6 de set. de 2009
Michael Moore: um documentário para pedir o fim do capitalismo
A passagem do documentário Capitalism — A Love Story, de Michael Moore, repercutiu com toda a força que se poderia esperar do engajado diretor de Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro. Sua primeira sessão para a imprensa no Festival de Veneza, onde concorre ao Leão de Ouro, nesta noite de sábado (5), teve fila começando mais de meia-hora antes de seu início, empurra-empurra e dezenas de jornalistas voltando para trás, assim que a lotação da Sala Perla (450 lugares) se esgotou.
Ao final, o filme foi bastante aplaudido. Em todo caso, o filme é polêmico e tem a marca marqueteira de Moore, embora não lhe falte contundência. Ao seu final, o diretor simplesmente faz uma profissão de fé contra o capitalismo — que, segundo ele, "não pode ser regulado, tem de ser simplesmente eliminado e substituído por um sistema mais justo”.
O foco do filme é a grande crise econômica que abalou os mercados mundiais ao final de 2008, provocando a quebra de instituições financeiras e a falência não só de empresas, como de pessoas físicas. Milhares delas perderam suas casas, nos Estados Unidos, por não poderem pagar suas hipotecas, que haviam sido refinanciadas para adquirir novas casas.
Como de hábito nos filmes de Moore, a pesquisa é consistente e registra casos impressionantes, que visam retratar a ganância dos bancos e o resultado trágico, segundo ele, de uma desregulamentação do sistema financeiro. Além de acompanhar o despejo de alguns inadimplentes com as hipotecas, Moore denuncia verdadeiros crimes, como empresas que fazem apólices de seguro em favor de seus empregados e beneficiam-se delas, no caso de sua morte, em prejuízo das famílias dos mortos. O filme não se furta a indicar mesmo os nomes de diversas grandes empresas norte-americanas que usaram ou ainda usam este expediente.
Uma das sequências mais provocadoras de Capitalism: A Love Story está em seu final —quando o próprio cineasta percorre diversos bancos em Nova York com um saco de pano na mão, com a intenção declarada de "recuperar" dinheiro subtraído aos contribuintes. Impedido de fazer a "coleta", Moore arranja então um rolo da fita normalmente usada pela policia norte-americana para isolar cenários de crimes, passando-a pela porta dessas instituições.
Ao final, o cineasta propõe que cada uma das pessoas que assistir ao filme também se rebele, seguindo os exemplos de trabalhadores que ocuparam indústrias desativadas ou alguns moradores que reocuparam suas casas, desobedecendo às ordens de despejo. Segundo Moore, os Estados Unidos hoje "não são" o país que o falecido presidente Franklin Roosevelt propunha, mas que ele não irá deixá-lo.
Moore repropõe, ao que parece, a boa e velha desobediência civil. Com tantos assuntos bombásticos, a coletiva do filme de Moore, marcada para a tarde de domingo, promete.
4 de set. de 2009
FIM DA CRISE ECONÔMICA É ILUSÓRIA E MOMENTÂNEA
O comércio externo sofreu retração menor, pelo fato de que sua ligação principal era e é com "produtos básicos", enquanto que a demanda interna manteve-se relativamente protegida nos segmentos de mais baixa renda, que dependem dos gastos de política social (ao redor de ¼ do PIB)
Temos lido e visto com freqüência notícias alvissareiras sobre o fim da crise econômica, especialmente daquela que se abateu sobre a economia brasileira desde o último trimestre de 2008.
Em resposta às políticas econômicas, houve sucessivas reações dos mercados externo e interno nos dois últimos trimestres em termos de produção, emprego, comércio externo e consumo interno. A partir destes sinais, especula-se sobre o fim da crise econômica e a retomada do ciclo de crescimento da economia mundial e, dentro desta, da economia brasileira. Mas esta é apenas a parte visível e conjuntural de um fenômeno mais complexo: o funcionamento da economia mundial e sua tendência recorrente a crises financeiras nos últimos 30 anos, cada vez mais freqüentes e profundas.
As medidas de salvação financeira e reativação da economia produtiva que o governo Obama desencadeou na economia norte-americana, há pouco mais de seis meses, aparentemente funcionaram no sentido de repor nos trilhos os vagões principais da composição sistema financeiro / complexo habitacional / indústria automobilística. Mas há também medidas direcionadas à mudança do padrão de consumo energético, manejo ambiental e implantação de um sistema público de saúde.
Por sua vez, aqui no Brasil, os efeitos secundários da crise externa chegaram mais fracos. O comércio externo sofreu retração menor, pelo fato de que sua ligação principal era e é com "produtos básicos", enquanto que a demanda interna manteve-se relativamente protegida nos segmentos de mais baixa renda, que dependem dos gastos de política social (ao redor de ¼ do PIB).
Houve também desonerações fiscais importantes, dirigidas ao setor automobilístico e a certos segmentos de bens duráveis, que também funcionaram no sentido de se contrapor ao declínio de vendas nesses setores. Mas foi principalmente a queda na taxa de juros que liberou recursos fiscais (do superávit primário) para se contrapor à queda de arrecadação tributária. Esta, juntamente com o aumento dos gastos primários requeridos para fazer política fiscal anticíclica, pôde ocorrer sem aumento líquido significativo da Dívida Pública, porque os juros internos cadentes viabilizaram declínio do superávit primário.
Todo esse arranjo de superação da crise econômica interna e externa mantém até aqui intocados os elementos estruturais do sistêmico econômico. Vou me restringir ao caso brasileiro porque aqui é mais profunda a resistência estrutural.
Nossas relações econômicas internacionais continuam sustentados pelo binômio abertura integral ao capital financeiro externo e especialização na produção de "commodities". Nosso padrão de consumo de bens duráveis industriais continua a expressar um perfil de prioridades, reflexo da estrutura da riqueza concentrada na sociedade. Nosso padrão de emprego continua a reproduzir baixos salários, ocupações precárias, com crescentes requerimentos de compensação pela política social. Não há sinais de aumento do desemprego aberto (desempregados procurando emprego). Nossa matriz energética e política ambiental continuam cativas do modelo herdado do "desenvolvimentismo" do pós-guerra. Nossa estrutura agrária ultra concentrada tende a se concentrar mais ainda, face à especialização ao estilo "plantation for export" que vimos perseguindo.
E finalmente há uma economia política que sustenta esse pacto de poder, hoje fortemente ancorado nos setores primários exportadores e na liberalização financeira.
Esses elementos estruturais intocados, resistentes de forma subliminar ou agressiva a mudanças, no sentido de um novo estilo de desenvolvimento, são os ovos da serpente que infelizmente irão repor mais adiante os termos da crise econômica, social e política do Brasil.
Não nos iludamos com aparências, por mais que nossos desejos de ver a luz no final do túnel sejam legítimos. Infelizmente, o momento da crise econômica atual não provocou iniciativas para desencadear mudanças mais profundas no sistema econômico. Daí que praticamente todas as ações adotadas se restringiram a políticas de reativação da demanda agregada pré-existente, sem abrir perspectivas para gestação de projetos alternativos em quaisquer dos domínios estruturais supracitados.
A menos que inovações venham a ocorrer, fruto do debate sucessório de 2010, nosso ajustamento de política econômica ora em curso reforça os fatores de desigualdade social e desequilíbrio ambiental, sem melhorar qualitativamente a dependência do capital estrangeiro. Por tudo isto, a nossa crise econômica continua, ainda que tenhamos recuperação do crescimento do PIB. (Correio da Cidadania
Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
2 de set. de 2009
A LUTA DE CLASSES NA
COLOMBIA - SITUANDO A GUERRILHA HISTORICAMENTE
Para cumprirmos a tarefa de traçar um panorama acerca
da situação atual da guerrilha na Colômbia, utilizaremos uma matéria publicada
pelo órgão de imprensa da Escola Ideológica de Filosofia, História e Economia
Política, chamado Crítica Política, em seu número 59, de novembro de 1999. A
Colômbia é o país de maior trajetória guerrilheira. O mais destacado dos grupos
guerrilheiros, no presente momento, as FARC, está em atuação há mais de 40 anos,
com pequenos intervalos nas atividades, como na década de 80, por conta de
acordos com o governo, para logo em seguida retornar ao combate
armado.
O fato de nos utilizarmos da matéria do Crítica Política, quase na sua íntegra, dá-se pela necessidade de situar a guerrilha, historicamente, no contexto da luta de classes, naquele país, e isto a matéria faz a contento. Não implica, porém, que concordemos com as conclusões a que chega o CP, e, quanto a isto, trataremos de elucidar as nossas posições e as nossas diferenças no decorrer da nossa análise. Vamos à matéria:
"Desde os primeiros momentos da conquista, os espanhóis se viram enredados pelas emboscadas dos índios nômades que viviam nas cordilheiras limítrofes dos principais rios e particularmente do rio Magdalena, a principal artéria fluvial do país e via indispensável para chegar ao centro do território conquistado. Em seguida às mesmas guerras civis do século XIX, a guerrilha desempenha um papel importante como fator de apoio logístico e militar aos respectivos bandos em conflito. Porém, é a partir da repressão desencadeada pelos governos conservadores, instaurada em 1946, quando a tática da guerra de guerrilha adquire uma espécie de institucionalidade histórica.
Como resposta à violência partidária conservadora, exercida desde a esfera do governo, foram os perseguidos liberais os que assumiram primeiro uma defesa armada de suas vidas, que se convertem logo em uma ofensiva guerrilheira na perspectiva de restaurar os governos liberais que desde 1930 haviam exercido o poder até o referido ano de 1946.
Portanto, as primeiras expressões guerrilheiras do século que termina foram de caráter liberal, não por sua ideologia, porquanto se tratava de massas de camponeses, senão por sua vinculação partidária, por pertencer ao partido liberal, o partido perseguido desde a esfera do poder governamental.
A tal ponto chegou o desenvolvimento das forças guerrilheiras liberais, que, em 1953, havia no país mais de 50 frentes de guerrilhas e, à frente das principais encontrava-se um personagem de origem camponesa de idéias liberais, Guadalupe Salcedo Unda. Neste momento, a oligarquia liberal e parte da conservadora se dão conta do perigo que representa um movimento armado e dentro do qual havia assessores importantes por sua visão política, como o advogado Alvear Restrepo, oposto à rendição guerrilheira. É então que começa a ser gestado pelos liberais e uma parte dos conservadores o golpe militar na perspectiva de deter o avanço das guerrilhas liberais. O golpe se produz sob a direção do general Gustavo Rojas Pinilla e é aprovado e legitimado pela direção do partido liberal e por uma fração conservadora encabeçada por Marino Ospina Perez, o mesmo que sob a sua presidência permitiu a violência contra os liberais, em cujo período presidencial foi assassinado o líder liberal Jorge Eliecer Gaitán.
Gera-se, então, um período de governos conservadores e liberais alternados, sob uma aliança denominada "Frente Nacional". Durante sua vigência, não se permitiu a participação política de forças diferentes dos partidos tradicionais, o liberal e o conservador.
Ao monopolizar o poder e sustentar um regime de repressão, particularmente dirigida às massas camponesas organizadas e aos movimentos de oposição, reproduz-se o surgimento de organizações insurgentes que pretendem ascender ao poder mediante a via armada. A esse processo contribuía a situação mundial, que presenciava lutas de libertação anticolonialista na Ásia e na África.
A oligarquia liberal-conservadora colombiana pretende liquidar os movimentos insurgentes mediante o aumento da repressão, da tortura, das prisões e dos "desaparecimentos" de dirigentes populares, etc. Isto se agudiza no governo de Julio Cesar Turbay Ayala e continua nos seguintes. A repressão estatal produz o fortalecimento da insurgência e, com o tempo, ela adquire um poder nunca imaginado pela oligarquia. É este poder, logrado por diversos meios, que levou a oligarquia a sentar-se frente à insurgência para tratar de obter um clima de equilíbrio político no qual se terminasse com a repressão e se desse espaços aos setores excluídos do poder político que vem dominando.
Este fenômeno, que é novo na história do país, não significa que a insurreição tenha triunfado na perspectiva de impor um novo Estado e uma nova estrutura diferente da que possui a sociedade colombiana, ou então que a oligarquia revisse seus métodos de participação cidadã à luz de novas condições tanto nacionais como mundiais. Nem os insurgentes apresentam um novo modelo econômico, nem a burguesia vai liquidar o seu. Entretanto, é possível permitir mais reformas que logrem a participação de grandes massas da população que hoje se encontra marginalizada de toda possibilidade de melhoramento econômico, social, político e cultural."
Pudemos ver, pela matéria acima do CP, que este estágio da guerrilha nasce das desavenças intra-burguesas entre duas facções da classe dominante: de um lado, uma casta de caráter mercantil, representada pelo partido liberal e, do outro, latifundiários ligados aos interesses agrícolas/pecuaristas, representados pelo partido conservador.
Por um lado, o partido conservador, com os seus interesses ligados ao latifúndio e à produção agrícola voltada para exportação, sentia os seus interesses ameaçados com as bandeiras levantadas pelo partido liberal, que visava a ampliação do mercado interno, inclusive propondo a reforma agrária, visando a criação de uma classe média no campo.
O partido liberal, ao ser alijado da possibilidade de disputar a máquina do Estado pela via "democrática", tendo, inclusive, as suas propriedades confiscadas, a vida dos seus seguidores ameaçadas e em alguns casos liquidadas, recorre à luta armada como meio de retomar o controle do Estado. Para tanto, esta facção da burguesia, em sua luta canibalesca, viu-se obrigada a atrair para suas fileiras outros setores da sociedade, como a pequena burguesia e os camponeses pobres, com bandeiras de liberdades democráticas e reforma agrária. O campesinato passa a ser o principal fornecedor de "braços" à guerrilha liberal.
Entretanto, a guerrilha dá-se em meio a uma crise de grandes proporções. Os liberais, que a incentivaram e alimentaram, temiam o seu crescimento e com isto a possibilidade desta sair do seu controle e dos limites das suas bandeiras. Sentindo-se ameaçado, o partido liberal começa a concertar uma aliança com o partido conservador, visando pôr fim à luta armada, nascendo daí um governo de "frente". Deste acerto redunda um golpe militar, e o partido liberal, novamente à testa do poder de Estado, persegue, prende e mata partidários seus que se opuseram à deposição das armas.
Até aqui não há muita novidade do ponto de vista histórico. Quando da tomada do poder pelos trabalhadores da comuna de Paris, a França, que estava em guerra contra a Prússia, parou as atividades bélicas contra esta, e os dois adversários uniram os seus exércitos para combater os trabalhadores insurretos. A burguesia, como todo bom cachorro, tem faro afinado para detectar ameaças ao seu poder.
Uma vez iniciados na "arte da guerrilha", setores marginalizados e excluídos da sociedade da Colômbia encontraram nesta forma de luta a expressão das suas demandas políticas e sociais e, em meio à miséria que permeia esse país, uma forma de sobrevivência. O Estado, diante da crise mundial do capitalismo, reage com mais violência, já que é impossível para ele atender às demandas e incorporar todo contingente de "miseráveis" e excluídos dentro de uma sociabilidade, sob o sistema capitalista. Atacam-se, pois, os efeitos, na impossibilidade de atacar as suas causas. Daí que não passa de ilusão do CP, quando acha que "é possível permitir mais reformas que logrem a participação de grandes massas da população, que hoje se encontra marginalizada de toda possibilidade de melhoramento econômico, social, político e cultural." Antes, pelo contrário, as perspectivas são de mais e mais exclusão dentro do atual patamar tecnológico.
Movimentos anteriores - e a Colômbia nos dá vários exemplos disso - depois de gastarem anos a fio embrenhados na floresta, longe das fábricas e da classe operária tentando movimentar apenas índios e camponeses, largaram as armas e trocaram seus postos de comandantes revolucionários guerrilheiros por cargos no Parlamento e no Estado burguês daqueles países - enquanto que outros acomodaram-se à vida de prósperos fazendeiros, como se estivessem repetindo o estilo do velho Pancho Villa da revolução (burguesa) mexicana.
Continuam sem um programa socialista todos os movimentos de guerrilha na América Latina: assim o Tupac-Amaru, o Sendero Luminoso, as FARC, o ELN e os demais. Ao invés de contarem com um programa socialista revolucionário, esboçam e exibem apenas algumas bandeiras por demais genéricas e vagas, como a dos zapatistas, de "Justiça e Liberdade", que cabe em qualquer Declaração Universal dos Direitos do Homem, firmada pelos estados capitalistas reunidos nas Nações Unidas; ao invés de convocar a classe operária para que ela ocupe a cabeça da revolução, como já ensinara a memorável Comuna de Paris, delegam aos índios e aos camponeses um papel dirigente que só pode ser cumprido com conseqüência pela classe operária - a qual, como a história não se cansa de demonstrar, é a única que pode, liderando todas as capas exploradas da população, levar adiante uma verdadeira revolução socialista. Ao invés de firmarem como meta derrubar o estado burguês e a propriedade privada dos meios de produção, única meta capaz de fazer desaparecer a exploração capitalista, que tanto afirmam combater, lutam apenas por "eleições livres", "direitos humanos", ambíguas "reformas agrárias", que, quando feitas, voltam ao estado anterior de exploração em pouco tempo, e outras tantas bagatelas do figurino burguês que em nada mudam o enquadramento estrutural da sociedade responsável pela exploração capitalista sobre a população trabalhadora.
Com os ingressos de dinheiro advindos do narcotráfico, em todas as suas fases, a guerrilha se torna forte economicamente. Porém, isto não significa que tenha se fortalecido politicamente. Continua distante das massas operárias e de um projeto revolucionário. A guerrilha é débil politicamente, porém, em comparação com o governo, é forte economicamente. As FARC puderam impor condições que debilitam as posições do governo ante a opinião pública e ante as castas liberais-conservadoras. Mesmo assim, devido às debilidades políticas enumeradas acima, estão muito mais próximas de um acordo de deposição de armas, como já o fizeram na década de 80, do que qualquer outra coisa.
O fato de nos utilizarmos da matéria do Crítica Política, quase na sua íntegra, dá-se pela necessidade de situar a guerrilha, historicamente, no contexto da luta de classes, naquele país, e isto a matéria faz a contento. Não implica, porém, que concordemos com as conclusões a que chega o CP, e, quanto a isto, trataremos de elucidar as nossas posições e as nossas diferenças no decorrer da nossa análise. Vamos à matéria:
"Desde os primeiros momentos da conquista, os espanhóis se viram enredados pelas emboscadas dos índios nômades que viviam nas cordilheiras limítrofes dos principais rios e particularmente do rio Magdalena, a principal artéria fluvial do país e via indispensável para chegar ao centro do território conquistado. Em seguida às mesmas guerras civis do século XIX, a guerrilha desempenha um papel importante como fator de apoio logístico e militar aos respectivos bandos em conflito. Porém, é a partir da repressão desencadeada pelos governos conservadores, instaurada em 1946, quando a tática da guerra de guerrilha adquire uma espécie de institucionalidade histórica.
Como resposta à violência partidária conservadora, exercida desde a esfera do governo, foram os perseguidos liberais os que assumiram primeiro uma defesa armada de suas vidas, que se convertem logo em uma ofensiva guerrilheira na perspectiva de restaurar os governos liberais que desde 1930 haviam exercido o poder até o referido ano de 1946.
Portanto, as primeiras expressões guerrilheiras do século que termina foram de caráter liberal, não por sua ideologia, porquanto se tratava de massas de camponeses, senão por sua vinculação partidária, por pertencer ao partido liberal, o partido perseguido desde a esfera do poder governamental.
A tal ponto chegou o desenvolvimento das forças guerrilheiras liberais, que, em 1953, havia no país mais de 50 frentes de guerrilhas e, à frente das principais encontrava-se um personagem de origem camponesa de idéias liberais, Guadalupe Salcedo Unda. Neste momento, a oligarquia liberal e parte da conservadora se dão conta do perigo que representa um movimento armado e dentro do qual havia assessores importantes por sua visão política, como o advogado Alvear Restrepo, oposto à rendição guerrilheira. É então que começa a ser gestado pelos liberais e uma parte dos conservadores o golpe militar na perspectiva de deter o avanço das guerrilhas liberais. O golpe se produz sob a direção do general Gustavo Rojas Pinilla e é aprovado e legitimado pela direção do partido liberal e por uma fração conservadora encabeçada por Marino Ospina Perez, o mesmo que sob a sua presidência permitiu a violência contra os liberais, em cujo período presidencial foi assassinado o líder liberal Jorge Eliecer Gaitán.
Gera-se, então, um período de governos conservadores e liberais alternados, sob uma aliança denominada "Frente Nacional". Durante sua vigência, não se permitiu a participação política de forças diferentes dos partidos tradicionais, o liberal e o conservador.
Ao monopolizar o poder e sustentar um regime de repressão, particularmente dirigida às massas camponesas organizadas e aos movimentos de oposição, reproduz-se o surgimento de organizações insurgentes que pretendem ascender ao poder mediante a via armada. A esse processo contribuía a situação mundial, que presenciava lutas de libertação anticolonialista na Ásia e na África.
A oligarquia liberal-conservadora colombiana pretende liquidar os movimentos insurgentes mediante o aumento da repressão, da tortura, das prisões e dos "desaparecimentos" de dirigentes populares, etc. Isto se agudiza no governo de Julio Cesar Turbay Ayala e continua nos seguintes. A repressão estatal produz o fortalecimento da insurgência e, com o tempo, ela adquire um poder nunca imaginado pela oligarquia. É este poder, logrado por diversos meios, que levou a oligarquia a sentar-se frente à insurgência para tratar de obter um clima de equilíbrio político no qual se terminasse com a repressão e se desse espaços aos setores excluídos do poder político que vem dominando.
Este fenômeno, que é novo na história do país, não significa que a insurreição tenha triunfado na perspectiva de impor um novo Estado e uma nova estrutura diferente da que possui a sociedade colombiana, ou então que a oligarquia revisse seus métodos de participação cidadã à luz de novas condições tanto nacionais como mundiais. Nem os insurgentes apresentam um novo modelo econômico, nem a burguesia vai liquidar o seu. Entretanto, é possível permitir mais reformas que logrem a participação de grandes massas da população que hoje se encontra marginalizada de toda possibilidade de melhoramento econômico, social, político e cultural."
É preciso situar, dentro do atual estágio da guerrilha colombiana, qual é a sua motivação principal, qual o seu projeto, qual a classe que lhe dá sustentação político-ideológico.
O ATUAL ESTÁGIO DA GUERRILHA NA COLÔMBIA
Pudemos ver, pela matéria acima do CP, que este estágio da guerrilha nasce das desavenças intra-burguesas entre duas facções da classe dominante: de um lado, uma casta de caráter mercantil, representada pelo partido liberal e, do outro, latifundiários ligados aos interesses agrícolas/pecuaristas, representados pelo partido conservador.
Por um lado, o partido conservador, com os seus interesses ligados ao latifúndio e à produção agrícola voltada para exportação, sentia os seus interesses ameaçados com as bandeiras levantadas pelo partido liberal, que visava a ampliação do mercado interno, inclusive propondo a reforma agrária, visando a criação de uma classe média no campo.
O partido liberal, ao ser alijado da possibilidade de disputar a máquina do Estado pela via "democrática", tendo, inclusive, as suas propriedades confiscadas, a vida dos seus seguidores ameaçadas e em alguns casos liquidadas, recorre à luta armada como meio de retomar o controle do Estado. Para tanto, esta facção da burguesia, em sua luta canibalesca, viu-se obrigada a atrair para suas fileiras outros setores da sociedade, como a pequena burguesia e os camponeses pobres, com bandeiras de liberdades democráticas e reforma agrária. O campesinato passa a ser o principal fornecedor de "braços" à guerrilha liberal.
Entretanto, a guerrilha dá-se em meio a uma crise de grandes proporções. Os liberais, que a incentivaram e alimentaram, temiam o seu crescimento e com isto a possibilidade desta sair do seu controle e dos limites das suas bandeiras. Sentindo-se ameaçado, o partido liberal começa a concertar uma aliança com o partido conservador, visando pôr fim à luta armada, nascendo daí um governo de "frente". Deste acerto redunda um golpe militar, e o partido liberal, novamente à testa do poder de Estado, persegue, prende e mata partidários seus que se opuseram à deposição das armas.
Até aqui não há muita novidade do ponto de vista histórico. Quando da tomada do poder pelos trabalhadores da comuna de Paris, a França, que estava em guerra contra a Prússia, parou as atividades bélicas contra esta, e os dois adversários uniram os seus exércitos para combater os trabalhadores insurretos. A burguesia, como todo bom cachorro, tem faro afinado para detectar ameaças ao seu poder.
Uma vez iniciados na "arte da guerrilha", setores marginalizados e excluídos da sociedade da Colômbia encontraram nesta forma de luta a expressão das suas demandas políticas e sociais e, em meio à miséria que permeia esse país, uma forma de sobrevivência. O Estado, diante da crise mundial do capitalismo, reage com mais violência, já que é impossível para ele atender às demandas e incorporar todo contingente de "miseráveis" e excluídos dentro de uma sociabilidade, sob o sistema capitalista. Atacam-se, pois, os efeitos, na impossibilidade de atacar as suas causas. Daí que não passa de ilusão do CP, quando acha que "é possível permitir mais reformas que logrem a participação de grandes massas da população, que hoje se encontra marginalizada de toda possibilidade de melhoramento econômico, social, político e cultural." Antes, pelo contrário, as perspectivas são de mais e mais exclusão dentro do atual patamar tecnológico.
O mais antigo e experimentado grupo de guerrilha, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - FARC - ocupa hoje 40% do território e está presente em 10 dos 32 departamentos (Estados) colombianos e mantém um contigente de 15.000 guerrilheiros armados com armas e equipamentos bélicos modernos. O segundo grupo em importância é o ELN - Exército de Libertação Nacional - que mantém um contigente de 5.000 guerrilheiros, igualmente bem armados. Este aparato militar é mantido, segundo dados da revista Isto é de 01/07/1998 a um custo estimado entre U$ 500 milhões a U$ 1 bilhão. Esta supremacia militar obrigou, recentemente, o governo a sentar e negociar com a guerrilha, em seu próprio terreno. Fato inédito, até então.
DE ONDE VEM O FINANCIAMENTO DA GUERRILHA
Já faz muitas décadas que os movimentos guerrilheiros da América Latina, incluindo o Brasil (A guerrilha do Araguaia, do PC do B), vêm-se arrastando, não obstante alguns golpes espetaculares que lograram empreender aqui e ali, sem que um só que fosse - com exceção da Frente Sandinista - tivesse conseguido tomar o Poder e modificar a estrutura da sociedade de seus países de origem: Colômbia, Peru, Bolívia, etc. O da Nicarágua, o único, depois de Cuba, que conseguiu chegar ao Poder pelas armas, entregou logo mais este mesmo Poder à burguesia por meio de um ato simples e monótono de eleição burguesa. A Nicarágua, que a muitos parecia uma promessa socialista, voltou à miserável rotina de exploração capitalista por conta da impotência de seus chefes guerrilheiros, que, na verdade, não dispunham de um verdadeiro programa de revolução socialista, apoiado na classe operária.
AS GUERRILHAS NA AMÉRICA LATINA
Movimentos anteriores - e a Colômbia nos dá vários exemplos disso - depois de gastarem anos a fio embrenhados na floresta, longe das fábricas e da classe operária tentando movimentar apenas índios e camponeses, largaram as armas e trocaram seus postos de comandantes revolucionários guerrilheiros por cargos no Parlamento e no Estado burguês daqueles países - enquanto que outros acomodaram-se à vida de prósperos fazendeiros, como se estivessem repetindo o estilo do velho Pancho Villa da revolução (burguesa) mexicana.
Continuam sem um programa socialista todos os movimentos de guerrilha na América Latina: assim o Tupac-Amaru, o Sendero Luminoso, as FARC, o ELN e os demais. Ao invés de contarem com um programa socialista revolucionário, esboçam e exibem apenas algumas bandeiras por demais genéricas e vagas, como a dos zapatistas, de "Justiça e Liberdade", que cabe em qualquer Declaração Universal dos Direitos do Homem, firmada pelos estados capitalistas reunidos nas Nações Unidas; ao invés de convocar a classe operária para que ela ocupe a cabeça da revolução, como já ensinara a memorável Comuna de Paris, delegam aos índios e aos camponeses um papel dirigente que só pode ser cumprido com conseqüência pela classe operária - a qual, como a história não se cansa de demonstrar, é a única que pode, liderando todas as capas exploradas da população, levar adiante uma verdadeira revolução socialista. Ao invés de firmarem como meta derrubar o estado burguês e a propriedade privada dos meios de produção, única meta capaz de fazer desaparecer a exploração capitalista, que tanto afirmam combater, lutam apenas por "eleições livres", "direitos humanos", ambíguas "reformas agrárias", que, quando feitas, voltam ao estado anterior de exploração em pouco tempo, e outras tantas bagatelas do figurino burguês que em nada mudam o enquadramento estrutural da sociedade responsável pela exploração capitalista sobre a população trabalhadora.
No meio de tanta indigência teórica, política, ideológica e moral, não surpreende que muitos desses movimentos de guerrilha isolados da classe operária das cidades e dos demais seguimentos explorados da população, praticando uma tática foquista, tenham involuído a tal ponto que, para sobreviver, tenham sido forçados a estreitar íntimas relações com os cartéis de narcotraficantes, para obter fundos para compra de armas e, até, para também desenvolver negócios lucrativos.
QUAL A PERSPECTIVA DO MOVIMENTO GUERRILHEIRO COLOMBIANO?
Com os ingressos de dinheiro advindos do narcotráfico, em todas as suas fases, a guerrilha se torna forte economicamente. Porém, isto não significa que tenha se fortalecido politicamente. Continua distante das massas operárias e de um projeto revolucionário. A guerrilha é débil politicamente, porém, em comparação com o governo, é forte economicamente. As FARC puderam impor condições que debilitam as posições do governo ante a opinião pública e ante as castas liberais-conservadoras. Mesmo assim, devido às debilidades políticas enumeradas acima, estão muito mais próximas de um acordo de deposição de armas, como já o fizeram na década de 80, do que qualquer outra coisa.
24 de ago. de 2009
Este comentário versará falar sob a educação numa perspectiva do pensamento de Paulo Freire analisando a frase "Ninguém educa a ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.”Farei uma breve reflexão do pensamento de Paulo Freire em contra-posição ao ao ideal de Kant levando em conta o momento histórico e o contexto de cada obra.
A FAVOR A busca pela educação ideal é representada por Platão na metáfora da “alegoria da caverna”, no momento em que um dos homens presos no fundo de uma caverna consegue se libertar do conhecimento da doxa, enxergando a luz da verdadeira realidade, e nessa expectativa, a educação acabou tornando-se objeto de estudos e reflexão da filosofia desde os tempos gregos. Entretanto, a filosofia da educação dos últimos tempos, procurou transcender seus limites conceituais, aventurando-se nas discussões filosóficas contemporâneas que propiciam a articulação entre diferentes perspectivas. A luta pelo direito do ser humano, pela afirmação dos homens como pessoas, só é possível porque a desumanização não é um destino dado, mas resultado de uma \"ordem\" injusta que gera a violência dos opressores. Mas essa luta só tem sentido quando o ser humano ao buscar sua humanidade, não se sinta também um opressor, mas sim um reconquistador da humanidade. A educação problematizadora que liberta, onde o homem educa a si mesmo só é possível onde o professor ao invés de sobrepor aos discentes e continuar mantendo-os como quase \"coisas\", com eles estabelecem uma relação dialógica. Ao alcançarem, na práxis este saber da realidade, se descobrem como seus refazedores permanentes. Portanto, a presença dos oprimidos na busca de sua libertação, mais que pseudopartici- pação ,é o que dever ser: engajamento. Portanto a prática só encontrará adequada expressão numa pedagogia em que o oprimido tenha condições de, reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se como sujeito de sua história. Assim, o sentido mais exato da alfabetização de Paulo Freire seria: aprender a escrever a sua vida, como autor e como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se e historizar-se. . CONTRA A tarefa central da educação é orientar um ser que não pode ser conhecido por não ter essência determinada, e que, por isso, pode tomar diferentes direções, o homem é livre e por isso ele pode ser educado. Mas, a liberdade está inclinada para o bem ou para o mal? Kant não fala em uma natureza humana exatamente má, mas o homem não nasce isento de vícios. No entanto, ao mesmo tempo em que nasce com disposição para seguir impulsos, vícios, o homem nasce com a lei moral dentro de si. Em Sobre a Pedagogia afirma: \"A única causa do mal consiste em não submeter a natureza a normas. No homem não há germes senão para o bem\" (KANT, 1996b, p. 24). Com isso quis dizer que não pode se afirmar no homem uma vontade, uma razão praticamente legisladora que desejasse o mal. Então, considerando seu caráter inteligível, a humanidade é integralmente boa. Cabe ao homem optar por guiar-se pela sua razão ou não. Mas ele será autônomo na condição de guiar-se pela razão, por isso a educação deve objetivar a racionalidade, isso porque o ser racional pode promulgar para si a lei universal e assim, ser autônomo. Já que o homem não nasce determinado para o bem ou para o mal, Kant propõe uma educação como aprendizagem do exercício das regras no plano teórico e prático. A educação, sob tais princípios, mostra, no seu percurso histórico, seus paradoxos entre educar para autonomia e a liberdade e o educar como forma de controle dos instintos e paixões individuais. Decidir sobre quais as atitudes mais apropriadas, fazer escolhas entre o que julga ser certo ou errado, é manifestações especificamente humanas decorrentes de um processo de formação. O entender-se um com o outro, reconhecendo as diferenças a partir de sua identidade, torna-se um desafio ao fazer pedagógico. Nota-se que o aspecto mais importante na filosofia da educação kantiana é a moralidade e que, por conta disso, está pressuposta nesta concepção a ensinabilidade da virtude. A virtude não só pode, como deve ser ensinada. Segundo Cambi (1999, p. 362), o objetivo da educação, para Kant, é “transformar a animalidade em humanidade”pelo desenvolvimento da razão; tal objetivo porém, não se atinge “por instinto”, mas somente pela “ajuda de outrem CONCLUSÃO Kant vivenciou algumas conseqüências das transformações históricas, e a primeira delas foi a Reforma Religiosa de Martinho Lutero (1483-1546), porque a Alemanha foi muito influenciada por esse movimento reformador. Ele teve uma formação rígida luterana. Para ele, a Reforma teve um significado educativo, e defendia uma educação humanista, igualitária e moral. Para Kant, o dever do homem é produzir em si a moralidade. É através da educação que o homem se liberta do estado de selvageria e atinge sua verdadeira humanidade. A liberdade é a possibilidade que o homem tem de decidir por si mesmo. O homem só é livre quando se submete à lei moral por sua livre e espontânea vontade, ou seja, quando sua vontade se volta exclusivamente para o cumprimento do dever. Liberdade, para Kant, conquista-se no exercício de determinar a própria vontade, através da disciplina e do autocontrole. A conquista da liberdade se dá através do exercício do autocontrole e da autodisciplina, determinando-se a vontade no sentido do cumprimento do dever, da lei moral. Deve-se levar em conta O período vivido por Kant (1724-1804) que encontrou dificuldades para discussão sobre educação por que: A história da pedagogia no sentido próprio nasceu entre os séculos XVIII e XIX e desenvolveu-se no decorrer deste último como pesquisas elaboradas por pessoas ligadas à escola, empenhadas na organização de uma instituição cada vez mais central na sociedade moderna (para formar técnicos e para formar cidadãos), preocupadas portanto, em sublinhar os aspectos mais atuais da educação-instrução e as idéias mestras que haviam guiado seu desenvolvimento histórico. A educação defende como formação do homem, amadurecimento do indivíduo, consecução da sua formação completa ou perfeita ( CAMBI, 1999, p.21). O contexto da obra de Paulo Freire se dá numa visão da sociedade brasileira em trânsito para a modernização”(1950 à 1960) e um posicionamento implícito na disputa pelo poder político entre as forças agro-comercial e urbano-industrial (em favor da segunda), A problemática da difusão de uma “ideologia da consciência nacional” ganha destaque quando Freire diz que “é preciso é aumentar o grau de consciência (do povo) dos problemas de seu tempo e de seu espaço. É (preciso) dar-lhe uma ideologia do desenvolvimento”. A definição de prática em Paulo Freire está baseada inicialmente na dialética hegeliana da relação entre \"consciência servil\" e \"consciência do senhor\", ampliada para a conceituação de práxis colocada por Marx, referindo-se à relação subjetividade-objetividade. Para tanto, Freire diz que é necessário não só conhecer o mundo, é preciso transformá-lo, o que coincide com Marx. Isto é significativo, visto que conhecer em Freire não é um ato passivo do homem frente ao mundo, é antes de tudo conscientização, envolve intercomunicação, intersubjetividade, que pressupõe a educação dos homens entre si mediatizados pelo mundo, tanto da natureza como da cultura. Então, a prática não pode ater-se à leitura descontextualizada do mundo, ao contrário, vincula o homem nessa busca consciente de ser, estar e agir no mundo num processo que se faz único e dinâmico, melhor dizendo, é apropriar-se da prática dando sentido à teoria. Sobre essa conceituação assim se expressa Freire \"[...] a práxis, porém, é ação e reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo\" (1983, p.40). Portanto, a função da prática é a de agir sobre o mundo para transformá-lo. Paulo Freire aponta para a comunicação, como princípio que transforma o homem em sujeito de sua própria história através de uma relação dialética vivida na sua inserção na natureza e na cultura, diferenciando-o dos outros animais. Esse processo de integração interativa é significativo quando vinculado ao diálogo que contém no seu cerne ação e reflexão, levando o homem a novos níveis de consciência e, conseqüentemente, a novas formas de ação Freire define essa postura como ética e defende a idéia de que o educador deve buscar essa ética, a qual chama de \"ética universal do ser humano\"(p. 16), essencial para o trabalho docente. \"não há docência sem discência\" (p. 23), (p. 23), pois \"quem forma se forma e re-forma ao formar, e quem é formado forma-se e forma ao ser formado\" (p.25). Dessa forma, fica claro que o ensino não depende exclusivamente do professor, assim como aprendizagem não é algo apenas de aluno. \"Não há docência sem discência, as duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender\"
João Filho- Professor eventual da rede pública de São Paulo. Graduado em história e pós graduando em met. ensino de filosofia.
(p. 25). Bibliografia: Freire, Paulo 1984 [b] Pedagogia do oprimido (Rio de Janeiro: Paz e Terra). Freie, Paulo 1992 Pedagogia da esperança (São Paulo: Cortez). Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos. Trad. Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.. KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. Trtsd. Francisco Cock Fontanella. 4ª Ed.Piracicaba: Editora UNIMEP, 2004 KANT, Immanuel. A Metafísica dos Costumes. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro,2003
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10 de ago. de 2009
Os discursos tradicionais cederam lugar às músicas, “mística” e palavras de ordem, na abertura do 15o Grito da Terra, nesta terça-feira (26), em Brasília. Já era quase meio-dia quando foi iniciada a cerimônia. Sob um sol forte, os manifestantes, espalhados no gramado em frente ao Congresso Nacional, deram-se as mãos, em uma demonstração de união, e acompanharam a “oração”: “Esse é um grito que vem do campo, clamando por paz e justiça social”, repetiram.
Os manifestantes demonstraram união com as mãos dadas durante a "mística"
A seca no Sul e as enchentes no Nordeste comprometeram o comparecimento dos manifestantes, mas este ano, o ato ganhou em organização. A avaliação é de Pascoal Carneiro, secretário nacional da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), que participou do evento, sendo saudado pelo presidente da Contag, Alberto Broch.
Pascoal Carneiro destacou que a organização está mais avançada, a pauta está mais enxuta e as negociações e contatos começaram mais cedo. Em resumo, o evento está mais bem preparado.
Agitando as bandeiras, os manifestantes desciam dos ônibus que os trouxeram do Estádio Mané Garrincha, onde estão acampados, acompanhando o refrão da música que vinha do carro de som: “Esse é o nosso país/Essa é a nossa bandeira/É por amor a essa pátria Brasil/Que a gente segue em fileira.”
Um ajuda o outro
Iara Aparecida de Sousa viajou mais de 24 horas, de Baliza, em Goiás, até Brasília, para participar, pela primeira vez, da manifestação. O marido, ao lado, Dalro Moreira Lopes, já é veterano. Eles são do Assentamento Bebedouro e se queixam das dificuldades para liquidar os débitos com o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Sebastião dos Santos Farias, também do Assentamento Bebedouro, grita, tentando superar o som do auto-falante: “É por causa disso que eu estou aqui.”
Iara interrompe para dizer que “cada assentamento tem uma dificuldade, é terra, crédito, infraestrutura”, explicando que todos estão na manifestação “para cada um ajudar o outro.” Ela diz ainda que não veio só para se queixar: “Do (Presidente) Lula, a gente não tem do que reclamar, se não fosse ele, a gente tava morto.”
A desburocratização na liberação de créditos faz parte da pauta de reivindicações. Pascoal Carneiro explica que, ao contrário dos empresários do agronegócio, os pequenos agricultores não dispõem de serviços de assessoria e advocacia para produção de projetos, o que dificulta o acesso ao crédito. Diz ainda que as alterações climáticas – secas e enchentes – dificulta o pagamento, defendendo a criação de mecanismos de seguro para os créditos.
Sem explicação
O secretário-geral da Contag, que é também vice-presidente da CTB, Davi Souza, explica que o aumento de áreas para a reforma agrária continua a ser a principal reivindicação do movimento. “Um governo popular, não explica a lentidão da reforma agrária”, destaca, acrescentando que existem outras demandas. Oura grande preocupação é com a produção rural.
Para o dirigente sindical, o governo está pressionado entre o grande produtor rural e a agricultura familiar, e a garantia de recursos para assistência técnica, crédito e infraestrutura é uma decisão política. Segundo ele, “o reforço na agricultura familiar garante o equilíbrio social do campo e da cidade.”
Ele lembra ainda, como importante reivindicação do movimento, a atualização do Código Florestal. “Queremos tratamento diferenciado para que agricultores familiares possam conciliar a produção de alimentos com a conservação do meio ambiente”, afirma. Segundo ele, essa é uma demanda que beneficia o campo e a cidade
Data-base dos agricultores
O Grito da Terra é o principal evento do movimento sindical do campo. A manifestação é considerada como uma espécie de data-base dos agricultores familiares, dos trabalhadores sem-terra e dos assalariados e das assalariadas rurais brasileiras.
A pauta do Grito da Terra Brasil é ampla e reúne reivindicações relativas às políticas agrícolas (assistência técnica, crédito), à reforma agrária (desapropriação de terras e criação e manutenção de assentamentos), às questões salariais (cumprimento e ampliação das leis trabalhistas) e às políticas sociais (saúde, previdência, educação e assistência social). A mobilização também defende os interesses das mulheres trabalhadoras rurais e da juventude rural.
O objetivo dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, acampados em Brasília durante esses dois dias – terça e quarta-feira (27) - é acompanhar as negociações finais e pressionar o governo federal para atender à pauta de reivindicações que foi entregue ao presidente Lula dia 29 de abril. A Comissão de Negociação da Contag participou de 38 reuniões com ministros, secretários e técnicos de órgãos da administração pública federal nas duas últimas semanas.
Homenagem a Adão Preto
Nesta quarta-feira, a Câmara dos Deputados realiza audiência púbica de acolhimento ao Grito da Terra 2009. O encontro, que tem como tema a Reforma Agrária: Conquistas e Perspectivas, será realizado pela Comissão de Direitos Humanos em parceria com as comissões de Legislação Participativa e Agricultura.
A audiência pública será aberta pelo presidente da Casa, deputado Michel Temer (PMDB-SP) e terá a presença de lideranças nacionais do movimento campesino. Na ocasião será feito homenagem especial ao ex-deputado Adão Preto (PT-RS), que morreu este ano e é lembrado como representante dos movimentos camponeses no Parlamento.
De Brasília
Márcia Xavier
8 de ago. de 2009
SOCIALISMO/REAL
O desejo de viver uma existência filosófica significa admitir que as questões são interiores à nossa vida e à nossa história e que elas tecem nosso pensamento e nossa ação. Significa também uma relação com o outro na forma do diálogo e, portanto, como encontro generoso, mas também como combate sem trégua. Encontro generoso porque, como nos diz Merleau-Ponty, no diálogo somos libertados de nós mesmos, descobrimos nossas palavras e nossas idéias graças à palavra e ao pensamento de outrem que não nos ameaça e sim nos leva para longe de nós mesmos para que possamos retornar a nós mesmos(Chaui: 2001).
O que é um mito?.
Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da
Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do
bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das
raças, das guerras, do poder, etc.)
Existem heróis e heróis. Se existe algo que me irrita profundamente é o jeito sem cerimônias com que o mestre-de-cerimônia do Big Brother Brasil saúda aquela penca de jovens – mais um ou dois da terceira idade – confinados na casa montada pela TV Globo no Rio de Janeiro: "Boa noite, meus heróis!" De tanto usada, a frase virou bordão do BBB. Seu autor? O jornalista e dublê de guru do programa, Pedro Bial.
Ora, o que há de heroísmo em um programa que, longe de agregar conhecimento, é um poço de futilidades onde quanto mais se escava mais há para se escavar? 15 ou 16 pessoas vendendo sua intimidade, seus pensamentos e corpos, hábitos e sotaques, expondo-se ao ridículo em centenas de situações, muitas destas de gosto profundamente duvidoso, tudo em troca de prêmios avulsos ou do prêmio maior de R$ 1.000.000.00. Repito, o que há de heroísmo nisso?.
Mas isso ?já passou?, agora a tentativa é tornar medalhistas com resultados apenas razoaveis( considero assim pois o Brasil se tivesse estrutura poderia formar cidadãos que quisessem praticar esporte em vencedores-tomara que consciente da miséria concreta do páis como um todo).O brasileiro foi e voltou na piscina do Foro Itálico para bater o recorde mundial da prova e garantir o primeiro ouro do país no Mundial de Esportes Aquáticos, em Roma.Na cerimônia de premiação, Cielo subiu no palanque branco com um largo sorriso no rosto. Abraçou os franceses Alain Bernard e Frederick Bousquet, que completavam o pódio, e recebeu sua histórica medalha de ouro. Cantou o Hino Nacional até a metade, e a partir dali se dedicou à missão de segurar o choro. Foi por pouco tempo.
Quem chora por seu país, enquanto na
quarta-feira (5), o presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, Paulo Duque (PMDB-RJ), rejeitou as sete acusações restantes contra o presidente do Senado, José Sarney: quatro representações e três denúncias. Na quarta-feira, ele já havia arquivado quatro acusações contra Sarney, além de uma contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Naquele mesmo dia, o presidente do Senado apresentou sua defesa em Plenário, negando ter cometido qualquer irregularidade.
É claro que a mídia burguesa, agora na tentativa de rever toda sua falta de ética, até por que também defende outro lado das oligarquias do país(PSDB E DEM)não tem moral real ou filosófica patinan ao não questionar do mesmo modo práticas corruptas como as do senador Artur Virgilio.
Penso no sul-africano Nelson Mandela, que passou 30 anos – mais que um terço de sua vida – preso nos calabouços das prisões sul-africanas por se opor ao regime do apartheid. Mandela sabia estar diante de uma das mais terríveis iniqüidades que um ser humano poderia cometer contra um seu semelhante: a superioridade afirmada de forma violenta com base na cor da pele. Quem, senão a coragem, pode acalentar um homem preso durante três décadas? Kofi Annan, sobre ele escreveu: "Se estivermos à altura de uma pequena parte do que Mandela é, o mundo será um lugar melhor."
Reconheço, meio a contragosto, que todos os heróis são espelhos do mundo e da sociedade em que vivem. Os heróis da industria cultural espelham o mundo da futilidade, o hedonismo, o império dos sentidos humanos, a interação quase total entre os espaços público e privado. Meus heróis espelham o mundo dos ideais, dos valores humanos, do desprendimento e do amor à espécie humana. Os heróis da industria do consumo lutam pelo prêmio financeiro e pelas conseqüências advindas de contratos pecuniários no mundo artístico. Meus heróis lutaram por aquilo em que acreditavam e sua recompensa era tão somente o sentimento de possuírem consciências tranqüilas, tanto que o mito do herói não foi por eles desfrutado: morreram em si para darem vida ao herói que neles subsistia.Che Guevara,José Martí,Gabriel García Márquez,Pablo Neruda,Milton Santos etc etc.
Jõao Filho. Professor de história na rede pública de São Paulo- Pós graduado em met. do ens. de filosofia.
2 de ago. de 2009
Escola de transgressão
Acusações de corrupção mudaram de sentido ao longo da história, mas a cultura da infração nasce da distância entre as leis e a sociedade.
Nas manchetes dos jornais, os escândalos de corrupção se repetem numa regularidade quase monótona. Diante de uma aparente crise geral dos valores éticos e de impunidade institucionalizada, o risco que corremos, no Brasil de hoje, é entrar num torpor cívico que não nos permita ultrapassar a pergunta: “E agora?”.
Para entender o agora, talvez um bom exercício seja aplicar nossa perplexidade a uma dimensão maior. A dimensão histórica. Será que a corrupção de hoje é a mesma que a de há 100 anos? Há mais corrupção hoje do que antes? Aumentou a corrupção ou aumentou a sua percepção e a postura diante dela?
Uma seqüência de episódios reforça a impressão de que a corrupção sempre esteve entre nós. No século XIX, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getulio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de combater a corrupção e foi expulso do poder acusado de fazer o que condenou. Nos últimos anos, as denúncias proliferam, atingindo todos os poderes e instituições da República e a própria sociedade. (...)
José Murilo de Carvalho.
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