22 de abr. de 2011
As revoluções árabes e a situação da mulher no Brasil
Cecília Toledo, autora do livro "Mulheres: o Gênero nos une, e a classe nos divide", participou de um debate na Inglaterra sobre o 8 de março. Leia abaixo o artigo que a pesquisadora escreveu para a discussão.
Cecília Toledo
da revista Marxismo Vivo
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• Hoje, a revolução árabe mostra ao mundo a situação terrível deixada pelo imperialismo nos países que explora e oprime. Mostra ainda a força do povo e sua disposição para lutar por melhores condições de vida, por uma vida melhor para si e para sua família. Mostra também que a opressão secular que pesa sobre as mulheres trabalhadoras e pobres não as aplasta, não tem o poder de calar as mulheres, de fazê-las seres totalmente submissos e dominados, como são os planos do imperialismo. A revolta permanece interna nas mulheres, sob os veus, enquanto não explode uma situação propícia para que salte para fora.
No mundo árabe hoje a situação revolucionária está mudando as mulheres, porque as estão possibilitando ver o mundo com outros olhos, ver que não são seres sem vontade, sem paixão, sem raiva. Que não são seres incapazes de lutar por seus direitos com tanta força quanto um homem. E que podem ter nos homens pobres e trabalhadores grandes aliados e companheiros de lutas e armas.
São lições importantes para as mulheres de todo o mundo colonial e semicolonial, aonde a vida do povo trabalhador, em especial das mulheres, fica cada dia pior. A fome, a violência e a violação dos direitos humanos, estão destruindo vilas inteiras e tornando a opressão das mulheres algo já insuportável.
Números que assustam
Na América Latina hoje 800 milhões de pessoas vão dormir com fome todos os dias e a cada hora morrem 1.200 crianças por desnutrição e enfermidades infecciosas. No Brasil, que se orgulha de dizer que é a oitava economia do mundo, o Ministério da Saúde estima que ocorram 1 milhão de abortos clandestinos todos os anos. E cerca de 200 mil mulheres por ano são internadas nos hospitais devido a complições por abortos de risco.
Outro problema grave para as mulheres é a violência doméstica, que já se transformou no principal problema das mulheres latino-americanas. 25% delas sofreram já algum tipo de violência em casa. No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher é agredida em sua própria casa. 70% das agressões ocorrem dentro de casa e o agressor é o próprio marido ou companheiro.
Mais de 40% das agressões resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramento, queimaduras, espancamento e estrangulamentos. Isso faz com que um de cada 5 dias de trabalho perdido pelas mulheres seja devido a algum problema de saúde causado pela violência. Relatório da Unicef mostra que há uma relação direta entre situação econômica da mulher e a violência. As que ganham menos, sofrem mais. As que não tem renda própria são as maiores vítimas.
Garantem a comida e a riqueza
Apear de tudo, as mulheres são hoje a metade da força de trabalho em toda a América Latina, no campo e na cidade. Grande parte da riqueza que a burguesia e a imperialismo tomam do país e enchem seus cofrem saem dos braços das mulheres. Elas ocupam os piores postos, com a metade do salário do homem, trabalhos desqualificados, insalubres, que prejudicam sua saúde. Quando conseguem emprego, recebem salários inferiores aos dos homens, porque seu salário continua sendo visto como complementar ao do homem. Ocupam os trabalhos mais duros, repetitivos, que não exigem formação. São os trabalhos precários, instáveis, de tempo parcial.
Mas ainda assim, elas são responsáveis por 60% do trabalho que sustenta as famílias, colhem de 60% a 80% do alimento no campo e são provedoras quase exclusivas da assistência às crianças, aos doentes e idosos.
Sofrem o assédio sexual e moral e são tratadas pelos meios de comunicação como um produto sexual a ser vendido no mercado. Banalizam o sexo, reafirmando o papel subalterno da mulher na sociedade. Tudo isso se duplica quando a mulher é negra ou imigrante.
É claro o problema de classe na opressão e superexploração das mulheres, porque as mulheres burguesas não sofrem a exploração e podem mais facilmente superar os elementos de opressão graças a sua condição econômica. Isso cria um abismo entre as mulheres trabalhadoras e pobres por um lado, e as mulheres das classes privilegiadas, por outro, e faz com que a luta pela emancipação seja um terreno da classe trabalhadora.
O papel do PT e Lula
Nos anos 70 e 80 as mulheres trabalhadoras no campo e na cidade lutaram muito para melhorar sua condição de vida. Tiveram grandes conquistas, como os direitos trabalhistas, licença-maternidade e melhores salários, bem como o direito a se organizar em sindicatos e associações.
Com suas lutas, elas participaram ativamente da construção do PT e da CUT, contra a ditadura militar, e por liberdades democráticas. Pois nem bem o PT chegou ao governo começou a trair as lutas da classe trabalhadora e as mulheres foram perdendo suas conquistas.
Hoje os berçários, algo muito importante para as mulheres que trabalham, já não são obrigatórios nas empresas. A patronal põe se quiser, e como é um custo a mais para ela, não o faz, e o governo não fiscaliza.
A maioria da classe trabalhadora vive em favelas ou bairros muito pobres, com casas precárias, sem rede de esgoto ou água encanada. Isso para as mulheres é um peso a mais nas tarefas domésticas. Há um processo escondido de privatização, que distancia os trabalhadores da educação. Ao mesmo tempo, o desemprego e a redução das oportunidades no mercado de trabalho exigem melhor qualificação do trabalhador.
O goveno do PT, que conta com grande apoio pelas ilusões da classe trabalhadora em Lula e agora em Dilma, faz políticas compensatórias, e não medidas estruturais, que implicariam em expropriar as grandes fortunas, atacar o capital financeiro e tirar a terra dos grandes latifundiários para que a gente possa trabalhar, produzir e ter uma vida melhor.
Porgrama como o Bolsa Família e o Fome Zero nada mais são que milhagas. O melhor exemplo de que não resolvem o problema com elas mesmos: famílias trabalhadoras inteiras são forçadas a viver com R$ 100 ao mês, porque não têm trabalho ou porque fazem trabalhos precários. É a perpetuação da fome. O aumento do número de bolsa-família” não depõe a favor do governo, mas o contrário, porque significa que é um governo que não proporciona trabalho digno para o povo.
O poder do PT e de Lula, em quem a classe ainda confia, foi o de frear as lutas e criar a ilusão de que tudo se revolve no parlamento burguês, se um trabalhador ocupa a cadeira presidencial. A maioria dos sindicatos e da CUT, antes muito forte, agora são como coelhos a serviço do governo. Perderam sua combatividade e mudaram seus métodos de luta: antes, as greves e ocupações de fábricas; hoje, as negociações e os banquetes com os políticos burgueses. As direções sindicais se burocratizaram, apropriaram-se do poder nos sindicatos e se tornaram capangas que perseguem e ameaçam os ativistas de oposição.
Por onde passa a luta
Mas a situação piora a cada dia e a classe já não aguenta mais. Os políticos vivem em mansões enquanto se vê pela TV as casas dos bairros pobres se desmoronando pelas chuvas. Os deputados no parlmento e a própria presidenta Dilma aumentam seus próprios salários enquanto milhões de famílias morrem de fome ou fazem malabarismo para vivem com o Bolsa-Família.
Ainda que pequena, uma nova geração de ativistas surge no Brasil, disposta a enfrentar essa situação. Foi com base nela que se construiu a Conlutas em 2000, que hoje é já uma alternativa de luta frente ao oficialismo da CUT. Hoje a Conlutas reúne um grande número de sindicatos muito combativos e também grupos de oposição que vem imprimindo uma vida nova e sangue novo ao movimento sindical no Brasil. A Conlutas já nasce com um setor de mulheres muito forte, o Movimento Mulheres em Luta, que reúne trabalhadoras e jovens estudantes com um programa de reivindicações para as mulheres e a reotmada dos métodos de lutas tradicionais da classe operária, com as marchas, as petições à patronal, o enfrentamento ao governo. Começam a surgir comissões de mulheres nos sindicatos para discutir as reivindicações próprias das mulheres que devem integrar o programa comum da classe operária.
Hoje lutas para retomar as velhas conquistas perddidas, como os berçários em todas as fábricas e empresas. Lutamos pela licença-maternidade de seis meses; lutamos pela legalização do aborto, para que a mulher trabalhadora e pobre possa recorrer a um hospital público se decide ou necessite abortar. Lutamos por igualdade salarial com os homens e pelo pleno emprego. Lutamos pela terra para quem nela trabalha e lutamos pela escola pública de boa qualidade para nossos filhos.
O mais importante é que as mulheres, pouco a pouco, voltam a se dar conta que seu problema é um problema de classe, de que seu inimigo é o capitalismo imperialista; é a burguesia, que é formada por homens e por mulheres. E que portanto devemos lutar junto a nossa classe, a classe trabalhadora, pondo nossa opressão a serviço dessa luta, que é permanente, como mostra a revolução árabe.
Muito já nos contentamos com conquistas democráticas ou simples promessas de governos burgueses que se esfumaçam no ar nem bem se aproxima outra crise econômica, que põe seus lucros em perigo. Há que seguir até a conquista do poder pela classe trabalhadora, já que a história de nossas lutas, uma após outra, mostra que precisamos de uma direção que nos envolva em uma revolução permanente até a expropriação do grande capital e a expulsão do ocupante de turno que nos saqueia, para assim poder traçar a via de nossa emancipação completa, algo que só é possível se toda a classe operária se emancipa do jugo imperialista. Não há emancipação completa e verdadeira das mulheres sem que todos os trabalhadores tenham uma vida digna e feliz.
O impulso da revolução árabe, com milhares de mulheres nas ruas, sem medo e sem vergonha, hoje nos contagia de certeza na força das mulheres na revolução e por isso nós, mulheres oprimidas e exploradas de toda a América Latina lhes damos nosso apoio e saudação à luta pelo socialismo.
O “bom burguês” José Alencar recusou-se a assumir paternidade de filha
Além de ter sido o maior empresário da indústria têxtil do mundo, o grande burguês José Alencar foi protagonista de um corriqueiro – nada original, porém peculiar – golpe machista-burguês pouquíssimo divulgado pela imprensa. Ele sofria um processo por negação e impedimento judicial de investigação e reconhecimento de paternidade. A informação é do Yahoo! Notícias, na matéria “Suposta filha recebe notícia da morte ‘com tristeza’”
Alencar morreu deixando um suspeitíssimo processo de investigação de paternidade que ocorre em segredo de justiça desde 2001. José Alencar entrou com recurso e foi atendido depois de a justiça ter reconhecido que a professora aposentada Rosemary, 56 anos, era sua filha e poderia usar o seu nome. Alencar se negou a fazer o exame de DNA.
Inúmeros são os casos protagonizados pela corja de burgueses que se aproveitam sexualmente de mulheres, sobretudo das de nossa classe, sem assumir os eventuais filhos e filhas destas relações.
Pesquisando, descobri que José Alencar com cinismo, escárnio e completo machismo zombou do fato no programa do Jô (o que me embrulhou o estômago ao assistir) exibido em 3 de agosto de 2010:
“Essa senhora que fala que é mãe de uma minha filha nunca que poderia ter posto o pé naquele clube, aquilo era uma coisa... era uma religião. (...) Não há uma pessoa que tenha me visto com essa mulher. (...) “Como os próprios tribunais dizem, tem de haver indícios. Senão, amanhã, todo mundo que foi à zona um dia pode ser [submetido a exame de DNA]. (...)“São milhões de casos de pessoas que foram à zona. Só que, provavelmente, a maioria desses casos não tenham sido objeto de interesse claro, político e econômico. Agora, só pelo fato de ter sido [vice-presidente da República], eu vou me submeter a um exame de DNA, que também não é 100%?”
Estas são algumas das declarações de Alencar, entre calúnias dirigidas à mulher, mãe de Rosemary, que trabalhava como enfermeira e, em 1953, morava numa rua onde havia casas de prostituição, em Caratinga (MG). Segundo Alencar, sua esposa foi sua única namorada, mas ele classifica como namoradinhas algumas moças com quem dançava em bailes durante a juventude. E nega que uma ‘moça pobre’, como a mãe da professora, pudesse ter ido a um desses bailes.
Alencar nutriu-se, durante toda a vida de burguês, do trabalho, das energias, do suor e do sangue dos milhões de mulheres operárias que explorou na Coteminas, em Minas Gerais, no Brasil e no mundo. Ao menor indício de resistência, seu governo e do presidente Lula, colocou o exército brasileiro para dirigir a ocupação militar do Haiti e garantir a instalação das suas indústrias (e dos seus amigos, principalmente empresários norte-americanos) neste país. Uma produção com altíssimos lucros, que paga menos de dois dólares por dia à cada operária que trabalha cerca de 12 horas diárias, sob a mira das baionetas e dos abusos dos soldados da Minustah, além das péssimas condições de trabalho.
Portanto, esta é uma pequena parte da verdadeira história do grande, covarde e machista capitalista José Alencar. A verdadeira luta de José Alencar, em vida, não foi contra o câncer. Foi contra a nossa classe.
Seu império segue nos explorando, seu império segue nos oprimindo. É contra o império de capitalistas canalhas, exploradores, opressores e covardes como ele, que seguimos dedicando a nossa vida de luta pela Revolução Socialista.
15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Lembremos os nossos mortos
Jeronimo Castro*
• Na tarde do dia 17 de abril de 1996, em um trecho da rodovia PA-150 conhecido como curva do S, 19 sem-terra foram mortos e outros 60 saíram feridos em um dos massacres mais impressionantes do Brasil “democrático”.
O grupo que marchava havia feito uma ocupação da fazenda Macaxeira e exigia sua desapropriação para reforma agrária.
Era o tempo das grandes ocupações de terra, do MST com um apoio popular imenso, da reforma agrária pautada em todas as discussões políticas. De uma tremenda polarização no campo, onde sem-terra e trabalhadores de um lado, e latifundiários e burguesia do outro, lutavam para disputar que forma de propriedade e desenvolvimento agrário deveria predominar.
O efeito do massacre na população foi espantoso. Em todo o país houve atos. Em Belém do Pará, estado onde aconteceu o massacre, no dia do protesto, a Polícia Militar foi retirada das ruas para evitar que a população se enfrentasse com ela. E, raridade na história recente do país, a manifestação atacou um quartel sem sofrer nenhuma retaliação.
Nos meses que se seguiram ao massacre, o prestígio do MST cresceu como nunca. Uma marcha convocada por eles levaria ao que seria a Marcha dos 100 mil.
Quinze anos depois, nenhum dos envolvidos no massacre está preso, a reforma agrária continua por fazer e o agronegócio avançou justamente no governo do partido que supostamente era o maior aliado do MST, o PT.
O governo Lula, como nenhum outro, apoio, financiou e defendeu o avanço do capitalismo no campo. Uma contrarreforma agrária, de caráter mercantil e reacionário, foi executada. Uma campanha midiática foi feita para satanizar o MST e toda a luta pela terra. O próprio MST mudou, ao acreditar que o governo Lula era seu governo, ocupou postos na estrutura federal e freou a luta direta pela terra.
É verdade que nenhuma homenagem trará de volta os mortos, nem suprirá a ausência dos que tombaram naquele dia para seus companheiros, amigos e parentes. Os órfãos continuarão órfãos, as viúvas continuarão viúvas. Mas é necessário não deixar cair no esquecimento estes 19 mortos (1). Mais do que artigos e protestos, nós queremos homenageá-los com lutas. Manter viva não apenas na memória, mas nos nossos atos cotidianos, a bandeira que eles defendiam, e reivindicar como mais atual que nunca a luta por uma reforma agrária ampla, radical e sob controle dos trabalhadores.
Nós mantemos viva a certeza cantada naqueles dias, de que “nosso lema é ocupar, resistir e produzir”, e de que só sairá reforma agrária com a aliança camponesa e operária. Esta é a homenagem que queremos fazer a esses mortos, estes são os nossos heróis e mártires. Nós reivindicamos plenamente suas lutas, nós as levaremos adiante.
5 de mar. de 2011
4 de mar. de 2011
29 de set. de 2010
Salles e a transposição de Abril despedaçado
O diretor Walter Salles, ao traduzir Abril despedaçado para o cinema, ancorou-se em alguns dos elementos colocados no livro homônimo. Um desses elementos é a questão da morte impulsionada pela briga entre famílias e a presentificação da tradição através do respeito ao código. Ele também re-utiliza a bessa, trégua dada entre as
famílias que dura em torno de um mês e que marca as decisões burocráticas e a despedida da vida daquele que está “jurado de morte”. O nordeste é o espaço escolhido pelo diretor para desenvolver a história. A região é o cenário dos costumes tradicionais,como a disputa entre a família Breves e Ferreira. O local seco, áspero e miserável reflete a iminência da morte como anuncia o narrador-protagonista Pacu.
A passagem do tempo é incorporada cenicamente através da bolandeira. O antigo objeto que no século XIX fazia a moagem da cana representa a estrutura cíclica em que os personagens estão imersos: morte – vingança – morte. Ela destitui a humanidade dos personagens (ao colocá-los lado a lado com os bois e ratificar o discurso da força),nivela-os aos animais e reproduz a prisão existencial em que estão submetidos por força da tradição e da geografia.
A luz e o ambiente trágico
Entre as diversas concepções que interagem com a noção de fotografia no cinema,
compreendemos aqui que este elemento tem uma função dramática. A luz funciona
como um marcador que condensa um caráter narrativo e estruturante da trama.
Si la lumière peut être dramatisée, c’est que elle s’y prête de par
nature. L’art classique va jouer d’un drame proprement ontologique
(au plein sens du mot : où l’être de la lumière, et donc du
cinématographe, renvoie à l’être en général, humain en particulier). A
savoir une dualité, un dechirement de l’être intime de la lumière entre
clarté et obscurité, doublé d’une déperdition ou perte ; (D’ALLONES,
1991, p. 99)1
Do ponto vista fílmico, o primeiro elemento do romance incorporado foi a cor: o
vermelho. O frio, a aridez das montanhas e o sangue derramado (presentes no início do
livro) foram sintetizados imageticamente pela seqüência da camisa pendurada no varal,
flutuando ao sabor do vento, manchada de sangue. A carga simbólica da cena denota,
entre outras coisas, a possibilidade de comunicação com o além estabelecida pela
família-vítima. Como atesta o discurso dos personagens ao falar que o sangue
amarelado na camisa é sinal de que a alma do morto não encontrou sossego e precisa ser
vingada.
A imagem também é uma referência às tragédias gregas, pois as “camisas
ensangüentadas” aparecem como véus manchados em Oréstia, foram utilizadas pelos
habitantes de Creta durante a guerra de Tróia como elementos de comunicação com as
vítimas. Os gregos acreditavam que a recuperação do sangue não poderia ser realizada
sem o consentimento do morto (BUTCHER, 2002, p. 112). Um outro aspecto acerca da
luz no filme pode ser percebido com a utilização de sombras, representação da opressão
e da falta de perspectiva em que estão mergulhados os personagens.
Há ainda a presença constante de fortes contrastes – zonas de claro e escuro,
utilização recorrente da escuridão. A fotografia apresenta-se árida e seca, como a
geografia que cerca a casa dos Breves, áspera, em que uma parte do quadro sempre está
às escuras, representando simultaneamente a presença constante da morte, mesmo de
dia. Não há singeleza, os rostos e os elementos do quadro apresentam-se recortados e a
escala cromática vai dos ocres ao negro denso, com alguns pontos de cor,
principalmente o sangue que fotografado na cor vermelha intensa, viva. Nas seqüências
realizadas no espaço interior da casa da família Breves, como a que o pai bate em
Tonho, observamos que o diretor de fotografia utilizou apenas a luz do candeeiro para
iluminar os rostos dos personagens. A escuridão e o tom sombrio só desaparecem da
narrativa quando ocorre a ruptura no final da trama. Depois de livrar-se da opressão e do
destino trágico Tonho encontra o branco, a liberdade na praia.
Segundo Walter Salles, a concepção fotográfica de Abril despedaçado foi
inspirada no contraste entre luz e sombra trabalhado na pintura Rildebrant, pintor
viajante do século XVII, que se diferencia, por exemplo, de outro viajante por
representar o choque entre claro e escuro mais violento do que em Franz Post. Portanto
a violência da luz e a existência de zonas densas e escuras reforçam a presença
constante da morte.
1 Se a luz pode ser dramatizada, é aquela que é emprestada da natureza. A arte clássica vai jogar articular
o drama propriamente ontológico (no plano essencial da palavra: onde está a luz, e o reconhecimento da
dualidade íntima da luz entre claro e escuro, duplo de uma repartição).
A construção dos personagens
O narrador-personagem deixa de ser o jornalista viajante e passa a ser o Menino,
depois batizado de Pacu, que é apresentado como aquele que representa a voz da ruptura
dentro da trama. As cenas, como a que ele discorda do pai quando este delega a Tonho a
tarefa de matar o inimigo da outra família, ou quando ele imagina-se no mar
representam a idéia de que a sua inocência (trazida pelo olhar infantil) aponta para o
espaço da liberdade, pois ele é colocado como aquele que rompe as amarras da tradição
sertaneja.
Tonho é apresentado como “aquele condenado à morte”, mas que, ao conhecer o
amor de Clara, encontra-se novamente com a vida. O pai, um homem rígido, opressor e
rude, que busca a todo custo honrar o nome da família. A mãe é uma mulher oprimida
pelo marido. Os artistas mambembes, Salustiano e Clara, representam a possibilidade de
um mundo além do sertão. A cena em que os mambembes dão a Pacu um livro “com
histórias de peixe”, despertando no menino a curiosidade por um outro mundo. Clara ao
despertar o amor em Tonho possibilita-o de romper com o caminho que o levaria a
morte e leva-o à descoberta da vida.
Os personagens da família Breves carregam a sombra da morte, a violência trazida
pela luta entre famílias e a vida marcada por um destino pré-determinado e
fundamentalmente trágico. Na relação entre pai, mãe e filho não há espaço para
diálogos, afetos e ternura. Os dois filhos são representações de personagens símbolos
que traduzem a falta de identidade e a não-relação com a figura paterna.
2.2 O diálogo com o Cinema Novo
O diálogo da obra fílmica com a estética cinemanovista é bastante preciso à
medida que o diretor recorre a técnicas cinematográficas que se tornaram referência na
produção da década de 60. Uma destas técnicas é o uso da câmara na mão, utilizada, por
exemplo, na seqüência em que Tonho mata um filho da família Ferreira. Outra
característica é o tratamento de temas como a violência.
Do Cinema Novo: uma estética da violência, antes de ser
primitiva, é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o
colonizador compreenda a existência do colonizado; somente
conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador
pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora.
Enquanto não ergue as armas, o colonizador é um escravo; (ROCHA,
1965, p. 165)
Salles incorpora alguns pressupostos da “estética da violência” glauberiana, como
a questão da necessidade de ruptura para o processo de libertação, visto no filme na
seqüência em que tanto Tonho, quanto Pacu desobedecem à norma, rompendo com a
estrutura e a perpetuação do ciclo. A ambientação no Sertão nordestino também aponta
para um diálogo com o Cinema Novo, pois o espaço é considerado simultaneamente
como local da tradição e da libertação nacional.
Conclusão
Ao articular o discurso literário ao fílmico Walter Salles compõe uma narrativa
que se aproxima em alguns momentos da obra inspiradora, viabilizando
cinematograficamente questões relacionadas ao tempo (a bolandeira) e a dimensão
trágica (observada na fotografia), por exemplo. Do ponto de vista da transposição do
espaço, que originalmente foi representado nas montanhas albanesas, ele retoma o
discurso dos cinemanovistas para respaldar a idéia de que o Sertão seria o local que
possibilitaria a ruptura social e a quebra da alienação. Neste sentido, a ambientação da
trama ganha um aspecto duplo e contraditório, pois representa o “local da revolução” e
o espaço que determina a vida dos personagens.
Do ponto de vista dos personagens encontramos algumas mudanças que
apontam para uma tentativa de apaziguar o aspecto tenso do livro. Para tanto, ele troca o
personagem do escritor pelo do menino e acrescenta os personagens mambembes que
trarão um tom lúdico à trama.
Referências Bibliográficas
BUTCHER, Pedro, MÜLLER, Ana Luíza. Abril despedaçado: história de um filme.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
KADARÉ, Ismail. Abril despedaçado. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo:
Brasiliense, 1983.
Autor
1 Raquel do MONTE, Mestrando em Comunicação
Universidade Federal de Pernambuco.
E-mail: rdomonte@gmail.como
1 de jul. de 2010
GOLPE EM HONDURAS
Ainda sem um acordo para a crise, o golpe de Estado que levou à deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, completa um ano nesta segunda-feira. No dia 28 de junho de 2009, o Exército tirou Zelaya da residência presidencial, pela manhã, ainda de pijamas.
Os desentendimentos no país começaram quando o presidente deposto tentou fazer um referendo popular para que fosse permitida a reeleição presidencial na Constituição de Honduras. Uuma tentativa de continuar no poder. No país, o mandato de um presidente da República dura quatro anos e a reeleição é proibida pela Constituição, por meio de uma cláusula pétrea – ou seja, que não pode ser alterada.
Sem apoio de seu partido e do Congresso, Zelaya foi detido pelo Exército do país e levado à Costa Rica. Assim, com a queda do presidente eleito, diversos problemas políticos começaram a atingir o país. Internamente, Honduras se dividiu entre os manifestantes que apóiam e os que reprovam Zelaya. Passeatas, manifestações e confrontos violentos marcaram os dias que se seguiram. Além disso, a retirada forçada do presidente do poder não foi bem aceita por países como os Estados Unidos, Venezuela, Bolívia e Brasil.
Falta de reconhecimento no cenário mundial
O doutor em ciência política Moisés da Silva Marques, professor no curso de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP, explica que a situação atual no país não é como na época do golpe. Atualmente, “a grande questão é o reconhecimento do país nas relações internacionais”, diz.
“Na última reunião da cúpula da America Latina, da qual participaram países da região do Caribe, Brasil, e outros, não foi permitida a participação de Honduras, pois muitos países não reconhecem a posição do presidente Porfírio Lobo” [que assumiu o poder após as eleições realizadas em 29 de novembro de 2009], exemplificou.
Além da pressão dos países para excluir Honduras de encontros como esse, o golpe trouxe ainda outros prejuízos para o país, como a exclusão da Organização dos Estados Americanos (OEA). “A OEA é a mais antiga organização da região, ela zela basicamente pela questão de segurança, questão ambiental, paz na região, entre outras”, explica o professor. “É a ‘ONU’ regional”, classifica.
A exclusão de Honduras da organização aconteceu poucos dias depois do golpe contra Zelaya. Na época, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, condenou a deposição do presidente.
No início deste mês, a OEA aprovou a criação de uma comissão especial para avaliar a criação de uma comissão que deve avaliar a possibilidade de reintegração de Honduras. A comissão deve analisar a situação política e jurídica do país até o próximo dia 31 de julho.
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