29 de set. de 2010
Salles e a transposição de Abril despedaçado
O diretor Walter Salles, ao traduzir Abril despedaçado para o cinema, ancorou-se em alguns dos elementos colocados no livro homônimo. Um desses elementos é a questão da morte impulsionada pela briga entre famílias e a presentificação da tradição através do respeito ao código. Ele também re-utiliza a bessa, trégua dada entre as
famílias que dura em torno de um mês e que marca as decisões burocráticas e a despedida da vida daquele que está “jurado de morte”. O nordeste é o espaço escolhido pelo diretor para desenvolver a história. A região é o cenário dos costumes tradicionais,como a disputa entre a família Breves e Ferreira. O local seco, áspero e miserável reflete a iminência da morte como anuncia o narrador-protagonista Pacu.
A passagem do tempo é incorporada cenicamente através da bolandeira. O antigo objeto que no século XIX fazia a moagem da cana representa a estrutura cíclica em que os personagens estão imersos: morte – vingança – morte. Ela destitui a humanidade dos personagens (ao colocá-los lado a lado com os bois e ratificar o discurso da força),nivela-os aos animais e reproduz a prisão existencial em que estão submetidos por força da tradição e da geografia.
A luz e o ambiente trágico
Entre as diversas concepções que interagem com a noção de fotografia no cinema,
compreendemos aqui que este elemento tem uma função dramática. A luz funciona
como um marcador que condensa um caráter narrativo e estruturante da trama.
Si la lumière peut être dramatisée, c’est que elle s’y prête de par
nature. L’art classique va jouer d’un drame proprement ontologique
(au plein sens du mot : où l’être de la lumière, et donc du
cinématographe, renvoie à l’être en général, humain en particulier). A
savoir une dualité, un dechirement de l’être intime de la lumière entre
clarté et obscurité, doublé d’une déperdition ou perte ; (D’ALLONES,
1991, p. 99)1
Do ponto vista fílmico, o primeiro elemento do romance incorporado foi a cor: o
vermelho. O frio, a aridez das montanhas e o sangue derramado (presentes no início do
livro) foram sintetizados imageticamente pela seqüência da camisa pendurada no varal,
flutuando ao sabor do vento, manchada de sangue. A carga simbólica da cena denota,
entre outras coisas, a possibilidade de comunicação com o além estabelecida pela
família-vítima. Como atesta o discurso dos personagens ao falar que o sangue
amarelado na camisa é sinal de que a alma do morto não encontrou sossego e precisa ser
vingada.
A imagem também é uma referência às tragédias gregas, pois as “camisas
ensangüentadas” aparecem como véus manchados em Oréstia, foram utilizadas pelos
habitantes de Creta durante a guerra de Tróia como elementos de comunicação com as
vítimas. Os gregos acreditavam que a recuperação do sangue não poderia ser realizada
sem o consentimento do morto (BUTCHER, 2002, p. 112). Um outro aspecto acerca da
luz no filme pode ser percebido com a utilização de sombras, representação da opressão
e da falta de perspectiva em que estão mergulhados os personagens.
Há ainda a presença constante de fortes contrastes – zonas de claro e escuro,
utilização recorrente da escuridão. A fotografia apresenta-se árida e seca, como a
geografia que cerca a casa dos Breves, áspera, em que uma parte do quadro sempre está
às escuras, representando simultaneamente a presença constante da morte, mesmo de
dia. Não há singeleza, os rostos e os elementos do quadro apresentam-se recortados e a
escala cromática vai dos ocres ao negro denso, com alguns pontos de cor,
principalmente o sangue que fotografado na cor vermelha intensa, viva. Nas seqüências
realizadas no espaço interior da casa da família Breves, como a que o pai bate em
Tonho, observamos que o diretor de fotografia utilizou apenas a luz do candeeiro para
iluminar os rostos dos personagens. A escuridão e o tom sombrio só desaparecem da
narrativa quando ocorre a ruptura no final da trama. Depois de livrar-se da opressão e do
destino trágico Tonho encontra o branco, a liberdade na praia.
Segundo Walter Salles, a concepção fotográfica de Abril despedaçado foi
inspirada no contraste entre luz e sombra trabalhado na pintura Rildebrant, pintor
viajante do século XVII, que se diferencia, por exemplo, de outro viajante por
representar o choque entre claro e escuro mais violento do que em Franz Post. Portanto
a violência da luz e a existência de zonas densas e escuras reforçam a presença
constante da morte.
1 Se a luz pode ser dramatizada, é aquela que é emprestada da natureza. A arte clássica vai jogar articular
o drama propriamente ontológico (no plano essencial da palavra: onde está a luz, e o reconhecimento da
dualidade íntima da luz entre claro e escuro, duplo de uma repartição).
A construção dos personagens
O narrador-personagem deixa de ser o jornalista viajante e passa a ser o Menino,
depois batizado de Pacu, que é apresentado como aquele que representa a voz da ruptura
dentro da trama. As cenas, como a que ele discorda do pai quando este delega a Tonho a
tarefa de matar o inimigo da outra família, ou quando ele imagina-se no mar
representam a idéia de que a sua inocência (trazida pelo olhar infantil) aponta para o
espaço da liberdade, pois ele é colocado como aquele que rompe as amarras da tradição
sertaneja.
Tonho é apresentado como “aquele condenado à morte”, mas que, ao conhecer o
amor de Clara, encontra-se novamente com a vida. O pai, um homem rígido, opressor e
rude, que busca a todo custo honrar o nome da família. A mãe é uma mulher oprimida
pelo marido. Os artistas mambembes, Salustiano e Clara, representam a possibilidade de
um mundo além do sertão. A cena em que os mambembes dão a Pacu um livro “com
histórias de peixe”, despertando no menino a curiosidade por um outro mundo. Clara ao
despertar o amor em Tonho possibilita-o de romper com o caminho que o levaria a
morte e leva-o à descoberta da vida.
Os personagens da família Breves carregam a sombra da morte, a violência trazida
pela luta entre famílias e a vida marcada por um destino pré-determinado e
fundamentalmente trágico. Na relação entre pai, mãe e filho não há espaço para
diálogos, afetos e ternura. Os dois filhos são representações de personagens símbolos
que traduzem a falta de identidade e a não-relação com a figura paterna.
2.2 O diálogo com o Cinema Novo
O diálogo da obra fílmica com a estética cinemanovista é bastante preciso à
medida que o diretor recorre a técnicas cinematográficas que se tornaram referência na
produção da década de 60. Uma destas técnicas é o uso da câmara na mão, utilizada, por
exemplo, na seqüência em que Tonho mata um filho da família Ferreira. Outra
característica é o tratamento de temas como a violência.
Do Cinema Novo: uma estética da violência, antes de ser
primitiva, é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o
colonizador compreenda a existência do colonizado; somente
conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador
pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora.
Enquanto não ergue as armas, o colonizador é um escravo; (ROCHA,
1965, p. 165)
Salles incorpora alguns pressupostos da “estética da violência” glauberiana, como
a questão da necessidade de ruptura para o processo de libertação, visto no filme na
seqüência em que tanto Tonho, quanto Pacu desobedecem à norma, rompendo com a
estrutura e a perpetuação do ciclo. A ambientação no Sertão nordestino também aponta
para um diálogo com o Cinema Novo, pois o espaço é considerado simultaneamente
como local da tradição e da libertação nacional.
Conclusão
Ao articular o discurso literário ao fílmico Walter Salles compõe uma narrativa
que se aproxima em alguns momentos da obra inspiradora, viabilizando
cinematograficamente questões relacionadas ao tempo (a bolandeira) e a dimensão
trágica (observada na fotografia), por exemplo. Do ponto de vista da transposição do
espaço, que originalmente foi representado nas montanhas albanesas, ele retoma o
discurso dos cinemanovistas para respaldar a idéia de que o Sertão seria o local que
possibilitaria a ruptura social e a quebra da alienação. Neste sentido, a ambientação da
trama ganha um aspecto duplo e contraditório, pois representa o “local da revolução” e
o espaço que determina a vida dos personagens.
Do ponto de vista dos personagens encontramos algumas mudanças que
apontam para uma tentativa de apaziguar o aspecto tenso do livro. Para tanto, ele troca o
personagem do escritor pelo do menino e acrescenta os personagens mambembes que
trarão um tom lúdico à trama.
Referências Bibliográficas
BUTCHER, Pedro, MÜLLER, Ana Luíza. Abril despedaçado: história de um filme.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
KADARÉ, Ismail. Abril despedaçado. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo:
Brasiliense, 1983.
Autor
1 Raquel do MONTE, Mestrando em Comunicação
Universidade Federal de Pernambuco.
E-mail: rdomonte@gmail.como
1 de jul. de 2010
GOLPE EM HONDURAS
Ainda sem um acordo para a crise, o golpe de Estado que levou à deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, completa um ano nesta segunda-feira. No dia 28 de junho de 2009, o Exército tirou Zelaya da residência presidencial, pela manhã, ainda de pijamas.
Os desentendimentos no país começaram quando o presidente deposto tentou fazer um referendo popular para que fosse permitida a reeleição presidencial na Constituição de Honduras. Uuma tentativa de continuar no poder. No país, o mandato de um presidente da República dura quatro anos e a reeleição é proibida pela Constituição, por meio de uma cláusula pétrea – ou seja, que não pode ser alterada.
Sem apoio de seu partido e do Congresso, Zelaya foi detido pelo Exército do país e levado à Costa Rica. Assim, com a queda do presidente eleito, diversos problemas políticos começaram a atingir o país. Internamente, Honduras se dividiu entre os manifestantes que apóiam e os que reprovam Zelaya. Passeatas, manifestações e confrontos violentos marcaram os dias que se seguiram. Além disso, a retirada forçada do presidente do poder não foi bem aceita por países como os Estados Unidos, Venezuela, Bolívia e Brasil.
Falta de reconhecimento no cenário mundial
O doutor em ciência política Moisés da Silva Marques, professor no curso de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP, explica que a situação atual no país não é como na época do golpe. Atualmente, “a grande questão é o reconhecimento do país nas relações internacionais”, diz.
“Na última reunião da cúpula da America Latina, da qual participaram países da região do Caribe, Brasil, e outros, não foi permitida a participação de Honduras, pois muitos países não reconhecem a posição do presidente Porfírio Lobo” [que assumiu o poder após as eleições realizadas em 29 de novembro de 2009], exemplificou.
Além da pressão dos países para excluir Honduras de encontros como esse, o golpe trouxe ainda outros prejuízos para o país, como a exclusão da Organização dos Estados Americanos (OEA). “A OEA é a mais antiga organização da região, ela zela basicamente pela questão de segurança, questão ambiental, paz na região, entre outras”, explica o professor. “É a ‘ONU’ regional”, classifica.
A exclusão de Honduras da organização aconteceu poucos dias depois do golpe contra Zelaya. Na época, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, condenou a deposição do presidente.
No início deste mês, a OEA aprovou a criação de uma comissão especial para avaliar a criação de uma comissão que deve avaliar a possibilidade de reintegração de Honduras. A comissão deve analisar a situação política e jurídica do país até o próximo dia 31 de julho.
21 de jun. de 2010
15 de jun. de 2010
A menina e o pássaro encantado
A menina e o pássaro encantado
uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
9 de mai. de 2010
Superexploração sustenta a recuperação da economia
• Mário* trabalha em uma unidade da siderúrgica Gerdau em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, há mais de vinte anos. É do setor de produção de cilindros utilizados para laminação, que abastece principalmente as fábricas de auto-peças. No final de 2008, como inúmeros outros trabalhadores país afora, ele percebeu que a “marolinha” de Lula era na verdade um tsunami. A crise internacional chegava com tudo no Brasil, deixando um rastro de demissões no setor industrial.
Primeiro, a produção caiu drasticamente. Depois, vieram os cinco meses de férias coletivas, e o inevitável medo da demissão. O tempo passou e a siderúrgica foi aos poucos retomando o ritmo. Muitos trabalhadores, porém, não retornaram. “Mais de 300 foram mandados embora”, atesta Mário, que calcula trabalharem na unidade uns 2 mil funcionários.
Hoje, quase um ano e meio depois da chegada da crise, a produção está quase no mesmo nível que antes. “Fazíamos cerca de 10 cilindros por dia, hoje estamos fazendo algo como 7 ou 8”, diz. A diferença, porém, é que, se antes havia 75 trabalhadores na mesma área que trabalha Mário, hoje há somente 40. Resultado: horas extras, pressão para aumentar ainda mais o ritmo de trabalho e assédio sobre os trabalhadores.
Na fabricante de aeronaves Embraer, em São José dos Campos (SP), isso é ainda mais explícito. Em 2008, a empresa produziu 204 aviões, no ano seguinte foram 244. E isso com 4.200 trabalhadores a menos.
Esses exemplos mostram exatamente a realidade nas fábricas hoje. O governo e a imprensa fazem alarde sobre o suposto fim da crise e a retomada do crescimento econômico. Na indústria, prevalece o discurso otimista que dá a entender que as dificuldades ficaram para trás. O que ninguém diz, porém, é que a tal recuperação se dá às custas do aumento brutal da exploração dos operários.
O que sustenta a “recuperação”?
No Brasil, a indústria foi o setor mais afetado pela crise. Para enfrentá-la, as empresas, com o apoio de centrais como CUT e Força Sindical, lançaram mão além das demissões, de férias coletivas com redução dos salários e todo tipo de flexibilização. Queriam manter suas margens de lucros reduzindo os custos com mão de obra. Além da Embraer, que demitiu 4 mil trabalhadores, a também privatizada Vale dispensou 1,3 mil. E a General Motors, recuou em 2.500 postos de trabalho em São José dos Campos (SP).
O governo Lula, por sua vez, lançou mão de uma série de medidas para ajudar os empresários. Bilhões em subsídios, financiamentos a juros baixos e isenções fiscais protegeram os lucros das grandes empresas e multinacionais.
A produção industrial ainda não retomou os níveis pré-crise, mas aumentou seu ritmo. Os patrões, porém, valendo-se da máxima que “crise” é sinônimo de oportunidade, arrumaram logo um jeito de lucrar ainda mais.
Como já haviam demitido, para que recontratar todos se podem forçar os trabalhadores que ficaram a trabalhar mais? Gastando menos com mão de obra e contando com a ajuda do governo, a Embraer, por exemplo, aumentou em 109% seu lucro líquido. Há hoje, em toda a indústria, 300 mil operários a menos do que em outubro de 2008.
Mais por menos
Se antes da crise, em pleno crescimento da economia, já havia uma enorme pressão para o aumento da produtividade, depois da onda de demissões isso só piorou. Como a produção cresce numa proporção maior que os empregos, os trabalhadores são obrigados a compensar essa diferença aumentando seu ritmo e a jornada de trabalho.
A metalúrgica Beatriz é auxiliar de produção e opera uma máquina de solda. A jornada é extenuante e as horas extras cada vez mais frequentes. “Trabalho 8 horas por dia na semana e 7 horas no sábado, mas ultimamente sempre tem hora extra no domingo”, relata. Quando faz hora extra, trabalha outras 8 horas.
Para a refeição, são 30 minutos. Mas na prática pode ser menos. A gente só sai, come e já volta.” Tudo muito corrido “para que a máquina não fique parada”.
O jovem Bruno, funcionário de uma autopeça de São Paulo, vê essa realidade cotidianamente. “Tem um setor grande da empresa que faz muitas horas extras”, relata. “Agora estão dizendo que a segunda parcela da PLR vai depender do rendimento, da produtividade, qualidade, e da frequencia”, conta o metalúrgico que ganha R$ 4,60 a hora e que percebeu um aumento no ritmo de trabalho nos últimos meses.
Controle
No último trimestre de 2009, a produtividade dos trabalhadores da indústria cresceu 10% em relação ao mesmo período do ano anterior. Enquanto a produção cresceu 5,8%, o emprego diminuiu 4%.
Como se não bastasse, a média salarial diminui, pois os operários que entram no mercado de trabalho são obrigados a aceitar salários mais baixos. Ajuda nisso a altíssima rotatividade da mão de obra.
Se os mais novos já são contratados sabendo dessa situação, os mais antigos são disciplinados, com um controle cada vez mais rígido do serviço. “Dizem bem claramente: quem não se enquadrar no sistema, é rua”, conta Mário. Não é de se espantar, assim, os cada vez mais frequentes acidentes de trabalho. Só na Gerdau de Pindamonhagaba foram oito só na época do carnaval.
* Todos os nomes são fictícios
“Vocês vão ganhar três vezes menos”
“Quem não estiver satisfeito, pode procurar outro emprego”. Foi o que Mauro ouviu na entrevista de seleção para um trabalho em uma fábrica de auto-peças do grande ABC, que tem cerca de 6 mil operários.
Durante a crise, a fábrica demitiu todo um setor da unidade, a fim de terceirizar o serviço e cortar custos. Não deu certo e a empresa teve que abrir novas contratações. Mas vão pagar um terço do que recebem os antigos funcionários. “Eles logo advertiram: aqui dentro vocês vão ouvir toda hora que estão ganhando menos que os outros”, conta Mauro.
Se antes do auge da crise, um operário ganhava quase R$ 10 por hora, agora a empresa oferece apenas R$ 3,50 aos que quiserem entrar.
No 1º de maio, Serra e Dilma fazem campanha eleitoral com recursos públicos
• Nesse 1º de maio a imprensa destacou os atos-shows promovidos pelas maiores centrais sindicais, que reuniram centenas de milhares de pessoas, principalmente na capital de São Paulo. Como já vem ocorrendo há vários anos, foram eventos bancados por estatais, bancos e empresas privadas, o que garantiu a contratação de uma série de artistas famosos, além do sorteio de carros e apartamentos.
Como este é um ano eleitoral e o clima de campanha já está se impondo, o governo se aproveitou disso para promover sua candidata à Presidência. Dilma Roussef não perdeu tempo e, ao lado de Lula, compareceu ao evento da Força Sindical e CGTB, ao ato organizado pela CTB, que também reuniu a UGT e a NCST e, encerrou o dia na festa da CUT.
Segundo a Folha de S. Paulo, só as estatais como Petrobras, Caixa e Banco do Brasil despenderam algo como R$ 2 milhões aos eventos que serviram como verdadeiros palanques eleitorais à candidata do governo. Nos atos, Lula mal teve a preocupação de disfarçar sua real intenção em comparecer pela primeira vez aos atos de 1º de maio, em oito anos de governo. Como no ato da Força, em que afirmou ao público: “Vocês sabem quem eu quero”.
Campanha eleitoral
Diante da escancarada campanha eleitoral realizada por Lula, Dilma e os dirigentes das centrais, o PSDB anunciou que entraria com uma ação no TSE por campanha eleitoral antecipada e financiada com recursos públicos. O que os tucanos não dizem, porém, é que, justo no momento em que Lula e Dilma faziam campanha nas festas das centrais, Serra participava de um evento religioso em Santa Catarina, bancado com verbas públicas de administrações tucanas.
O evento, organizado pela ONG Gideões Missionários da Última Hora, ligada à igreja Assembleia de Deus, recebeu R$ 540 mil do governo de Santa Catarina e da Prefeitura de Camboriú, ambos governados pelo PSDB. No congresso religioso, assim como Lula, Serra fez campanha aberta e chegou a pedir oração para ter “sabedoria para enfrentar as lutas e desafios daqui por diante”. O candidato tucano foi aclamado ainda como o “futuro presidente” pelos dirigentes da igreja.
Esse 1º de maio mostra, assim, que tanto o PT quanto o PSDB não pensam duas vezes antes de utilizar recursos públicos para promoverem seus candidatos. Expõe ainda o atrelamento das cúpulas das centrais sindicais ao governo, o mesmo que se recusa a reduzir a jornada de trabalho ou reajustar as aposentadorias, bandeiras que essas centrais dizem defender. É bom notar ainda que não só o PT que recorre às centrais sindicais pelegas em época de eleições. Em 2006, quem compareceu ao ato da Força Sindical em São Paulo, por exemplo, foi o então candidato à Presidência Geraldo Alckmin, que deve disputar o governo do estado este ano.
Financiamento
Um outro aspecto desse 1º de maio, além dos recursos públicos e das centrais pelegas, é o financiamento privado dessas festas. Que interesses tem, por exemplo, o Santander, Brahma ou Casas Bahia em financiar os atos e, por extensão, essas campanhas eleitorais? Isso se dá pois, uma vez eleito, tanto o PSDB quanto o PT governam para as grandes empresas. Nesse dia 4 de maio um levantamento da Folha mostra que 68% de tudo o que PT, PSDB, PMDB e DEM receberam em 2009 vieram de empreiteiras. Só o PT levou quase R$ 45 milhões. E olha que nem foi ano eleitoral!
É como diz o ditado: quem paga a banda, escolhe a música. É por isso que o PSTU se recusa a receber doações de empresas ou bancos, sendo financiado exclusivamente pelos trabalhadores. São os militantes e simpatizantes do partido que sustentam inclusive nossa campanha eleitoral, garantindo assim total independência na defesa da classe trabalhadora, na luta contra o capitalismo, e por uma sociedade socialista.
29 de abr. de 2010
O ALUNO E FILOSOFIA
Como adultos, aprendemos a aceitar as perplexidades que acompanham a nossa experiência cotidiana e a encará-las como fato, a maioria de nos não se pergunta mais por que as coisas são do jeito que são, deixamos de perguntar por que achamos que não temos tempo para isso ou porque chegamos à conclusão de que não é produtivo nem lucrativo dedicar-se e refletir sobre as coisas. Assim, deixamos de questionar e de buscar os significados das experiências tornando-nos exemplo da aceitação passiva. Devemos retomar a atitude de admirar e questionar para buscar novos significados, preservar o senso natural de deslumbramento existente nas crianças que a todo instante se depara com acontecimentos confusos e enigmáticos. Pressupor a existência do mundo exterior como base das nossas percepções constitui a primeira atitude filosófica, atitude de espanto. Espantar-se diante das coisas que significa experimentar uma descontinuidade entre elas e o foco de nossas percepções. Todos nós somos filósofos, uma vez que pensamos, indagamos, criticamos, tentamos respostas e soluções e esbarramos em dúvidas e incertezas, buscando a sabedoria e a verdade. Por sua natureza intrínseca, induzido e conduzido por razões imanentes, como a dúvida, a incerteza e o desespero, o homem não consegue eximir-se de atitudes filosóficas, ou seja, interroga-se sobre si mesmo e sobre o sentido de sua existência. Incentivar os alunos a pensarem filosoficamente não é uma tarefa fácil para os professores desempenharem. Pressupõem-se que a aprendizagem ocorra principalmente através da interação entre os alunos e seu ambiente, e que o ambiente é formado pela sala de aula, outros alunos pais a comunidade e o professor. No entanto é o professor quem, ao menos na sala de aula, pode “manipular” o ambiente a possibilidade de que a consciência filosófica do aluno cresça continuamente. O professor pode fazer surgir os temas, pode relacionar os temas com as experiências da classe, como a filosofia pode ser relevante para a vida imediata de alguém. A filosofia é vazia se reduzida a uma memorização de “quem disse o que e quando” ou “como se compara um ponto de vista filosófico com outro”, como fins em si mesmos. Somente adquire significado quando os alunos começarem a manifestar a capacidade de pensar por si mesmas e a descobrir suas próprias respostas a respeito dos assuntos importantes da sua vida. Os estudantes envolvidos em uma discussão filosófica devem sentir-se livres para defender qualquer posição que desejem a respeito de valores, sem que o professor tenha que esta de acordo com cada um dos pontos. Só quando os alunos tiverem se desenvolvido ao ponto de serem capazes de lidar objetivamente com as opiniões do professor sem serem coagidos por elas, o professor poderá contribuir com suas próprias opiniões, se os estudantes quiserem saber quais são. Ajudar o aluno a crescer significa criar desafios adequados a cada estágio. Para levar o estudante a ter prazer com as aulas de filosofia à resposta parece clara é de aguçar a curiosidade natural do jovem de sua tendência natural à globalidade, de sua inclinação de continuar perguntando até estarem satisfeitos, independentemente de sua investigação estar ou não nos limites de uma disciplina. O professor deve reforçar a motivação e o interesse para que a compreensão seja unificada e completa. A abordagem da filosofia em sala de aula deve envolver a idéia de que as perguntas e os questionamentos dos alunos são importantes. Perguntar sobre juventude, meio ambiente, como começou o mundo? o que acontece com as pessoas quando elas morrem? Significa levantar temas de importância metafísica, portanto a filosofia faz parte da vida cotidiana das pessoas que procuram formular conceitos que efevetivamente representam aspectos das suas experiências pessoais. Os alunos respeitarão o professor que leva a sério as suas perguntas, mesmo que isso signifique apenas responder a uma pergunta com outra pergunta.
João Filho é graduado em história com especialização em metodologias do ens. de filosofia pela faculdade Gama Filho.
Bibliografia: Cunha, José Auri: Iniciação à investigação filosófica- São Paulo: Atual, 1992 Matthew Lipman, Ann Margaret Sharp, Frederick S. Oscanyan: tradução Ana Luiza F. Falcone. A filosofia em sala de aula. Chaui, Marilena: Filosofia/ série novo ensino médio Saõ Paulo: Ed. Atica, 2001
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“Greve, greve, greve!”. O coro tomou conta da Praça do Patriarca, no Centro da capital paulista, na tarde desta quarta-feira, 4, interrompen...