22 de abr. de 2011

15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Lembremos os nossos mortos

Jeronimo Castro* • Na tarde do dia 17 de abril de 1996, em um trecho da rodovia PA-150 conhecido como curva do S, 19 sem-terra foram mortos e outros 60 saíram feridos em um dos massacres mais impressionantes do Brasil “democrático”. O grupo que marchava havia feito uma ocupação da fazenda Macaxeira e exigia sua desapropriação para reforma agrária. Era o tempo das grandes ocupações de terra, do MST com um apoio popular imenso, da reforma agrária pautada em todas as discussões políticas. De uma tremenda polarização no campo, onde sem-terra e trabalhadores de um lado, e latifundiários e burguesia do outro, lutavam para disputar que forma de propriedade e desenvolvimento agrário deveria predominar. O efeito do massacre na população foi espantoso. Em todo o país houve atos. Em Belém do Pará, estado onde aconteceu o massacre, no dia do protesto, a Polícia Militar foi retirada das ruas para evitar que a população se enfrentasse com ela. E, raridade na história recente do país, a manifestação atacou um quartel sem sofrer nenhuma retaliação. Nos meses que se seguiram ao massacre, o prestígio do MST cresceu como nunca. Uma marcha convocada por eles levaria ao que seria a Marcha dos 100 mil. Quinze anos depois, nenhum dos envolvidos no massacre está preso, a reforma agrária continua por fazer e o agronegócio avançou justamente no governo do partido que supostamente era o maior aliado do MST, o PT. O governo Lula, como nenhum outro, apoio, financiou e defendeu o avanço do capitalismo no campo. Uma contrarreforma agrária, de caráter mercantil e reacionário, foi executada. Uma campanha midiática foi feita para satanizar o MST e toda a luta pela terra. O próprio MST mudou, ao acreditar que o governo Lula era seu governo, ocupou postos na estrutura federal e freou a luta direta pela terra. É verdade que nenhuma homenagem trará de volta os mortos, nem suprirá a ausência dos que tombaram naquele dia para seus companheiros, amigos e parentes. Os órfãos continuarão órfãos, as viúvas continuarão viúvas. Mas é necessário não deixar cair no esquecimento estes 19 mortos (1). Mais do que artigos e protestos, nós queremos homenageá-los com lutas. Manter viva não apenas na memória, mas nos nossos atos cotidianos, a bandeira que eles defendiam, e reivindicar como mais atual que nunca a luta por uma reforma agrária ampla, radical e sob controle dos trabalhadores. Nós mantemos viva a certeza cantada naqueles dias, de que “nosso lema é ocupar, resistir e produzir”, e de que só sairá reforma agrária com a aliança camponesa e operária. Esta é a homenagem que queremos fazer a esses mortos, estes são os nossos heróis e mártires. Nós reivindicamos plenamente suas lutas, nós as levaremos adiante.

29 de set. de 2010

Salles e a transposição de Abril despedaçado

O diretor Walter Salles, ao traduzir Abril despedaçado para o cinema, ancorou-se em alguns dos elementos colocados no livro homônimo. Um desses elementos é a questão da morte impulsionada pela briga entre famílias e a presentificação da tradição através do respeito ao código. Ele também re-utiliza a bessa, trégua dada entre as famílias que dura em torno de um mês e que marca as decisões burocráticas e a despedida da vida daquele que está “jurado de morte”. O nordeste é o espaço escolhido pelo diretor para desenvolver a história. A região é o cenário dos costumes tradicionais,como a disputa entre a família Breves e Ferreira. O local seco, áspero e miserável reflete a iminência da morte como anuncia o narrador-protagonista Pacu. A passagem do tempo é incorporada cenicamente através da bolandeira. O antigo objeto que no século XIX fazia a moagem da cana representa a estrutura cíclica em que os personagens estão imersos: morte – vingança – morte. Ela destitui a humanidade dos personagens (ao colocá-los lado a lado com os bois e ratificar o discurso da força),nivela-os aos animais e reproduz a prisão existencial em que estão submetidos por força da tradição e da geografia. A luz e o ambiente trágico Entre as diversas concepções que interagem com a noção de fotografia no cinema, compreendemos aqui que este elemento tem uma função dramática. A luz funciona como um marcador que condensa um caráter narrativo e estruturante da trama. Si la lumière peut être dramatisée, c’est que elle s’y prête de par nature. L’art classique va jouer d’un drame proprement ontologique (au plein sens du mot : où l’être de la lumière, et donc du cinématographe, renvoie à l’être en général, humain en particulier). A savoir une dualité, un dechirement de l’être intime de la lumière entre clarté et obscurité, doublé d’une déperdition ou perte ; (D’ALLONES, 1991, p. 99)1 Do ponto vista fílmico, o primeiro elemento do romance incorporado foi a cor: o vermelho. O frio, a aridez das montanhas e o sangue derramado (presentes no início do livro) foram sintetizados imageticamente pela seqüência da camisa pendurada no varal, flutuando ao sabor do vento, manchada de sangue. A carga simbólica da cena denota, entre outras coisas, a possibilidade de comunicação com o além estabelecida pela família-vítima. Como atesta o discurso dos personagens ao falar que o sangue amarelado na camisa é sinal de que a alma do morto não encontrou sossego e precisa ser vingada. A imagem também é uma referência às tragédias gregas, pois as “camisas ensangüentadas” aparecem como véus manchados em Oréstia, foram utilizadas pelos habitantes de Creta durante a guerra de Tróia como elementos de comunicação com as vítimas. Os gregos acreditavam que a recuperação do sangue não poderia ser realizada sem o consentimento do morto (BUTCHER, 2002, p. 112). Um outro aspecto acerca da luz no filme pode ser percebido com a utilização de sombras, representação da opressão e da falta de perspectiva em que estão mergulhados os personagens. Há ainda a presença constante de fortes contrastes – zonas de claro e escuro, utilização recorrente da escuridão. A fotografia apresenta-se árida e seca, como a geografia que cerca a casa dos Breves, áspera, em que uma parte do quadro sempre está às escuras, representando simultaneamente a presença constante da morte, mesmo de dia. Não há singeleza, os rostos e os elementos do quadro apresentam-se recortados e a escala cromática vai dos ocres ao negro denso, com alguns pontos de cor, principalmente o sangue que fotografado na cor vermelha intensa, viva. Nas seqüências realizadas no espaço interior da casa da família Breves, como a que o pai bate em Tonho, observamos que o diretor de fotografia utilizou apenas a luz do candeeiro para iluminar os rostos dos personagens. A escuridão e o tom sombrio só desaparecem da narrativa quando ocorre a ruptura no final da trama. Depois de livrar-se da opressão e do destino trágico Tonho encontra o branco, a liberdade na praia. Segundo Walter Salles, a concepção fotográfica de Abril despedaçado foi inspirada no contraste entre luz e sombra trabalhado na pintura Rildebrant, pintor viajante do século XVII, que se diferencia, por exemplo, de outro viajante por representar o choque entre claro e escuro mais violento do que em Franz Post. Portanto a violência da luz e a existência de zonas densas e escuras reforçam a presença constante da morte. 1 Se a luz pode ser dramatizada, é aquela que é emprestada da natureza. A arte clássica vai jogar articular o drama propriamente ontológico (no plano essencial da palavra: onde está a luz, e o reconhecimento da dualidade íntima da luz entre claro e escuro, duplo de uma repartição). A construção dos personagens O narrador-personagem deixa de ser o jornalista viajante e passa a ser o Menino, depois batizado de Pacu, que é apresentado como aquele que representa a voz da ruptura dentro da trama. As cenas, como a que ele discorda do pai quando este delega a Tonho a tarefa de matar o inimigo da outra família, ou quando ele imagina-se no mar representam a idéia de que a sua inocência (trazida pelo olhar infantil) aponta para o espaço da liberdade, pois ele é colocado como aquele que rompe as amarras da tradição sertaneja. Tonho é apresentado como “aquele condenado à morte”, mas que, ao conhecer o amor de Clara, encontra-se novamente com a vida. O pai, um homem rígido, opressor e rude, que busca a todo custo honrar o nome da família. A mãe é uma mulher oprimida pelo marido. Os artistas mambembes, Salustiano e Clara, representam a possibilidade de um mundo além do sertão. A cena em que os mambembes dão a Pacu um livro “com histórias de peixe”, despertando no menino a curiosidade por um outro mundo. Clara ao despertar o amor em Tonho possibilita-o de romper com o caminho que o levaria a morte e leva-o à descoberta da vida. Os personagens da família Breves carregam a sombra da morte, a violência trazida pela luta entre famílias e a vida marcada por um destino pré-determinado e fundamentalmente trágico. Na relação entre pai, mãe e filho não há espaço para diálogos, afetos e ternura. Os dois filhos são representações de personagens símbolos que traduzem a falta de identidade e a não-relação com a figura paterna. 2.2 O diálogo com o Cinema Novo O diálogo da obra fílmica com a estética cinemanovista é bastante preciso à medida que o diretor recorre a técnicas cinematográficas que se tornaram referência na produção da década de 60. Uma destas técnicas é o uso da câmara na mão, utilizada, por exemplo, na seqüência em que Tonho mata um filho da família Ferreira. Outra característica é o tratamento de temas como a violência. Do Cinema Novo: uma estética da violência, antes de ser primitiva, é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizador é um escravo; (ROCHA, 1965, p. 165) Salles incorpora alguns pressupostos da “estética da violência” glauberiana, como a questão da necessidade de ruptura para o processo de libertação, visto no filme na seqüência em que tanto Tonho, quanto Pacu desobedecem à norma, rompendo com a estrutura e a perpetuação do ciclo. A ambientação no Sertão nordestino também aponta para um diálogo com o Cinema Novo, pois o espaço é considerado simultaneamente como local da tradição e da libertação nacional. Conclusão Ao articular o discurso literário ao fílmico Walter Salles compõe uma narrativa que se aproxima em alguns momentos da obra inspiradora, viabilizando cinematograficamente questões relacionadas ao tempo (a bolandeira) e a dimensão trágica (observada na fotografia), por exemplo. Do ponto de vista da transposição do espaço, que originalmente foi representado nas montanhas albanesas, ele retoma o discurso dos cinemanovistas para respaldar a idéia de que o Sertão seria o local que possibilitaria a ruptura social e a quebra da alienação. Neste sentido, a ambientação da trama ganha um aspecto duplo e contraditório, pois representa o “local da revolução” e o espaço que determina a vida dos personagens. Do ponto de vista dos personagens encontramos algumas mudanças que apontam para uma tentativa de apaziguar o aspecto tenso do livro. Para tanto, ele troca o personagem do escritor pelo do menino e acrescenta os personagens mambembes que trarão um tom lúdico à trama. Referências Bibliográficas BUTCHER, Pedro, MÜLLER, Ana Luíza. Abril despedaçado: história de um filme. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. KADARÉ, Ismail. Abril despedaçado. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo: Brasiliense, 1983. Autor 1 Raquel do MONTE, Mestrando em Comunicação Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: rdomonte@gmail.como

1 de jul. de 2010

GOLPE EM HONDURAS

Ainda sem um acordo para a crise, o golpe de Estado que levou à deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, completa um ano nesta segunda-feira. No dia 28 de junho de 2009, o Exército tirou Zelaya da residência presidencial, pela manhã, ainda de pijamas. Os desentendimentos no país começaram quando o presidente deposto tentou fazer um referendo popular para que fosse permitida a reeleição presidencial na Constituição de Honduras. Uuma tentativa de continuar no poder. No país, o mandato de um presidente da República dura quatro anos e a reeleição é proibida pela Constituição, por meio de uma cláusula pétrea – ou seja, que não pode ser alterada. Sem apoio de seu partido e do Congresso, Zelaya foi detido pelo Exército do país e levado à Costa Rica. Assim, com a queda do presidente eleito, diversos problemas políticos começaram a atingir o país. Internamente, Honduras se dividiu entre os manifestantes que apóiam e os que reprovam Zelaya. Passeatas, manifestações e confrontos violentos marcaram os dias que se seguiram. Além disso, a retirada forçada do presidente do poder não foi bem aceita por países como os Estados Unidos, Venezuela, Bolívia e Brasil. Falta de reconhecimento no cenário mundial O doutor em ciência política Moisés da Silva Marques, professor no curso de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP, explica que a situação atual no país não é como na época do golpe. Atualmente, “a grande questão é o reconhecimento do país nas relações internacionais”, diz. “Na última reunião da cúpula da America Latina, da qual participaram países da região do Caribe, Brasil, e outros, não foi permitida a participação de Honduras, pois muitos países não reconhecem a posição do presidente Porfírio Lobo” [que assumiu o poder após as eleições realizadas em 29 de novembro de 2009], exemplificou. Além da pressão dos países para excluir Honduras de encontros como esse, o golpe trouxe ainda outros prejuízos para o país, como a exclusão da Organização dos Estados Americanos (OEA). “A OEA é a mais antiga organização da região, ela zela basicamente pela questão de segurança, questão ambiental, paz na região, entre outras”, explica o professor. “É a ‘ONU’ regional”, classifica. A exclusão de Honduras da organização aconteceu poucos dias depois do golpe contra Zelaya. Na época, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, condenou a deposição do presidente. No início deste mês, a OEA aprovou a criação de uma comissão especial para avaliar a criação de uma comissão que deve avaliar a possibilidade de reintegração de Honduras. A comissão deve analisar a situação política e jurídica do país até o próximo dia 31 de julho.

15 de jun. de 2010

A menina e o pássaro encantado

A menina e o pássaro encantado uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão… — Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti… E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro. Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça. — Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes. E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre. Mas chegava a hora da tristeza. — Tenho de ir — dizia. — Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho… — Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar. Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…” Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro… — Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora… A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo… Até que não aguentou mais. Abriu a porta da gaiola. — Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres… — Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar… E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia. — Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo… E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra. — Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje… Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama… E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….” E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro. * * * Para o adulto que for ler esta história para uma criança: Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus… Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade. Tudo se enche com a presença de uma ausência. Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas… Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas… Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços. Esta história, eu não a inventei. Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta. Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso. É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano. Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos. Claro que são para crianças. Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão… As mais belas histórias de Rubem Alves Lisboa, Edições Asa, 2003

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