29 de abr de 2011

Requião não pode ficar mais uma vez impune!

No dia 25 de abril, o senador paranaense Roberto Requião (PMDB), protagonizou mais um episódio que revela o tipo de moral e de conduta política degradante que marcaram sua trajetória. Ao ser perguntado pelo repórter da rádio Bandeirantes, Victor Boyadjian, se abriria mão da pensão que recebe enquanto ex-governador, de R$ 24,1 mil reais, o senador roubou o gravador do jornalista e fez ameaças de agressão física contra ele. Esta atitude é reprovável e inaceitável. Não é a primeira vez que Roberto Requião se envolve neste tipo de episódio. Em 2004, agrediu o repórter do Jornal de Londrina e também lhe “arrancou” o gravador das mãos. Em outras ocasiões, ameaçou publicamente demitir trabalhadores que lutavam por melhores condições de vida, em 2009, a época governador, declarou na imprensa "Isso não é uma ameaça é um fato. Se houver greve, mando todos embora e abro rapidamente um concurso. Garanto que tem muitas pessoas querendo trabalhar". Desta vez, para tentar justificar sua conduta, o senador argumenta que há mais de 40 anos os ex-governadores do Paraná recebem esta pensão. “Estou usando essa pensão para pagar as multas que me foram injustamente impostas”, justificou. Apesar da demagogia e da “cara” popular, os dois últimos mandatos de Requião à frente do governo do Estado do Paraná favoreceram setores da burguesia que sempre financiaram suas campanhas. A reforma agrária não avançou, a maioria das promessas de melhorar as condições de trabalho dos servidores públicos não foram cumpridas, a condição dos serviços públicos (principalmente da saúde) não avançaram de acordo com as necessidades dos trabalhadores, o pedágio nas estradas não acabou e a criminalização da lutas do campo continuou. A aliança do PT com o PMDB garantiu ao primeiro partido diversos cargos no governo, em troca, a direção petista ofereceu o controle dos trabalhadores através dos sindicatos e da CUT do Paraná. Punição imediata Defendemos uma punição exemplar ao senador Roberto Requião. Este homem é um político de carreira, um burocrata do Estado, que sempre viveu e desfrutou dos privilégios do Estado. Foi deputado estadual, prefeito de Curitiba, governador por três mandatos e está no seu segundo mandato de senador federal. Requião não sabe o que é viver sem estar numa condição de poder, e se aproveita de sua condição privilegiada na sociedade, de burocrata do Estado, para oprimir trabalhadores e jornalistas. Chega de privilégios! Os trabalhadores, os cidadãos “comuns” são julgados por seus atos todos os dias, com os parlamentares e governantes não pode ser diferente. Não podemos aceitar uma atitude como esta de um parlamentar. A carreira política de Requião é a demonstração clara de como funciona o sistema eleitoral brasileiro, onde os partidos e candidatos burgueses, financiados pelos setores empresariais, investem milhões nas campanhas eleitorais para garantir a eleição de parlamentares e governantes. Quando eleitos, governam a favor da burguesia e contra os trabalhadores. Não temos nenhuma confiança nos parlamentares dos partidos burgueses, que são a ampla maioria e controlam o Congresso Nacional, não acreditamos na comissão de Ética do Senado composta por estes “senhores”, e tão pouco, no Presidente do Senado, José Sarney, que é do mesmo partido de Requião. Por isso propomos a mais ampla unidade das organizações dos trabalhadores pela cassação do mandato de Requião, a começar pelos sindicatos dos jornalistas de todo país. A impunidade contra este senador neste momento significa um ataque à liberdade de imprensa, visto que o jornalista agredido moralmente estava no exercício de sua profissão. Este não é um episódio isolado, Requião é apenas uma expressão de algo que vem se generalizando, a criminalização aos movimentos sociais tem aumentado assustadoramente no país e no mundo (como assistimos na Líbia), e tem sua expressão mais clara no caso dos treze ativistas presos e criminalizados por protestar contra o presidente norte americano Barack Obama no Rio de Janeiro. Abaixo as aposentadorias imorais aos ex-governadores A Constituição brasileira garante o “direito” à aposentadoria especial a ex-governadores. No Paraná, os ex-governadores e também as viúvas de ex-governadores, recebem um benefício de aposentadoria equivalente a R$ 24,1 mil reais por mês. Até mesmo o ex-governador Orlando Pessutti, também do PMDB, que ocupou o cargo por apenas nove meses em 2010, passou a receber o benefício especial em 2011. Estes “direitos especiais”, garantidos aos ex-governadores, revelam a natureza do Estado burguês, que garante diversos privilégios aos políticos de carreira que prestaram “bons serviços” à burguesia. Os inúmeros privilégios garantidos aos políticos e burocratas do Estado, são a garantia de uma condição social a estes senhores que nada tem haver com a vida do povo trabalhador. A verdade é que os “representantes do povo” não vivem como o povo trabalhador, e sim mais próximo do modo de vida dos ricos. Além dos privilégios, o Estado burguês é uma “fonte” inesgotável de corrupção e imoralidade. A prova categórica desta afirmação foram os aumentos salariais absurdos e imorais que os parlamentares votaram a favor deles próprios. No início deste ano, votaram aumentos de 62% para deputados e senadores, de 134% para presidente e 148% para os ministros de Estado. Os parlamentares aumentaram seus salários e o da presidente Dilma para R$ 27 mil reais, enquanto para os trabalhadores votaram um aumento pífio de apenas 6% no salário mínimo. Somos contra todos estes privilégios, que são parte da base material de toda a corrupção e imoralidade presentes no Estado burguês. Por isso defendemos o financiamento público de campanhas com igualdade para todos os partidos, direitos iguais na propaganda eleitoral e na imprensa, mandatos revogáveis a qualquer momento por iniciativa popular e salários dos parlamentares e dos membros de todas as esferas do poder público igual ao salário de um trabalhador qualificado. Abaixo as aposentadorias imorais aos ex-governadores! Defendemos a suspensão imediata das aposentadorias concedidas aos ex-governadores e as viúvas de ex-governadores de todo país, a começar pelo Paraná. Não podemos confiar nos deputados da Assembléia Legislativa do Paraná, que no dia 18 de abril, rejeitaram após votação em plenário, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que propunha acabar com a aposentadoria vitalícia na Constituição do Paraná. Todas as organizações que representam os trabalhadores precisam se unir e manifestar repúdio a concessão destas aposentadorias.

22 de abr de 2011

A morte de um canalha e a sobrevida do Apartheid

No sábado, 10 de abril, foi enterrado Eugene Terre’Blanche, o líder do grupo racista sul-africano “Movimento da Resistência Africânder” (AWB, na sigla original), morto a pauladas por dois jovens negros, no dia 4 passado A notícia ganhou o mundo, principalmente sob a ótica do impacto que o episódio pode ter sob o país que receberá a Copa do Mundo daqui alguns meses. Contudo, há umas tantas outras perspectivas sob a quais podemos ver a por nós festejada morte do racista. Terre’Blanche liderou o AWB desde sua fundação. Africânder é o termo pelo qual são conhecidos o povo e a língua dos descendentes de holandeses que construíram o monstruoso sistema do Apartheid (que quer dizer “separado”) e, através dele, manteve o poder durante a segunda metade do século 20. Terre’Blanche era um africânder bôer, ou seja, um fazendeiro, o núcleo duro e mais conservador do sistema racista. Aliás, antes de falarmos sobre o impacto e as possíveis consequências do assassinato na atual situação sociopolítica da África do Sul, cabe fazer um parêntese sobre Terre’Blanche, figura nefasta, cujo papel na História parece ter sido esculpido em seu próprio nome. Nascido em 1941, o sujeito recebeu um nome realmente curioso. Eugene de alguma forma nos remete a “eugenia”, a pseudociência que, em meados do século 19, serviu como uma das principais bases para o racismo e o imperialismo. Nomeada atrás de termos gregos – “eu” (bem) e “genno” (fazer nascer) – a teoria defendia que as pessoas bem nascidas, ou seja, com os melhores genes e dotados de características superiores, seriam os brancos, de olhos claros, de fisionomia europeia e, evidentemente, membros da elite socioeconômica do período. Uma suposta predestinação que lhes dava o direito sagrado de dominar o resto: todos aqueles marcados pela herança macabra da pele escura, cabelo ruim ou o infortúnio insuperável de ter nascido abaixo da linha do Equador ou em algum ponto da Ásia ou do Oriente. Este era apenas o primeiro nome do sujeito que criou o AWB, em 1973, pregando o separatismo e a supremacia racial, como forma de criar uma pátria de brancos. Uma ideia expressa no seu sobrenome, Terre’Blanche, “terra branca” em francês. Barulhento e sanguinariamente violento, apesar de reduzido em membros, o AWB foi fundando nos fundos de uma garagem e ficou conhecido pelos seus efetivos paramilitares, eficientemente treinados e bem armados, que atuaram como “rambos dos Apartheid” em alguns dos piores e mais repressivos períodos do regime racista. Coerente com seu sobrenome, Terre’Blanche e seu grupo foram contrários às negociações (favoráveis aos brancos, é bom lembrar) que puseram fim à legislação racista do Apartheid e abriram caminho para a chegada ao poder, em 1990, do Congresso Nacional Africano (CNA), liderado por Nelson Mandela, mantendo, até hoje, suas ações racistas e ataques assassinos. Uma morte tardia Dizer que um sujeito como este já foi tarde é pouco. Num mundo minimamente justo, sua asquerosa figura já teria sido varrida para o lixo da História há décadas. Se a História também não fosse marcada por retrocessos e traições, ele não teria sobrevivido à justiça revolucionária. Uma possibilidade impedida pela solução negociada da Frente Popular. Uma história que nós brasileiros conhecemos através do governo Lula. Mas que, no caso da África do Sul foi uma punhalada mais profunda no que se refere ao papel dos movimentos sociais. Enquanto no Brasil, Lula aliou-se à elite dominante para barrar e prevenir qualquer possibilidade de crise com possibilidades revolucionárias, na África do Sul a solução frente-populista foi empregada para brecar uma crise que já estava em pleno curso e a todo vapor. Mas, enfim, como a História é o que temos diante de nós, o líder do AWB acabou sua malfadada passagem pela vida no dia 4 de abril, morto a pauladas por dois de seus jovens empregados, um de 16 e outro de 21 anos. Também fiéis ao seu papel na atual situação, a imprensa mundial tem dado mais destaque, em primeiro lugar, às possíveis consequências que o episódio terá na África do Sul que, a trancos e barrancos, está se aproximando do gigantesco desafio de hospedar a Copa Mundial de Futebol. É verdade que há motivos para preocupação. Afinal, é um fato que há uma enorme expectativa em torno do evento. Inclusive, e principalmente, inclusive, por parte da maioria do sofrido povo sul-africano, os negros, que assim como grande parte dos brasileiros, é apaixonada pelo esporte. Mas também não se pode esquecer que qualquer tensão racial pode reabrir feridas muito mal remendadas e que se expressam inclusive no esporte, já que, na época do Apartheid, o futebol (a aversão dos brancos aos esporte) era um dos símbolos e expressões da segregação racial. Além disso, jornais e sites ao redor do mundo têm destacado a brutalidade do assassinato a pauladas e, principalmente (fazendo eco às insistentes declarações do presidente Zuma e demais membros do CNA e aliados), têm ressaltado que a ação desesperada dos jovens trabalhadores foi motivada puramente por uma questão trabalhista: os garotos estavam revoltados pelo fato de Terra’Blanche lhes ter recusado o pagamento do salário mensal, que é importante lembrar, era, na moeda local, de 300 rands, o equivalente a míseros R$ 72. São poucos os que procuram escavar as relações entre o episódio e as tensões e contradições criadas pela própria Frente Popular e pelos sucessivos (e cada vez mais neoliberais) governos do CNA. E muitos menos são os que trazem para o centro de suas análises a lembrança de que a “vítima” tinha suas mãos mergulhadas no sangue de sabe-se quantos negros; homens e mulheres; jovens, idosos e crianças, tendo estado pessoalmente à frente de torturas, assassinatos e uns tantos atos criminosos, motivados pelo seu racismo. Feridas abertas do Apartheid Mas queira ou não os porta-vozes do sistema, as marcas deixadas no corpo de Terra’Blanche inegavelmente são bem menores e muito menos numerosas do que as feridas que ele e sua gentalha imprimiram ao povo negro sul-africano no decorrer de décadas. Como também jamais poderiam se aproximar da profundidade das feridas deixadas abertas pela solução negociada capitaneada por Mandela e seus seguidores. Foram exatamente as dores provocadas por estas feridas que motivaram os jovens que puseram um fim a Terra’Blanche. Suas marcas estão em todos os cantos. A sobrevida do falecido líder do AWB é apenas um exemplo da manutenção de práticas e situações que existiam no Apartheid. Ao negociar o fim da legislação racista do Apartheid sem mexer na estrutura capitalista do Estado, o CNA permitiu a continuidade da exploração que motivava as leis que mantinham os negros em condições subumanas de vida. Ao mergulhar no neoliberalismo, os sucessivos governos sul-africanos aprofundaram esta situação, atacando, assim como no Brasil, os direitos trabalhistas, alimentando o desemprego e sucateando os serviços públicos. O pior, e talvez ainda mais desesperador para jovens como os dois que confrontaram Terra’Blanche, é o fato de que, ao lado desta situação, da contínua atuação de grupos como o AWB e da visível tranquilidade com a qual a elite branca manteve e ampliou seus negócios e lucros, os negros e lutadores brancos sul-africanos têm visto a ascensão de uma elite negra vinculada ao próprio CNA, os parceiros-beneficiários do capitalismo local. Uma situação, inclusive, saudada por jornalistas mundo afora. Este é o caso de John Carlin, em um artigo publicado em O Estado de S. Paulo, em 11 de abril. Antes, contudo, cabe ter em mente que Carlin é autor do livro Conquistando inimigos, no qual foi inspirado o roteiro de Invictus, o filme em que Morgan Freeman vive o papel de um Mandela que leva para o campo do rúgbi o processo de negociação nos primeiros anos de seu governo. Defensor da tese de que a morte de Terra’Blanche terá pouco impacto sobre a situação sul-africana, Carlin defende que isto se deve ao fato de que o país é uma das democracias mais fortes do mundo, uma fortaleza conquistada porque o país “tem feito as coisas tão bem quanto se esperava dela”, existindo, hoje, inclusive, “até uma elite negra formada por pessoas que foram proeminentes na luta contra o apartheid e hoje levam uma vida luxuosa”, por exemplo, “como acionistas ou proprietários de grandes empresas de software”. Apesar do entusiasmo com o qual Carlin comenta tudo isto, ele mesmo não pode esconder que todo este luxo é acessível a poucos, pouquíssimos, já que “a maioria dos negros está na mesma situação de antes, só que agora eles possuem uma commodity (mercadoria) à qual é difícil atribuir um valor: a dignidade”. Para o azar e desespero dos sul-africanos, contudo, somente gente com perspectiva ideológica de Carlin pode ver alguma dignidade no fato de viver (depois de décadas de luta, dores e sacrifícios que envolveram milhões) com salários de R$ 72, em miseráveis casebres, sem acesso ao mínimo que um destes novos membros da elite, ombro-a-ombro com os velhos opressores, gasta em um de seus luxuosos jantares. Os próximos lances A proximidade da Copa pode, certamente, forçar uma minimização da tensão criada pela morte do velho canalha e para sempre fascista. O governo está apostando todas as suas fichas nisso, como também a imprensa mundial e todo o gigantesco negócio que gira em torno do campeonato. Cabe lembrar que o governo sul-africano já investiu algo em torno de US$ 6 bilhões. E grana é prioridade para todos eles. Contudo, no momento, a tensão está fortemente no ar, principalmente no vilarejo de Vendersdorp, na região da capital Johanesburgo, onde os jovens estão presos. E, dentro do próprio CNA, pelo menos uma voz dissonante tem preocupado os planos do governo, a de Julius Malema, que com 29 anos dirige a Liga da Juventude do CNA. Tudo indica que a dissonância é apenas no tom, já que Malema não parece discordar da política geral de seu partido, contudo ele virou alvo de críticas vindas de todos os lados ao incentivar que seus apoiadores e manifestantes que pedem a libertação dos jovens entoem um hino da época do Apartheid, singelamente intitulado “Kill the bôer” (matem os fazendeiros). Se Julius vai se manter à frente das manifestações de solidariedade aos jovens e aprofundar uma diferença com o CNA é algo que só a História pode contar. O fato é que, no momento, ele tem atrás de si uma massa significada que entoa a música com o mesmo entusiasmo que grita “heróis, heróis”, país afora, toda vez que os jovens de Vendersdorp são citados. A canção tem enfurecido muita gente, a começar pelos líderes do AWB que oferecerem nada menos do que US$ 280 mil pela cabeça de Julius. Quando não provocado comentários estapafúrdios (mas completamente sintonizados com o espírito frente-populista) como o do já mencionado John Carlin, que no seu artigo sugere que as massas continuem gritando, mas não mais “kill the bôer”, mas sim “Kiss the bôer” (beije o fazendeiro). Bobagem ofensiva que dispensa comentários. No entanto, numa demonstração de que é apenas uma das alas mais raivosas daqueles que, apesar de não se verem representados na Frente Popular, não querem prejudicar o andamento dos negócios, o AWB também já declarou que não irá provocar qualquer distúrbio que possa impedir a realização da Copa. Com trégua ou não, passada a Copa, a dolorosa realidade continuará batendo à porta de milhões de negros e negras todos os dias. E novamente estará colocado nas mãos deles uma tarefa muito mais difícil do que aquela empreendida pelos jovens que abateram Terra’Blanche: reconstruir uma alternativa de organização e luta dos milhões que ainda sofrem com a opressão racial e a exploração capitalista na África do Sul. Uma alternativa que não só terá que superar o CNA e seus aliados, mas também apontar para uma perspectiva socialista, a única forma possível para que algum dia se curem completamente as feridas do racismo, deixadas pela apartheid. Textos de Wilson H. Silva

A Rede Social: Metáfora de tempos impessoais

Em cartaz no Brasil, o novo filme do cineasta David Fincher (Seven; Clube da Luta) traz a história por trás da criação do site facebook, fenômeno de popularidade na internet com mais de 500 milhões de usuários cadastrados em todo o mundo. Desde a sua popularização mais intensa, a partir de meados dos anos 1990, a internet tem sido terreno fértil para muitas inovações tecnológicas, tendo gerado, inclusive, uma bolha de crescimento que abalou a economia ao esturar, em 2001. O mercado das empresas “.com” nunca mais foi o mesmo e muitas empresas não voltaram ainda ao patamar anterior, mesmo com o significativo crescimento da economia geral desde então. Contudo, algumas histórias de sucesso aconteceram da crise de 2001 para cá, e uma das mais impressionantes delas é o facebook. Criado a partir de um mural de fotos dos alunos da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o facebook encontrou amplo espaço para se expandir na onda das redes sociais. Pessoas de todos os lugares do mundo podem aparecer online, encontrar amigos e participar de grupos, mesmo quando as condições sociais são ruins, como um trecho do filme chega a dizer, ironicamente, sobre a Bósnia: “Eles não tem nem estradas lá, mas tem facebook”. O filme mostra com muita competência o ambiente por trás do surgimento do site, a começar do “nerd” criador Mark Zuckerberg (interpretado por Jesse Eisenberg). Típico jovem desajustado com pessoas, mas à vontade com o computador, Zuckeberg inicia sua escalada ao ser deixado pela sensata namorada, que o vê como ele de fato é, uma criança grande. Infelizmente, praticamente todos ao seu redor são assim ou pior, como é o caso dos irmãos Winklevoss, com o sério agravante de serem, eles dois, pretensiosos filhos de milionários. A educação privada nos EUA, imensa maioria do sistema, se por um lado mantem o padrão de excelência de uma Harvard ou de um MIT, por outro sustenta essa aberrração elitista dos trotes, das brincadeiras xenófobas, dos clubes reservados e das redomas de poder que aparecem, pontualmente, ao longo do filme. Os litígios da trama, então, tomam corpo quando os irmãos Winklevoos acusam Zuckerberg de roubar sua ideia a partir de um trabalho que eles deveriam desenvolver em conjunto, um site a princípio somente para os alunos de Harvard, enquanto o facebook segue sendo considerado a “nova onda” e se expande por várias outras universidades, a ponto de atrair Sean Parker (Justin Timberlake), criador de outro site importante, o Napster, que sacudiu a indústria fonográfica ao abrir as portas para o download gratuito de músicas pela internet. A influência de Parker, com sua afetação esnobe e sua ausência de moralidade, leva Zuckerberg a se distanciar de seu único amigo e cofundador do facebook, Eduardo Saverin (Andrew Garfield). A competente direção de Fincher consegue tornar interessante algo que, de outra forma, poderia ser classificado como terrível, principalmente quando se percebe o quão impessoal, frio e distante tudo nessa história nos reflete. Um site de relacionamento criado por um rapaz em busca da atenção da sua namorada, sem sucesso algum, que deriva para disputas judiciais complexas, envoltas em manobras e pontilhada por uma atmosfera de isolamento. Triste, mas verdadeiro. TEXTO:Rodrigo Baldin

As revoluções árabes e a situação da mulher no Brasil

Cecília Toledo, autora do livro "Mulheres: o Gênero nos une, e a classe nos divide", participou de um debate na Inglaterra sobre o 8 de março. Leia abaixo o artigo que a pesquisadora escreveu para a discussão. Cecília Toledo da revista Marxismo Vivo Outros textos deste(a) autor(a) • Hoje, a revolução árabe mostra ao mundo a situação terrível deixada pelo imperialismo nos países que explora e oprime. Mostra ainda a força do povo e sua disposição para lutar por melhores condições de vida, por uma vida melhor para si e para sua família. Mostra também que a opressão secular que pesa sobre as mulheres trabalhadoras e pobres não as aplasta, não tem o poder de calar as mulheres, de fazê-las seres totalmente submissos e dominados, como são os planos do imperialismo. A revolta permanece interna nas mulheres, sob os veus, enquanto não explode uma situação propícia para que salte para fora. No mundo árabe hoje a situação revolucionária está mudando as mulheres, porque as estão possibilitando ver o mundo com outros olhos, ver que não são seres sem vontade, sem paixão, sem raiva. Que não são seres incapazes de lutar por seus direitos com tanta força quanto um homem. E que podem ter nos homens pobres e trabalhadores grandes aliados e companheiros de lutas e armas. São lições importantes para as mulheres de todo o mundo colonial e semicolonial, aonde a vida do povo trabalhador, em especial das mulheres, fica cada dia pior. A fome, a violência e a violação dos direitos humanos, estão destruindo vilas inteiras e tornando a opressão das mulheres algo já insuportável. Números que assustam Na América Latina hoje 800 milhões de pessoas vão dormir com fome todos os dias e a cada hora morrem 1.200 crianças por desnutrição e enfermidades infecciosas. No Brasil, que se orgulha de dizer que é a oitava economia do mundo, o Ministério da Saúde estima que ocorram 1 milhão de abortos clandestinos todos os anos. E cerca de 200 mil mulheres por ano são internadas nos hospitais devido a complições por abortos de risco. Outro problema grave para as mulheres é a violência doméstica, que já se transformou no principal problema das mulheres latino-americanas. 25% delas sofreram já algum tipo de violência em casa. No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher é agredida em sua própria casa. 70% das agressões ocorrem dentro de casa e o agressor é o próprio marido ou companheiro. Mais de 40% das agressões resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramento, queimaduras, espancamento e estrangulamentos. Isso faz com que um de cada 5 dias de trabalho perdido pelas mulheres seja devido a algum problema de saúde causado pela violência. Relatório da Unicef mostra que há uma relação direta entre situação econômica da mulher e a violência. As que ganham menos, sofrem mais. As que não tem renda própria são as maiores vítimas. Garantem a comida e a riqueza Apear de tudo, as mulheres são hoje a metade da força de trabalho em toda a América Latina, no campo e na cidade. Grande parte da riqueza que a burguesia e a imperialismo tomam do país e enchem seus cofrem saem dos braços das mulheres. Elas ocupam os piores postos, com a metade do salário do homem, trabalhos desqualificados, insalubres, que prejudicam sua saúde. Quando conseguem emprego, recebem salários inferiores aos dos homens, porque seu salário continua sendo visto como complementar ao do homem. Ocupam os trabalhos mais duros, repetitivos, que não exigem formação. São os trabalhos precários, instáveis, de tempo parcial. Mas ainda assim, elas são responsáveis por 60% do trabalho que sustenta as famílias, colhem de 60% a 80% do alimento no campo e são provedoras quase exclusivas da assistência às crianças, aos doentes e idosos. Sofrem o assédio sexual e moral e são tratadas pelos meios de comunicação como um produto sexual a ser vendido no mercado. Banalizam o sexo, reafirmando o papel subalterno da mulher na sociedade. Tudo isso se duplica quando a mulher é negra ou imigrante. É claro o problema de classe na opressão e superexploração das mulheres, porque as mulheres burguesas não sofrem a exploração e podem mais facilmente superar os elementos de opressão graças a sua condição econômica. Isso cria um abismo entre as mulheres trabalhadoras e pobres por um lado, e as mulheres das classes privilegiadas, por outro, e faz com que a luta pela emancipação seja um terreno da classe trabalhadora. O papel do PT e Lula Nos anos 70 e 80 as mulheres trabalhadoras no campo e na cidade lutaram muito para melhorar sua condição de vida. Tiveram grandes conquistas, como os direitos trabalhistas, licença-maternidade e melhores salários, bem como o direito a se organizar em sindicatos e associações. Com suas lutas, elas participaram ativamente da construção do PT e da CUT, contra a ditadura militar, e por liberdades democráticas. Pois nem bem o PT chegou ao governo começou a trair as lutas da classe trabalhadora e as mulheres foram perdendo suas conquistas. Hoje os berçários, algo muito importante para as mulheres que trabalham, já não são obrigatórios nas empresas. A patronal põe se quiser, e como é um custo a mais para ela, não o faz, e o governo não fiscaliza. A maioria da classe trabalhadora vive em favelas ou bairros muito pobres, com casas precárias, sem rede de esgoto ou água encanada. Isso para as mulheres é um peso a mais nas tarefas domésticas. Há um processo escondido de privatização, que distancia os trabalhadores da educação. Ao mesmo tempo, o desemprego e a redução das oportunidades no mercado de trabalho exigem melhor qualificação do trabalhador. O goveno do PT, que conta com grande apoio pelas ilusões da classe trabalhadora em Lula e agora em Dilma, faz políticas compensatórias, e não medidas estruturais, que implicariam em expropriar as grandes fortunas, atacar o capital financeiro e tirar a terra dos grandes latifundiários para que a gente possa trabalhar, produzir e ter uma vida melhor. Porgrama como o Bolsa Família e o Fome Zero nada mais são que milhagas. O melhor exemplo de que não resolvem o problema com elas mesmos: famílias trabalhadoras inteiras são forçadas a viver com R$ 100 ao mês, porque não têm trabalho ou porque fazem trabalhos precários. É a perpetuação da fome. O aumento do número de bolsa-família” não depõe a favor do governo, mas o contrário, porque significa que é um governo que não proporciona trabalho digno para o povo. O poder do PT e de Lula, em quem a classe ainda confia, foi o de frear as lutas e criar a ilusão de que tudo se revolve no parlamento burguês, se um trabalhador ocupa a cadeira presidencial. A maioria dos sindicatos e da CUT, antes muito forte, agora são como coelhos a serviço do governo. Perderam sua combatividade e mudaram seus métodos de luta: antes, as greves e ocupações de fábricas; hoje, as negociações e os banquetes com os políticos burgueses. As direções sindicais se burocratizaram, apropriaram-se do poder nos sindicatos e se tornaram capangas que perseguem e ameaçam os ativistas de oposição. Por onde passa a luta Mas a situação piora a cada dia e a classe já não aguenta mais. Os políticos vivem em mansões enquanto se vê pela TV as casas dos bairros pobres se desmoronando pelas chuvas. Os deputados no parlmento e a própria presidenta Dilma aumentam seus próprios salários enquanto milhões de famílias morrem de fome ou fazem malabarismo para vivem com o Bolsa-Família. Ainda que pequena, uma nova geração de ativistas surge no Brasil, disposta a enfrentar essa situação. Foi com base nela que se construiu a Conlutas em 2000, que hoje é já uma alternativa de luta frente ao oficialismo da CUT. Hoje a Conlutas reúne um grande número de sindicatos muito combativos e também grupos de oposição que vem imprimindo uma vida nova e sangue novo ao movimento sindical no Brasil. A Conlutas já nasce com um setor de mulheres muito forte, o Movimento Mulheres em Luta, que reúne trabalhadoras e jovens estudantes com um programa de reivindicações para as mulheres e a reotmada dos métodos de lutas tradicionais da classe operária, com as marchas, as petições à patronal, o enfrentamento ao governo. Começam a surgir comissões de mulheres nos sindicatos para discutir as reivindicações próprias das mulheres que devem integrar o programa comum da classe operária. Hoje lutas para retomar as velhas conquistas perddidas, como os berçários em todas as fábricas e empresas. Lutamos pela licença-maternidade de seis meses; lutamos pela legalização do aborto, para que a mulher trabalhadora e pobre possa recorrer a um hospital público se decide ou necessite abortar. Lutamos por igualdade salarial com os homens e pelo pleno emprego. Lutamos pela terra para quem nela trabalha e lutamos pela escola pública de boa qualidade para nossos filhos. O mais importante é que as mulheres, pouco a pouco, voltam a se dar conta que seu problema é um problema de classe, de que seu inimigo é o capitalismo imperialista; é a burguesia, que é formada por homens e por mulheres. E que portanto devemos lutar junto a nossa classe, a classe trabalhadora, pondo nossa opressão a serviço dessa luta, que é permanente, como mostra a revolução árabe. Muito já nos contentamos com conquistas democráticas ou simples promessas de governos burgueses que se esfumaçam no ar nem bem se aproxima outra crise econômica, que põe seus lucros em perigo. Há que seguir até a conquista do poder pela classe trabalhadora, já que a história de nossas lutas, uma após outra, mostra que precisamos de uma direção que nos envolva em uma revolução permanente até a expropriação do grande capital e a expulsão do ocupante de turno que nos saqueia, para assim poder traçar a via de nossa emancipação completa, algo que só é possível se toda a classe operária se emancipa do jugo imperialista. Não há emancipação completa e verdadeira das mulheres sem que todos os trabalhadores tenham uma vida digna e feliz. O impulso da revolução árabe, com milhares de mulheres nas ruas, sem medo e sem vergonha, hoje nos contagia de certeza na força das mulheres na revolução e por isso nós, mulheres oprimidas e exploradas de toda a América Latina lhes damos nosso apoio e saudação à luta pelo socialismo.

O “bom burguês” José Alencar recusou-se a assumir paternidade de filha

Além de ter sido o maior empresário da indústria têxtil do mundo, o grande burguês José Alencar foi protagonista de um corriqueiro – nada original, porém peculiar – golpe machista-burguês pouquíssimo divulgado pela imprensa. Ele sofria um processo por negação e impedimento judicial de investigação e reconhecimento de paternidade. A informação é do Yahoo! Notícias, na matéria “Suposta filha recebe notícia da morte ‘com tristeza’” Alencar morreu deixando um suspeitíssimo processo de investigação de paternidade que ocorre em segredo de justiça desde 2001. José Alencar entrou com recurso e foi atendido depois de a justiça ter reconhecido que a professora aposentada Rosemary, 56 anos, era sua filha e poderia usar o seu nome. Alencar se negou a fazer o exame de DNA. Inúmeros são os casos protagonizados pela corja de burgueses que se aproveitam sexualmente de mulheres, sobretudo das de nossa classe, sem assumir os eventuais filhos e filhas destas relações. Pesquisando, descobri que José Alencar com cinismo, escárnio e completo machismo zombou do fato no programa do Jô (o que me embrulhou o estômago ao assistir) exibido em 3 de agosto de 2010: “Essa senhora que fala que é mãe de uma minha filha nunca que poderia ter posto o pé naquele clube, aquilo era uma coisa... era uma religião. (...) Não há uma pessoa que tenha me visto com essa mulher. (...) “Como os próprios tribunais dizem, tem de haver indícios. Senão, amanhã, todo mundo que foi à zona um dia pode ser [submetido a exame de DNA]. (...)“São milhões de casos de pessoas que foram à zona. Só que, provavelmente, a maioria desses casos não tenham sido objeto de interesse claro, político e econômico. Agora, só pelo fato de ter sido [vice-presidente da República], eu vou me submeter a um exame de DNA, que também não é 100%?” Estas são algumas das declarações de Alencar, entre calúnias dirigidas à mulher, mãe de Rosemary, que trabalhava como enfermeira e, em 1953, morava numa rua onde havia casas de prostituição, em Caratinga (MG). Segundo Alencar, sua esposa foi sua única namorada, mas ele classifica como namoradinhas algumas moças com quem dançava em bailes durante a juventude. E nega que uma ‘moça pobre’, como a mãe da professora, pudesse ter ido a um desses bailes. Alencar nutriu-se, durante toda a vida de burguês, do trabalho, das energias, do suor e do sangue dos milhões de mulheres operárias que explorou na Coteminas, em Minas Gerais, no Brasil e no mundo. Ao menor indício de resistência, seu governo e do presidente Lula, colocou o exército brasileiro para dirigir a ocupação militar do Haiti e garantir a instalação das suas indústrias (e dos seus amigos, principalmente empresários norte-americanos) neste país. Uma produção com altíssimos lucros, que paga menos de dois dólares por dia à cada operária que trabalha cerca de 12 horas diárias, sob a mira das baionetas e dos abusos dos soldados da Minustah, além das péssimas condições de trabalho. Portanto, esta é uma pequena parte da verdadeira história do grande, covarde e machista capitalista José Alencar. A verdadeira luta de José Alencar, em vida, não foi contra o câncer. Foi contra a nossa classe. Seu império segue nos explorando, seu império segue nos oprimindo. É contra o império de capitalistas canalhas, exploradores, opressores e covardes como ele, que seguimos dedicando a nossa vida de luta pela Revolução Socialista.

15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Lembremos os nossos mortos

Jeronimo Castro* • Na tarde do dia 17 de abril de 1996, em um trecho da rodovia PA-150 conhecido como curva do S, 19 sem-terra foram mortos e outros 60 saíram feridos em um dos massacres mais impressionantes do Brasil “democrático”. O grupo que marchava havia feito uma ocupação da fazenda Macaxeira e exigia sua desapropriação para reforma agrária. Era o tempo das grandes ocupações de terra, do MST com um apoio popular imenso, da reforma agrária pautada em todas as discussões políticas. De uma tremenda polarização no campo, onde sem-terra e trabalhadores de um lado, e latifundiários e burguesia do outro, lutavam para disputar que forma de propriedade e desenvolvimento agrário deveria predominar. O efeito do massacre na população foi espantoso. Em todo o país houve atos. Em Belém do Pará, estado onde aconteceu o massacre, no dia do protesto, a Polícia Militar foi retirada das ruas para evitar que a população se enfrentasse com ela. E, raridade na história recente do país, a manifestação atacou um quartel sem sofrer nenhuma retaliação. Nos meses que se seguiram ao massacre, o prestígio do MST cresceu como nunca. Uma marcha convocada por eles levaria ao que seria a Marcha dos 100 mil. Quinze anos depois, nenhum dos envolvidos no massacre está preso, a reforma agrária continua por fazer e o agronegócio avançou justamente no governo do partido que supostamente era o maior aliado do MST, o PT. O governo Lula, como nenhum outro, apoio, financiou e defendeu o avanço do capitalismo no campo. Uma contrarreforma agrária, de caráter mercantil e reacionário, foi executada. Uma campanha midiática foi feita para satanizar o MST e toda a luta pela terra. O próprio MST mudou, ao acreditar que o governo Lula era seu governo, ocupou postos na estrutura federal e freou a luta direta pela terra. É verdade que nenhuma homenagem trará de volta os mortos, nem suprirá a ausência dos que tombaram naquele dia para seus companheiros, amigos e parentes. Os órfãos continuarão órfãos, as viúvas continuarão viúvas. Mas é necessário não deixar cair no esquecimento estes 19 mortos (1). Mais do que artigos e protestos, nós queremos homenageá-los com lutas. Manter viva não apenas na memória, mas nos nossos atos cotidianos, a bandeira que eles defendiam, e reivindicar como mais atual que nunca a luta por uma reforma agrária ampla, radical e sob controle dos trabalhadores. Nós mantemos viva a certeza cantada naqueles dias, de que “nosso lema é ocupar, resistir e produzir”, e de que só sairá reforma agrária com a aliança camponesa e operária. Esta é a homenagem que queremos fazer a esses mortos, estes são os nossos heróis e mártires. Nós reivindicamos plenamente suas lutas, nós as levaremos adiante.

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