de Souza é professor de Jornalismo da PUC
16 de jul. de 2009
SEM CONFLITO NÃO HÁ SOLUÇÃO
O noticiário dos últimos dias parece um velho videoteipe de tudo o que tem acontecido no Brasil por décadas seguidas. Nepotismo no Senado Federal, corrupção de banqueiros e empresários, denúncias e processos das relações promíscuas entre servidores públicos e o capital privado, serviços públicos privatizados que não funcionam e ao mesmo tempo lesam os cidadãos, a imensa desigualdade entre ricos e pobres cada vez mais eternizada apesar de todas as mudanças institucionais-eleitorais testadas desde o fim da ditadura militar. O Brasil patina na própria história: os fatos se repetem, monotonamente; as promessas de resolução dos problemas se revezam nas manche-tes dos meios de comunicação e imediatamente caem no esquecimento; medidas moralizadoras e progressistas são substituídas na calada da noite por mais da mesma bandalheira conservadora; as velhas oligarquias confra-ternizam com as elites empresariais com os altos funcionários dos Poderes da República com os ascendentes sociais das esquerdas pós-modernas; o capital estrangeiro deita e rola numa rapinagem sem fim do suor do trabalhador brasileiro e de todos os recursos naturais. Todos se acertam numa ciranda geral em benefício dos que podem mais. A grande mídia conservadora neoliberal-burguesa faz o circo para o povo enquanto os negócios do lucro e da rentabilidade caminham nas sombras dos palácios e das mansões – onde se rateia o botim diário e do que está por acontecer. Os jovens estão sem futuro e os velhos estão esgotados. O Brasil perde a identidade e perde um a um todos os trens da história.
O cerco é fechado com os persistentes discursos da pacificação nacional, da governabilidade, da hospitalidade, da tradicional índole popular pacífica e ordeira, da negociação a qualquer preço, da paciência, da permanente transição acima de tudo, do diálogo e do respeito às instituições e à democracia que camufla o domínio da exploração e da opressão de classe – da classe dominante que detém o capital, a terra, os bens patrimoniais e o controle absoluto de todos os negócios do Estado, das empresas e entidades privadas, do aparelho
ideológico da educação, da cultura e dos meios de comunicação de massa. O discurso dominante aplaca a indignação, a conscientização, a crítica, a revolta, a ira, a rebeldia e o conflito. Estimula o comodismo, o conformismo, a consolação, o individualismo, a inércia, a não-luta. O discurso dominante disse-mina a conciliação, a confraternização, o respeito, a subserviência, o sacrifício, o medo, a convardia, a complacência, o entendimento, a passividade, a falsa idéia da igualdade. Todos nós do povo – das classes trabalhadoras – estamos dominados ideologicamente pelo sentido de uma sociedade única, harmoniosa, humana, brasileira, com os mesmos sonhos, os mesmos ideais e os mesmos objetivos de vida.
Por tudo isso o Brasil não muda. Vive em duradouro empate – no qual os privilegiados de sempre (e os novos privilegiados que o sistema permite ascender de tempos em tempos) continuam levando vantagem, enquanto a grande maioria continua em permanente reprodução de sua própria miséria e indigência. Por tudo isso que o Brasil patina, derrapa, não consegue levar adiante um novo projeto de nação, não consegue virar as páginas da história, não consegue deixar para trás os entulhos da escravidão, das oligarquias, do coronelismo e da ditadura. Por tudo isso que a Casa Grande impera imponente no Brasil do século 21. Porque não acreditamos no conflito, não aceitamos que sem conflito não há solução. Sem conflito não há solução! Sem conflito não há solução! Hamilton Octavio de Souza é editor chefe da Caros Amigos e professor de jornalismo da PUC-SP
15 de jul. de 2009
Lula e Sarney, uma dupla de ases
Hoje, muitos trabalhadores estão se preparando para suas campanhas salariais, como metalúrgicos, bancários, petroleiros, trabalhadores dos Correios e da mineração. Vários setores do funcionalismo municipal, estadual e federal estão em mobilização também, incluindo a atual greve do INSS. É necessário apoiar e unificar essas lutas. Cada vitória dessas categorias pode fortalecer o conjunto dos trabalhadores no enfrentamento com a crise econômica, que vai se abater com muita força sobre o país. Mas é preciso também discutir política. A maioria desses trabalhadores apoiam o governo Lula. Mesmo que fiquem indignados com escândalos como os do Senado, não os ligam ao governo. Esse é um erro grave, pois essas crises são muito importantes para entender o país.Tanto PT como PSDB e DEM estão metidos na corrupção
A primeira lição que esta crise nos ensina é que o conjunto dos partidos majoritários do país está complemente envolvido na corrupção. Isso inclui em primeiro lugar o PT, que defende José Sarney, presidente do Senado e responsável pela maioria absoluta dos escândalos. Sarney foi quem nomeou Agaciel Maia como diretor administrativo do Senado em 1995. Em 1997, Maia deslocou um fundo destinado à saúde dos funcionários para três contas praticamente secretas controladas apenas por ele e que têm hoje 160 milhões de reais. Ele não poderia ter feito isso sem a ordem de Sarney. Foi também Agaciel que instrumentou, sob as ordens do senador, mais de 600 atos secretos, que nomeavam e aumentavam os salários de parentes dos parlamentares, ou que garantiam o pagamento de funcionários particulares desse pessoal com o dinheiro público.
escandaloso foi o do mordomo pessoal de Roseana Sarney, que recebia 12 mil reais dos cofres do Senado. Esses atos eram secretos para nós, mas do conhecimento de boa parte dos senadores, a começar pelos diretamente beneficiados. Isso inclui todos os partidos majoritários, inclusive a oposição de direita, o PSDB e o DEM. O líder dos tucanos no Senado, Arthur Virgílio, recebeu também um "empréstimo" em dinheiro de Agaciel. Por que Sarney ainda não caiu?
O presidente do Senado é a direção de tudo isso. Ele indicou os funcionários que editavam e controlavam as contas. Existem centenas de provas de corrupção e nepotismo. Seria fácil provar sua culpa e derrubá-lo.Mas Sarney é um velho cacique que sobreviveu a crises desde a ditadura militar até os dias de hoje, sempre junto ao poder. Ele sabe que compartilha a responsabilidade por esses atos com todos os partidos majoritários. É um "ás" das manobras de bastidores, um exemplar perfeito do "político" repudiado por todo trabalhador honesto.Lula também é outro "ás". Um ex-líder sindical capaz de enganar os trabalhadores dizendo que está do seu lado, quando faz um governo a serviço das grandes multinacionais, apoiado por gente como Sarney. Juntos, formam uma dupla de ases.O PT, quando já era impossível ocultar os fatos, ensaiou uma retirada do apoio a Sarney. Mas Lula em pessoa mandou o partido recuar.Para não cair, o senador ameaçou o governo com a retirada do apoio do PMDB a Dilma Rousseff nas eleições de 2010. Isso teve, pelo menos de imediato, o efeito desejado: garantiu o apoio do PT à sua permanência como presidente do Senado. A base governista é quem pode destituir ou manter Sarney. Ou seja, ele não cai porque Lula não quer. Os trabalhadores precisam saber disso! Fora Sarney! Abaixo o Senado!
Perante essa realidade, nós defendemos o Fora Sarney. Abaixo o corrupto e líder dos corruptos. É fundamental também apurar as responsabilidades de todos os senadores, além de Sarney, verificando os beneficiados com as maracutaias dos atos e contas secretas.Mas não paramos por aí. Não se pode utilizar a queda do peemedebista para defender o Senado. O PSOL, neste momento, desenvolve a campanha do Fora Sarney, para, nas palavras do próprio senador José Nery (PSOL-PA), "limpar a imagem do Senado". Para nós, é o oposto. O Senado é uma instituição não só corrupta, como completamente desnecessária, mesmo em uma democracia burguesa. Não defendemos um "Senado ético", mas o fim dele. Essa instituição arcaica é utilizada como uma trava a mais para a democracia burguesa, com parlamentares em geral ainda mais à direita (por seu número bem menor) do que a Câmara dos Deputados. Uma matéria aprovada na Câmara tem de ser também aprovada no Senado, dando ainda mais garantias para a burguesia de seu controle. Essa instituição é completamente inútil, além de corrompida. Por isso, defendemos uma câmara parlamentar única.Essa câmara deveria ser composta por parlamentares com mandatos revogáveis a qualquer momento pela mesma população que os elegeu. Assim, não teríamos que esperar quatro anos para derrubar um desses corruptos.Fora SarneyPunição e cassação de todos os envolvidoAbaixo o Senado! Por uma Câmara parlamentar única, com mandatos revogáveis!
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“Greve, greve, greve!”. O coro tomou conta da Praça do Patriarca, no Centro da capital paulista, na tarde desta quarta-feira, 4, interrompen...