27 de mar de 2010

MANIFESTO

Está em curso uma ofensiva conservadora no Brasil contra a reforma agrária, e contra qualquer movimento que combata a desigualdade e a concentração de terra e renda. E você não precisa concordar com tudo que o MST faz para compreender o que está em jogo. Uma campanha orquestrada foi iniciada por setores da chamada “grande imprensa brasileira” – associados a interesses de latifundiários, grileiros - e parcelas do Poder Judiciário. E chegou rapidamente ao Congresso Nacional, onde uma CPMI foi aberta com o objetivo de constranger aqueles que lutam pela reforma agrária. A imagem de um trator a derrubar laranjais no interior paulista, numa fazenda grilada, roubada da União, correu o país no fim do ano passado, numa ofensiva organizada. Agricultores miseráveis foram presos, humilhados. Seriam os responsáveis pelo "grave atentado". A polícia trabalhou rápido, produzindo um espetáculo que foi parar nas telas da TV e nas páginas dos jornais. O recado parece ser: quem defende reforma agrária é "bandido", é "marginal". Exemplo claro de “criminalização” dos movimentos sociais. Quem comanda essa campanha tem dois objetivos: impedir que o governo federal estabeleça novos parâmetros para a reforma agrária (depois de três décadas, o governo planeja rever os “índices de produtividade” que ajudam a determinar quando uma fazenda pode ser desapropriada); e “provar” que os que derrubaram pés de laranja são responsáveis pela “violência no campo”. Trata-se de grave distorção. Comparando, seria como se, na África do Sul do Apartheid, um manifestante negro atirasse uma pedra contra a vitrine de uma loja onde só brancos podiam entrar. A mídia sul-africana iniciaria então uma campanha para provar que a fonte de toda a violência não era o regime racista, mas o pobre manifestante que atirou a pedra. No Brasil, é nesse pé que estamos: a violência no campo não é resultado de injustiças históricas que fortaleceram o latifúndio, mas é causada por quem luta para reduzir essas injustiças. Não faz o menor sentido... A violência no campo tem um nome: latifúndio. Mas isso você dificilmente vai ver na TV. A violência e a impunidade no campo podem ser traduzidas em números: mais de 1500 agricultores foram assassinados nos últimos 25 anos. Detalhe: levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra que dois terços dos homicídios no campo nem chegam a ser investigados. Mandantes (normalmente grandes fazendeiros) e seus pistoleiros permanecem impunes. Uma coisa é certa: a reforma agrária interessa ao Brasil. Interessa a todo o povo brasileiro, aos movimentos sociais do campo, aos trabalhadores rurais e ao MST. A reforma agrária interessa também aos que se envergonham com os acampamentos de lona na beira das estradas brasileiras: ali, vive gente expulsa da terra, sem um canto para plantar - nesse país imenso e rico, mas ainda dominado pelo latifúndio. A reforma agrária interessa, ainda, a quem percebe que a violência urbana se explica – em parte – pelo deslocamento desorganizado de populações que são expulsas da terra e obrigadas a viver em condições medievais, nas periferias das grandes cidades. Por isso, repetimos: independente de concordarmos ou não com determinadas ações daqueles que vivem anos e anos embaixo da lona preta na beira de estradas, estamos em um momento decisivo e precisamos defender a reforma agrária. Se você é um democrata, talvez já tenha percebido que os ataques coordenados contra o MST fazem parte de uma ofensiva maior contra qualquer entidade ou cidadão que lutem por democracia e por um Brasil mais justo. Venha refletir com a gente: - por que tanto ódio contra quem pede, simplesmente, que a terra seja dividida? - como reagir a essa campanha infame no Congresso e na mídia? - como travar a batalha da comunicação, para defender a reforma agrária no Brasil? É o convite que fazemos a você.

26 de mar de 2010

Parricídio tucano ou afasia suicida de José Serra

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos O que significa, do ponto de vista político e psicológico, o personagem José Serra no cenário da direita no Brasil e na América Latina? Foi líder estudantil da UNE, o que não quer dizer talento retórico nem capacidade intelectual; todavia se no passado porventura possuía algum charme persuasivo, atualmente não lhe sobrou nada, e isso está relacionado com a sua progressiva direitização depois do Chile, ou talvez até antes. Serra em Santiago foi uma espécie de garçom ou mordomo de FHC, a quem deverá o futuro ingresso nas altas rodas banqueiras em São Paulo, tendo apoio da missa católica de Franco Montoro para fazer-se deputado. Do Chile, José Serra vem carimbado de “marxista”, fazendo marola que estava na trincheira do marxismo, quando na verdade sua quitanda era a Cepal burguesa e desenvolvimentista, sob a direção de Raul Prebish, economista ponta de lança do imperialismo inglês na Argentina, odiado por peronistas, nacionalistas e trotskistas. Não há contribuição alguma de José Serra à teoria econômica na América Latina. Isso foi dito em 1978 por Ruy Mauro Marini, artigo publicado na Revista de Sociologia Mexicana. José Serra, sem o menor escrúpulo intelectual, censurou o artigo de Ruy Mauro Marini no Cebrap. Neste artigo, aparecia como ele é hoje: um homem que se ufana da burguesia industrial e financeira paulista, um tecnocrata operador do capital monopolista internacional. Ruy Mauro Marini antecipou o balé financeiro multinacional de José Serra, origem pobre, mas fascinado pelo Banco e pelo poder do dinheiro fazer dinheiro, que não tem nada a ver com o capital produtivo. O PSDB é a expressão de classe da universalização do capital monopolista, isto é, do imperialismo. Funeral de Allende A saga mal contada do Chile. Não se conhece nenhum protesto tucano contra a derrubada do presidente Salvador Allende. E esse silêncio, ou essa atitude impassível em relação ao socialismo chileno golpeado pela CIA, é revelador do tipo de “democracia” a que está afeiçoado o PSDB. José Serra no Chile esteve mais próximo do ‘catolicão’ Eduardo Frei do que do comunista Salvador Allende, ao contrário do que sucedeu com Ruy Mauro Marini, Andre Gunder Frank e Darcy Ribeiro. Eduardo Frei não só conspirou no golpe de Estado de 1973, como celebrou o regime de Pinochet, o qual contou com o Banco Mundial assessorado por Milton Friedman e os economistas Chicago Boys, que foram admirados e aplaudidos por Roberto Campos, o economista que se esforçou para privatizar a Petrobras e a Vale do Rio Doce. O modelo econômico de Pinochet foi inspirado na ditadura brasileira de 1964 com os planos de “austeridade” ditados pelo FMI e Banco Mundial, privatizadores com corte de gastos estatais. O que existe em comum entre Milton Friedman, FHC e José Serra? Estes no poder venderam as empresas estatais para o capital privado e, principalmente, para o capital estrangeiro. Essa política neoliberal de desnacionalização, que direcionou tanto o regime fascista de Pinochet quanto a social democracia de FHC e Serra, baseia-se em três pilares: exportação, austeridade e superexploração do trabalho. A Cepal de Raul Prebisch foi a antesala dos Chicago Boys de Milton Friedman, os quais ocuparam altos cargos executivos no regime fascista de Pinochet. A política econômica do general chileno foi de caráter neoliberal e privatizante tanto quanto a da “era vendida” de FHC e Serra. Isso significa que, para além da superficial análise políticóloga baseada na noção de “autoritarismo”, a repressão policial durante a “era vendida” não se fez necessária no Brasil para garantir o domínio neoliberal da burguesia financeiro-monopolista e sua acumulação de capital. O genocídio econômico neoliberal no Chile estava, segundo Pinochet, justificado por uma “democracia autoritária”. Panteão caipira Se a ditadura de 64 seguiu o receituário tecnocrático de Roberto Campos, o repercurtor colonizado de Milton Friedman, o guru gringo de Pinochet, então a política privatizante do general chileno foi, por sua vez, radicalizada pelo príncipe da sociologia no Brasil, que recebeu o justo epíteto de “o rei das privatizações”, disputando esse qualificativo na América Latina com Menem na Argentina e Fujimori no Peru. É por causa desse condicionante econômico do capital monopolista que FHC e Serra nunca derramaram lágrima alguma para Salvador Allende assassinado pelos Chicago Boys, os quais iriam inspirar mais tarde a decisão tucana de privatizar a Vale do Rio Doce e vender as ações da Petrobrás. FHC e Serra no poder iriam repetir e copiar Albert Hirschman, outro economista anti-marxista que não difere substancialmente de Walt Rostow bancado pela CIA, o assessor de Kennedy e Johnson que mandou jogar bomba nas cabeças dos vietnamitas. A fúria neoliberal privatizante dos tucanos não foi de inspiração autóctone, ou o resultado de seu convívio com Ulisses Guimarães e Franco Montono, o panteão caipira do largo São Francisco, incluindo o cowboy Orestes Quércia. Como tudo o que acontece com eles, a diretriz é traçada invariavelmente do exterior e dos centros imperialistas. A compreensão dessa política entreguista do PSDB está em Andre Gunder Frank, sociólogo nascido em Berlim (1929) que deu aula na Universidade de Brasília convidado por Darcy Ribeiro, e que continua até hoje sendo o demônio das ciências sociais. Gunder Frank, o autor de O Desenvolvimento do Subdesenvolvimento morreu em 2005, deixou uma notável obra teórica e histórica, que é o desmascaramento do neoliberalismo com a ideologia da globalização do capital monopolista. O detalhe é que além de ter vivido no Chile na época de Salvador Allende, o marxista Gunder Frank, foi aluno de Milton Friedman na Universidade de Chicago na década de 50 e percebeu o caráter reacionário de seu mestre, rompeu com ele e com a Universidade de Chicago, e mais tarde no Chile, denunciou o crime contra o povo latinoamericano perpetuado por aquele figurão que ganhou o prêmio Nobel de economia, por ser o paradigma monetarista do vínculo entre a universidade e o banco, como é também o caso, repetido na periferia, do percurso de FHC e Serra, os quais concentraram o poder econômico e venderam o país, seguindo a terapia do “tratamento de choque”, a expressão de autoria de Milton Friedman, cuja política, como dizia Gunder Frank, aumentou o monopolismo capitalista no mundo, desde quando assessorou Barry Goldwater e orientou as medidas econômicas de Nixon. Para América Latina exportou a bula, repercutida décadas depois pelos tucanos, sobre a “estabilização da economia”, que não é diferente do modelo de Roberto Campos. Mercado livre e pau-de-arara É preciso desconfiar da auto-propagada vocação dos tucanos à democracia. Roberto Campos também se dizia fã da democracia quando serviu à ditadura. Milton Friedman escreveu o livro Capitalismo e Liberdade e contribuiu para o assassinato de 30 mil pessoas no Chile, apelando para os princípios do “mercado livre” e do neoliberalismo. Por isso é preciso perguntar o seguinte: até onde vai o amor de José Serra pela democracia? O fascismo político de Pinochet se valeu do neoliberalismo na economia, o qual será retomado por FHC com eleições, seguindo o que receitava o guru Milton Friedman: o lucro é a essência da democracia. FHC sempre disputou as eleições por cima e em situação favorável, a moeda “real” foi a cédula eleitoral no bolso, dizia Leonel Brizola. Depois se reelegeu na maré das reeleições, o que não acontecerá com José Serra, que é uma espécie de primo pobre da tucanalha, desprovido das fortunas maquiavélicas que foram oferecidas para FHC na Casa Grande. A dialética Casa Grande e Senzala funciona como um sintoma psicológico de um partido político repleto de egos vaidosos e sem carisma. FHC colocou a graça de seu carisma no dinheiro, na moeda, ficando conhecido como o “príncipe da moeda”. Herança Vende-Pátria Hoje, em situação mundial desfavorável provocada pela crise financeira do imperialismo (FHC esteve oito anos agenciando a globalização do capital estrangeiro), o PSDB com José Serra – representando os interesses da burguesia financeira e industrial de São Paulo – se prepara para voltar ao Palácio da Alvorada. Há porém um problema neste teatro subshakesperiano. É que depois do estrago entreguista de FHC, os tucanos não têm discurso a apresentar, digamos, nenhuma esperança em cima da telenovela, da moeda e da estabilização da economia. Ainda que não reconheça publicamente, José Serra gostaria de descartar-se da herança de seu progenitor, porque essa herança é um estorvo fatal para ele, impedido de falar que vai retomá-la e tirar-lhe a parte ruim. Afinal, que “Brasil venceu” com oito anos de FHC? José Serra vive essa contradição em sua trajetória política, pois não poderá negar a paternidade que o gerou, embora esse DNA seja um obstáculo para palmilhar o caminho da Presidência da República. É difícil para José Serra refutar que a era FHC, com a sua política de privatização internacional e agente da universalização do capital privado, foi um retrocesso nacional, que não fez senão prosperar os bancos e as corporações multinacionais. Durante a “era vendida” de FHC, o PSDB foi o instrumento político do capital globalizado, que levou adiante as medidas entreguistas de 64, valendo-se do argumento da eficácia, da racionalidade e da competência na administração da vassalagem entreguista. Baile de Manhattan Analisado de olho na América Latina, o governo neoliberal de FHC –que José Serra estará compelido a defender agora com todos os constrangimentos – tomou como paradigma e aprofundou o que foi feito na economia pelos Chicago Boys no Chile do general Pinochet. O neoliberalismo econômico de FHC, Menem e Fujimori começou com as ditaduras da década de 60. A retirada de todas as restrições ao capital estrangeiro, a liberalização dos mercados, a desregulação das empresas privadas, as prescrições sobre os “ajustes estruturais” fizeram parte do pacote macroeconômico chamado “estabilização” aplicado em escala mundial a mando do FMI e do Banco Mundial. Essa foi, na era privatizadora de FHC, a economia portifólio e especulativa, de acordo com o processo de acumulação de capital sob a égide da financeirização. Quem fez a farra com o Plano Real foi, dentre outros bancos estrangeiros, o Chase Manhattan com os seus superlucros. São os bancos e as grandes instituições financeiras que irão conceder o prêmio Honoris Causa para FHC, o “gênio das ciências sociais” enfiando (como dizia Leonel Brizola) os barretes em sua cabeça por várias universidades do Primeiro Mundo pelo serviço prestado, sobretudo na Inglaterra de Tony Blair, o afilhado de dona Tatcher e pupilo de Giddens, o comensal assíduo nos ágapes oferecidos por Rupert Murdoch, a patota Barclays Bank e British Airways. A política econômica neoliberal foi um desastre para a América Latina, empobreceu muita gente e marginalizou amplos setores da população. José Serra irá corrigir os defeitos dessa política imperialista de FHC? É difícil imaginar o discurso do PSDB agora para o que defendeu e executou no poder durante oito anos, tendo sido o principal agente político da universalização do capital monopolista. Culpa e Insônia O travesseiro de José Serra está esquentado com a questão: o que dizer na campanha de 2010 acerca da herança daquele que foi o seu progenitor político? Agora, com a crise da financeirização política do capital monopolista, nem a direita da metrópole defende mais a “flexibilização do capitalismo”. A insônia de José Serra tem razão de ser: cadê o Giddens? Cadê o Blair? Cadê a Tatcher? Cadê o Clinton? O modelo terceira via-globalização-privatizante-neoliberal fracassou. A alternativa durante a campanha é retornar a Keynes e aos investimentos públicos? Será que isso surtirá algum efeito? O problema é o peso da herança: FHC foi a transferência do patrimônio público para os interesses privados. O PSDB não é social nem democrático. Quem faz o programa desse partido é a big finança, e esta não tem nada de democrática; ao contrário, o capitalismo monopolista é contra a democracia. O interesse imperialista da metrópole é o que determina a concepção do PSDB. Os gerentes e estamentos anglosaxônicos formularam as políticas da “terceira via” e da privatização, porém isso resultou num desastre completo. O que foi outrora tido como gênio, Tony Giddens, citado impreterivelmente na bibliografia dos cursos da pós-graduação em ciências sociais, virou um badameco da burguesia pirata de Londres. Segundo o sibarita Giddens, acabou a luta de classes entre burguesia e proletariado, o vínculo entre nação opressora e nação oprimida foi dissolvido, dissipou a contradição capitalismo versus socialismo, assim a filantropia das ONGs é o que resolve a penúria; enfim, essa “terceira via” neoliberal privatizadora aumentou o abismo entre pobres e ricos. O PSDB é um partido político colonizado e mimético, sua formatação origina-se dos centros financeiros do capitalismo, seu internacionalismo, ou melhor, seu cosmopolitismo é burguês, portanto não há abracadabra possível que faça José Serra pousar de nacionalista e defensor das riquezas naturais do país; afinal ele foi o fautor e companheiro de viagem do funeral feagaceano da era Vargas. Então, sem que se reduza a política à psicanálise, é preciso reconhecer que um espectro ronda o arraial tucano: o do parricídio. É a matança (simbólica, claro) do pai FHC pelo filho José Serra, se este quiser se despregar da “era vendida”, pelo menos durante a campanha eleitoral de 2010. Se não for seguido este caminho, não restará outra alternativa senão a afasia que o levará à autoimolação política. Adiós, Serra. Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor

16 de mar de 2010

NEOLIBERALISMO/MUDANÇAS

A terceira via à Brasileira Os anos 80 e 90 foram os anos do triunfo do neoliberalismo econômico, do chamado "pensamento único", da teoria do "fim da história" (Fukuyama). Na verdade, o período Reagan e Tatcher foi uma reencarnação do liberalismo francês de meados do século passado, quando o Primeiro-Ministro François Guizot lançou a palavra de ordem "enriquecei-vos!" e criou um bloco conservador chamado "Ajude que os céus te ajudarão". Traduzindo em práticas econômicas, o neoliberalismo, mediante a ausência da intervenção do Estado no mercado e pela eliminação de todas as proteções sociais contra a pobreza, na busca absoluta da liberdade de exploração da força de trabalho pelo capital, da globalização dos mercados, da mobilidade eletrônica instantânea das imensas somas de divisas, que não mais correspondem à produção de mercadorias. A conseqüência de tal política foi o aumento do desemprego e o aparecimento de "novos pobres". As idéias políticas costumam chegar pelo menos com 10 anos de atraso nos países periféricos em relação ao mundo industrializado, como é o caso da América Latina. O Brasil é o exemplo clássico, pois aplicou piamente as políticas neoliberais nas duas administrações do governo de Fernando Henrique Cardoso, e continua no governo de Lula. Os países desenvolvidos da Europa e da América do Norte adotaram as políticas neoliberais na década de 80, mas não deram continuidade às mesmas por alcançar crescimento econômico pífio em seus países. O sociólogo Emir Sader fez sistemáticas críticas ao governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, às inverdades e ao abuso do poder econômico: "A mentira faz parte do jogo, assim como a meia verdade, a insinuação, a ameaça, a desqualificação das divergências". Como exemplo, Sader cita a compra de votos para a emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso e os financiamentos indiretos de sua campanha, com favorecimentos de banqueiros e empreiteiras, num negócio redondo de corrupção da democracia. Sader acredita que Fernando Henrique Cardoso não representava a "terceira via", mas sim a "segunda via", a via do neoliberalismo. A "direita renovada" não é uma alternativa, não é nenhuma novidade. Quem foi base de apoio ao governo de FHC, senão a velha e conhecida direita capitaneada por políticos como Antônio Carlos Magalhães, Maluf, Marco Maciel, Roberto Campos, Dorneles, juntamente com a elite empresarial brasileira, banqueiros, empreiteiros, grandes monopolistas privados, especuladores, latifundiários, grandes órgãos de imprensa, além do apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Emir Sader criticou o apoio incondicional do Estado a grupos privados nacionais e internacionais. Os subsídios e financiamentos foram constantes no governo de FHC, um exemplo foi o "apoio" financeiro a bancos como o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional (PROER). Foram gastos em torno de 25 a 30 bilhões, dentro desse programa de apoio, numa tentativa de "restabelecimento" da economia. Os capitais internacionais não se cansaram de faturar às custas de juros recordes, (os maiores do mundo). Os latifundiários estavam satisfeitos, já que as grandes propriedades rurais foram defendidas pela isenção do Imposto Territorial Rural (ITR). Os grandes meios de comunicação receberam quantias calculadas em mais de um milhão de dólares diários de propaganda do governo. A saúde privada capitalizava a catástrofe da saúde estatal, ou seja, quem não conseguia pagar por um plano de saúde privado, ficava a morrer na fila.[5] Segundo Sader, uma das feições de Fernando Henrique Cardoso era a de super-herói das elites contra a esquerda. Ele enfrentou movimentos, centrais sindicais e partidos de esquerda na ação repressiva ao debate ideológico e nas iniciativas legais para excluir direitos. FHC encarnava um discurso de que a globalização seria inevitável, para isso precisava "preparar" o Brasil para a mesma. O país não poderia ser vulnerável na política externa, ao contrário, deveria estar preparado para competir nos mercados internacionais. Algumas críticas à terceira via Segundo Ricardo Antunes[6]a "terceira via", na Inglaterra, deu continuidade ao desmonte dos direitos dos trabalhadores, ampliou as privatizações, aumentou a submissão do país ao imperialismo político-militar norte-americano, em suas incursões militares no mundo árabe. Por isso a "terceira via" representa a preservação fundamental do neoliberalismo, com um verniz social-democrático. A "terceira via" intitula-se de "esquerda liberal-social", tão propagada por seus ideólogos, é essencialmente um ideário que se assume como "esquerda", mas que pratica o que a direita gosta, ou, ainda, é o que restou da social-democracia na fase mais destrutiva do capitalismo, e tenta consertar alguns dos estragos do neoliberalismo, preservando sua engenharia econômica básica[7] A política de Tony Blair, para muitos, não traz absolutamente nada de novo, mas dá continuidade à política neoliberal de Margaret Tatcher: "Blair não passa de uma versão feminina da Margaret Tatcher".[8] Blair venceu as eleições na Inglaterra, pois foi considerado uma alternativa aos eleitores já cansados das reformas neoliberais feitas pelos conservadores. Na França os socialistas continuaram imbatíveis nas preferências do eleitorado. Os alemães elegeram um social-democrata depois de 16 anos de domínio do chanceler Helmut Khol. O conceito "terceira via" retornou na década de 90, na Inglaterra, com um sentido puramente eleitoreiro, isto é, o de oferecer uma nova "feição" ao Partido Trabalhista inglês, fustigado durante 20 anos pelo tatcherismo que então agonizava. Marilena Chauí, em seu artigo "Fantasia da terceita via", apresenta alguns dos principais dogmas dessa concepção: a) Política: "modernizar" o centro, com a aceitação da idéia de justiça social e a rejeição da "política de classes" e da "igualdade econômica", procurando apoio em todas as classes sociais e assegurando que o governo seja um incentivador da expansão e do desenvolvimento da liberdade individual. Por isso o interesse na abolição do conceito "luta de classes", considerado como obsoleto com o fim da sociedade bipolar, capitalismo versus socialismo; b) Economia: trata-se de criar uma "economia mista", que equilibre regulação e desregulação, levando em conta os aspectos não-econômicos da vida social; c) Governo: os Estados não possuem inimigos. Enfrentam problemas. O principal problema para o Estado Democrático é o de sua legitimidade: prega a reforma administrativa que torne o Estado um administrador tão competente como uma grande empresa; d) Nação: a nação não tem sentido no mundo da globalização; e) Bem-Estar Social: trata-se de corrigir os excessos e efeitos perversos do Estado Providência e reformar o Estado de Bem-Estar. Outros objetivos um tanto vago aparecem como balizadores da "terceira via": a reforma do Estado, a revitalização da sociedade civil, a criação de fórmulas para o desenvolvimento sustentado e, por último, a preocupação com uma nova política internacional. Giddens substitui o termo "Estado de Bem-Estar para Sociedade de Bem- Estar", ou seja, o Estado com parcerias com órgãos da sociedade (empresas) e se desobriga das funções sociais: emprego, saúde, educação. O Estado, com isso, não precisa enfrentar o perigoso problema da distribuição de renda e pode resolver suas dificuldades pela privatização dos direitos sociais, transformados em serviços sociais regidos pela lógica do mercado. É importante reafirmar que a "terceira via" mantém a prática neoliberal da opção preferencial do investimento dos fundos públicos para o capital, e não para o trabalho. Quem determina o caminho a ser seguido é a lei do mercado. Com a "globalização", as instituições internacionais se encarregam das políticas econômicas, sociais e militares que, outrora, estavam a cargo do falecido Estado Nacional, conclui Chauí.[9] Diante disso, pergunta-se: Para onde foi o Estado-Nação? Qual o papel do novo Estado? Com a crise do comunismo na Rússia e a crise, igualmente, do modelo capitalista globalizado, surge, com ares de novidade, um novo modelo chamado de "terceira via", que haveria de "solucionar" o problema. A propaganda foi feita assim: dos onze países que compõem a União Européia, nove têm governos social-democratas, socialistas ou trabalhistas, Isso quer dizer que, em tese, seriam partidos de esquerda. Mas, afinal, o que é a "terceira via"? Qual é a ideologia que defende? Há nela elementos do socialismo, marxismo ou do capitalismo? Essa é a grande questão que todos fazem: muito se fala, mas pouco se conhece da terceira via. A terceira via de Blair: a outra face do neoliberalismo inglês Segundo Ricardo Antunes, a pauta das reformas neoliberais na Inglaterra contemplava: a) as privatizações; b) a redução e mesmo extinção do capital produtivo estatal; c) o desenvolvimento de uma legislação fortemente desregulamentadora das condições de trabalho e flexibilidade dos direitos sociais; e, d) a aprovação, pelo Parlamento Conservador, de um conjunto de atos fortemente coibidores da atuação sindical e operária visando ao seu enfraquecimento[10]Tais políticas foram implementadas durante o governo Tatcher. Da mesma forma o sindicalismo tratado como inimigo central. Em decorrência, os dirigentes sindicais foram excluídos das discussões da agenda estatal e retidos dos diversos órgãos econômicos, locais e nacionais, que contavam com forte participação sindical, pois se constituíam num dos eixos do reformismo trabalhista inglês[11] Segundo Antunes[12]a produção industrial no Reino Unido contava com mais de 7 milhões de trabalhadores empregados em 1979. No ano de 1995, ocorreu uma redução para 3,75 milhões, ou seja, em 16 anos, mais de 3 milhões de trabalhadores perderam o seu posto de trabalho. O número de sindicalistas reduziu de 13,5 milhões em 1979, para 8,2 milhões em 1994, da mesma forma reduziu-se o número dos sindicalistas filiados ao TUC (Trades Union Congress), Central Sindical Inglesa: em 1978, o TUC tinha 112 sindicatos filiados, em 1994, esse número reduziu-se para 69[13] O declínio das greves também foi acentuado, além do desemprego altíssimo. Outros dados podem ser constatados durante as "reformas dos anos 80" na Inglaterra: a) esta foi a única nação da União Européia a aumentar sua jornada de trabalho semanal na última década; b) o número médio de horas trabalhadas por semana para trabalhadores em tempo integral passou a ser de 42 horas para os homens e 38 para as mulheres (em contrapartida os trabalhadores alemães, por exemplo, trabalham 36 horas por semana); c) os trabalhadores manuais trabalham 44,2 horas por semana e os trabalhadores não-manuais trabalham 38,2 horas; d) em 1996, 3 milhões e 900 mil pessoas trabalharam mais do que 48 horas por semana, sendo que, em 1984, esse contingente era de 2 milhões e 700 mil[14] Para quem pensava que a "terceira via" de Tony Blair fosse dar um basta à tragédia que foi o governo Tatcher para os trabalhadores, enganou-se: a política econômica de reinserção do Reino Unido dentro da "nova" configuração do capitalismo contemporâneo continuou, a preservação da flexibilidade continuou. A "terceira via" é a continuidade do essencial da fase thatcherista, uma vez que, dado o enorme desgaste que o neoliberalismo clássico acumulou ao longo de quase vinte anos, acabou sendo fragorosamente derrotado eleitoralmente pelo New Labor, de Tony Blair. Blair continua o plano de governo de Tatcher, defensor da "economia de mercado", da "flexibilização do trabalho", das desregulamentações, da "economia globalizada moderna", tudo como prega o neoliberalismo em sua forma mais clássica.[15] Uma terceira via alternativa Aqui caberia a participação da esquerda brasileira, desde os partidos políticos até os movimentos sociais, todos unidos no debate sobre esses temas. A esquerda deveria estar unida na nacionalização do Estado, no controle de bancos, na função financiadora da produção, no crédito, na luta pelo emprego. Para Sader, há urgência de que a esquerda se una, para pôr a reforma do Estado no marco da democratização radical da sociedade, com a centralização dos serviços públicos, para garantir direitos universais e não suprimir, extinguir, aniquilar os direitos adquiridos pelos trabalhadores em tempos anteriores. A escritora e professora da Universidade de Manchester, Hilary Wainwrigh, entende que uma nova esquerda está surgindo dos movimentos civis. Wainwrigh diz que os partidos tradicionais não conseguem mais responder às necessidades sociais. Segundo ela, as respostas são dadas por movimentos organizados por cidadãos, como grupos de defesas de trabalhadores, mulheres, negros e sem-terras, caso brasileiro. Houve movimentos, segundo a escritora, cada vez mais influentes, devido ao enfraquecimento da antiga esquerda, que se tornou obsoleta com o fim da Guerra Fria. Como protagonistas da "Nova Esquerda", temos os movimentos sociais civis organizados, como o dos trabalhadores sem-terra, as organizações de mulheres, os movimentos negros. Para melhor exemplificar a visão da "Nova Esquerda", a escritora cita a gestão do Partido dos Trabalhadores (PT) na prefeitura de Porto Alegre, em que as decisões são tomadas com consultas aos cidadãos que decidem onde e como os recursos serão aplicados, segundo a prioridade da comunidade (Orçamento Participativo).[16] Segundo Wainright, a "Nova Esquerda", de Tony Blair, nada mais é do que uma "nova versão do neoliberalismo e uma continuação do programa neoliberal de Margareth Tatcher". A escritora afirma, ainda, que a "Nova Esquerda" surge da incapacidade dos partidos políticos tradicionais, que não conseguem responder às necessidades sociais. A crítica pertinente de Bourdieu e Wacquant segue na mesma direção. A supremacia do imperialismo neoliberal não se sustenta sem a construção teórica dos intelectuais (especialistas conselheiros) de plantão. Dos seus centros universitários, dão suporte técnico à "nova nobreza de Estado e da empresa". Anthony Giddens é um exemplo: "O modelo planetário e incontestado é o do sociólogo britânico Anthony Giddens, professor da Universidade de Cambridge, agora à frente da London School of Economics e pai da "teoria da estruturação", síntese escolástica de diversas tradições sociológicas e filosóficas".[17] Mais à frente, Bourdieu e Wacquant afirmam que a Grã-Bretanha está oferecendo ao mundo um "cavalo de tróia" de duas cabeças, tendo à frente Anthony Blair e Anthony Giddens: "Pode perceber-se a encarnação por excelência do estratagema da razão imperialista no fato de que é a Grã-Bretanha, posta por razões históricas, culturais e lingüísticas em posição intermediária, neutra, entre os Estados Unidos e a Europa continental, que fornece ao mundo esse cavalo de Tróia de duas cabeças — uma política e a outra intelectual — na pessoa dual de Anthony Blair e Anthony Giddens, "teórico" autoproclamado da "terceira via"".[18] Giddens é categórico em afirmar textualmente sua atitude positiva frente à globalização: "adoto uma atitude positiva em relação à globalização"; "tento [sic] reagir às novas formas de desigualdades", advertindo logo, porém, que "os pobres de hoje não são semelhantes aos de ontem, (...) assim como os ricos não se parecem mais com aqueles que no passado o foram". Sobre a função do Estado, assim se expressa Giddens: "Aceito a idéia de que os sistemas de proteção social existente, e a estrutura do conjunto do Estado são a fonte dos problemas, e não apenas a solução para resolvê-los"; "enfatizo o fato de que as políticas econômicas e sociais se encontram relacionadas", para afirmar, ainda que, "as despesas sociais devem ser avaliadas ao nível das suas conseqüências para a economia no seu conjunto". Finalmente, nas palavras de giddens: "Preocupo-me com os mecanismos de exclusão" que descobre "na base da sociedade, mas também no topo [sic]", convencido de que "redefinir a desigualdade em relação à exclusão nesses dois níveis" é "conforme a uma concepção dinâmica da desigualdade". Os mestres da economia podem dormir tranqüilos pois encontraram o seu ideólogo, concluem Bourdieu e Wacquant. BIBLIOGRAFIA ANTUNES, Ricardo. Outubro: Revista do Instituto de Estudos Socialistas, n. 3, 1999. BOURDIEU, Pierre e WACQUANT, Löic. O imperialismo da razão neoliberal. Disponível em . Acesso em setembro de 2004. CHAUÍ, Marilena. Fantasia da terceira via. "Folha de São Paulo", São Paulo: 19 de Dezembro de 1999. GIDDENS, Anthony. A terceira via: reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia. Rio de Janeiro: Record, 2000. JORNAL CORREIO DA CIDADANIA - n.157, p.6. JORNAL O EXPRESSO, Portugal, 15-05-99. JORNAL O GLOBO, 14-07-99, Disponível http://www.oglobo.com.br/Política/Pol50.htm. Acesso em dezembro de 2002. SADER, E., O medo da esquerda. Folha de São Paulo, 31 de maio de 1998. VERÍSSIMO. L. F. O Estado de São Paulo, 25 de dezembro de 1999. WAINWRIGHT, Hilary. Uma resposta ao neoliberalismo: argumentos para uma nova esquerda. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

12 de mar de 2010

A LIBERDADE E O FILME OBRIGADO POR FUMAR

Este trabalho versará falar sobre a liberdade na perspectiva da obra de Espinosa e Kant, partindo do filme obrigado por fumar. Somos livres? A ética se torna uma disciplina da filosofia a partir das indagações de pensadores como Heráclito e Sócrates sobre o comportamento humano, os costumes e os valores a eles atribuídos. Surge, então, a ética como filosofia moral, um campo do pensamento filosófico dedicado a discutir, problematizar e interpretar o significado dos valores morais. A concepção de liberdade no âmbito da filosofia kantiana parte de que toda ação racional deve ser uma ação moral o que é requerido incondicionalmente pelo imperativo categórico posto que a conduta moral seja vinculada a uma máxima universalizável e que esta se constitui em uma lei que não pode ser imposta por algo externo (uma vez que é resultada de um princípio constitutivo a priori da razão), a natureza da legislação racional é universal e as leis universais são morais. O propósito de Kant é estabelecer uma ética racional. Ou seja, uma ética que possa ser efetivamente implementada pelos seres humanos racionalmente, independente da fé e da revelação divina. Kant vê a necessidade de ultrapassar o uso reflexivo e intelectual que fazemos da razão para uma razão que também tenha um uso prático. A isto Kant chamou de "razão prática". Visto que apetites, impusos, desejos, tendências, comportamentos naturais costumam ser muito mais forte que a razão, a razão prática e a verdadeira liberdade precisam dobrar nossa parte natural e impor-nos nosso ser moral. Elas os fazem obrigando-nos a passar das motivações do interesse para o dever. Para sermos livres precisamos ser obrigados pelo dever de sermos livres Espinosa acredita que Deus existe e que tudo é natureza de Deus, por ser o homem um modo de Deus e não mais uma substância, como em Aristóteles ou Descartes. \"Entendo por Deus um ser absolutamente infinito, isto é, uma substância constituída por uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”. Deus é a única substância em Spinoza; todos os demais seres são modos desta substância. E é como modo de uma substância única e imanente, que o homem expressa de“maneira certa e determinada” a essência desse Deus. Aparentemente, isto justificaria o fato da filosofia spinozista negar ao homem a ampla e irrestrita liberdade de ação e escolha. Mas esta questão trás um problema Como pode o homem, sem possuir uma vontade livre, governar o que quer que seja de si mesmo? Como pode evitar se não possui livre-arbítrio ou uma faculdade da vontade, ser absolutamente determinado pelas circunstâncias, pelos encontros “casuais”. Obrigado por Fumar (Thank You for Smoking), de Jason Reitman, baseado no livro de Christopher Buckley, fala sobre a indústria do fumo e das artimanhas de um lobista da área. Nele, Nick Naylor é o principal porta-voz das grandes empresas de cigarros, ganhando a vida defendendo os direitos dos fumantes nos Estados Unidos. Desafiado pelos vigilantes da saúde e também por um senador oportunista, que deseja colocar rótulos de veneno nos maços de cigarros, Nick passa a manipular informações de forma a diminuir os riscos do cigarro em programas de TV. Além disto Nick conta com a ajuda de Jeff Megall, um poderoso agente de Hollywood, para fazer com que o cigarro seja promovido nos filmes. O que realmente nos interessa no filme é a discussão sobre a liberdade de escolha e os fatores externos que condicionam nossa atividade ética. A palavra “ética” vem do grego ethos, que significava, já na Grécia antiga, hábito, costume. Esse sentido é o mesmo atribuído pelos romanos da Antiguidade à palavra latina mores, que deu origem ao termo “moral”. A associação de valores positivos a hábitos e costumes, num primeiro momento, dependia do status social do indivíduo. A ética trata de tudo aquilo que diz respeito à ação do homem, imaginemos as seguintes situações: primeiro que somos todos livres, podemos fazer aquilo que quisermos. Não há quaisquer restrições, não devemos satisfação. Nesse cenário utópico, conseguiria o homem construir para si uma sociedade boa e justa? E as pressões que se constituem principalmente num modelo de sociedade capitalista, qual o poder de decidir que tem o cidadão? A obra de Kant e Espinosa contribui muito para questionar e problematizar um tema tão antigo e atual. JOÃO FILHO- PROFESSOR DE HISTÓRIA E PÓS GRADUADO EM METODOLOGIAS DO ENS. DE FILOSOFIA Bibliografia: SPINOZA E O PROBLEMA DALIBERDADE HUMANA REGINA SCHÖPKE Acesso a internet dia 13/11/2009. Espinosa uma filosofia da liberdade:Editora moderna,1995. Obrigado por Fumar Thank You for Smoking EUA , 2006 - 96 min Diretor: Jason Reitan . A ética de Kant- Marilena Chauí. Editora Ática, 2000

O CONCEITO EM FILOSOFIA

A filosofia e a criação de conceitos em Deleuze e Guattari Para Deleuze e Guattari, o pensamento filosófico realiza-se através da inten-sa criação de conceitos. Essa tarefa, no entanto, já foi reconhecida pela filosofia. O que distingue o pensamento desses autores com respeito ao trabalho filosófico, é que para os mesmos, a criação de conceitos deve assumir o lugar a imanência e não da transcendência. Assim, supõe a criação de um plano de imanência pré-filosófico. O plano é caracterizado como pré-filosófico não no sentido de ser anterior à filosofia, mas por ser a condição, o elemento interno necessário para que a filosofia exista. “A filosofia é, ao mesmo tempo, criação de conceito e instauração do plano. O conceito é o começo da filosofa, mas o plano é sua instauração” (DELEUZE e GUATTARI, 1992, p. 58). O plano é a base e o horizonte do conceito, o que fornece fundamento e norteia a criação conceitual. Por isso, conceito e plano tornam-se inseparáveis e imbricados e sem nenhuma relação hierárquica entre eles. O conceito não funciona sem o plano em que foi criado. Há uma complementaridade entre conceito e plano, que forma a estrutura do sistema filosófico. A imanência do conceito impede as representações mentais, e a busca de referenciais fora do plano. Assim, os conceitos remetem a uma compreensão não conceitual, intuitiva, que varia em função do plano foi instaurado. O plano de imanência estabelece também uma relação entre a filosofia e o não filosofo, uma vez que é necessário que haja um diálogo entre a filosofia e os leigos. Como não se encerra em representações mentais, o conceito não paralisa o movimento do pensamento. Ele é aberto e dinâmico, tem como característica intrín-seca o próprio devir. Assim, o conceito provém de uma experiência de pensamento e leva a novas experiências de pensamento. Portanto, os conceitos não surgem do nada, se caracterizam também por pos-suir uma história, isto é trazem consigo elementos de outros conceitos. Os conceitos alimentam-se de diversas fontes, como a filosofia, ciência e arte. Um conceito se origina de outro conceito, que por sua vez, também teve origem em outro conceito, e assim sucessivamente, num movimento que se estende ao infinito. Por isso, não há conceito simples, o conceito remete sempre a uma multiplicidade de conceitos, de modo que é impossível construir uma linha exata de demarcação entre um conceito e outro. Cada conceito remete a outros conceitos, não somente em sua história, mas em seu devir ou suas conexões presentes. Cada conceito tem compo-nentes que podem ser, por sua vez, tomados como conceitos [...] Os con-ceitos vão pois ao infinito e, sendo criados, não são jamais criados do na-da. (DELEUZE e GUATTARI, 1992, p. 41) No, entanto, é tarefa do filósofo, em sua criação, recortar o conceito, atribuir-lhe novas nuanças. O conceito também possui singularidade, porque jamais é o mesmo, uma vez que se remete a um agregado de conceitos. Embora o conceito reporte-se a uma multiplicidade de conceitos, possui uma estrutura e organização e, no entanto, não perde o caráter de um todo composto por fragmentos. Como o conceito é um ato de criação, ressalta-se a capacidade criadora da filosofia. Aqui se destaca uma característica do pensamento de Deleuze e Guattari, que é o construtivismo, que diz respeito ao ato de construção-criação. O filósofo deve ser criador e não reflexivo. Assim, também, se compreende a especificidade da filosofia. A filosofia não é contemplação, porque a contemplação não é criativa, não é comunicação, porque a mesma visa ao consenso. Também não é reflexão, porque não é uma função específica da filosofia, qualquer um pode refletir. A criação de conceitos é que confere a especificidade da filosofia: “a contemplação, a reflexão, a comunicação não são disciplinas, mas máquinas de constituir Universais em todas as disciplinas.” (DELEUZE e GUATTARI, 1992, p. 15). O filósofo é o amigo do conceito, ele é conceito em potência. Quer dizer que a filosofia não é uma simples arte de formar, de inventar ou de fabricar conceitos, pois os conceitos não são necessariamente formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos [...] Criar conceitos sempre novos, é o objeto da filosofa. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência, ou que tem sua potência e sua competência [...] Que valeria um filósofo do qual se pudesse dizer: ele não criou um conceito, ele não criou seus conceitos? (DELEUZE e GUATTARI, 1992, p. 13-14). Os conceitos são auto-referentes, se reportam a eles mesmos, representam uma forma própria de ver o mundo e os acontecimentos. Nessa perspectiva, a pró-pria filosofia torna-se auto-referente. Deleuze e Guattari, distintamente da tradição, para a qual o conceito é sem-pre universal, sublinham o caráter particular do conceito, à medida que o mesmo remete-se sempre ao acontecimento, que é caracterizado por sua singularidade. Portanto, cada conceito, diz respeito a um problema, são criados em função de um problema, que é o que confere sentido e razão de ser para um conceito. De acordo com os autores, o “primeiro princípio da filosofia é que os universais não explicam nada, eles próprios é que devem ser explicados” (DELEUZE e GUATTARI, 1992, p. 15). A criação de conceitos nos remete a uma lógica do sentido, contrapondo-se a idéia e categorias prontas, definidas. Os acontecimentos aos quais se remetem os conceitos são vistos em sua particularidade e imprevisibilidade. Portanto, o conceito não é uma representação mental, encerrada em si mes-ma, é um instrumento que faz pensar, que impulsiona o pensamento a partir de um dado problema. A filosofia de Deleuze e Guattari convida a observar continuamente o mundo, suas nuanças, variedades e detalhes. Para Deleuze e Guattari, a filosofia deve se desvencilhar das opiniões simplis-tas, das generalizações que aprisionam os indivíduos e saber conviver com a multiplicidades de possibilidades que caracteriza o mundo. A criação de conceitos valoriza os acontecimentos, sua dinâmica e imprevisibilidade. O pensamento filosófico conduz, assim, a se aventurar, a correr certos riscos. Estabelece sempre uma relação entre o conhecido e desconhecido, reporta-se aos conceitos e à imprevisibilidade do mundo das coisas e dos acontecimentos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, G e GUATTARI, F. O que é a filosofia. São Paulo: Ed. 34, 1992 FLORIANO, C. Deleuze e a Educação Disponível em: www.arq.ufsc.br/esteticadaarquitetura. Acesso em: 15 jan 2010. GELAMO, R. P. A imanência como “lugar” do ensino de filosofia. Educ. Pesqui. vol.34 no.1 São Paulo Jan./Abr. 2008 Disponível em: http://www.scielo.br. Acesso em: 12 jan 2010 JOÃO FILHO- GRADUADO EM HISTÓRIA E PÓS GRADUADO EM METODOLOGIAS DO ENS. DE FILOSOFIA

A FILOSOFIA E O FILOSOFAR

A vida humana é essencialmente mundana, na expressão de Julián Marías (1914-2005), filósofo espanhol, discípulo de Ortega Y Gasset. Ou seja, só existimos e podemos pensar em nossa existência pela circunstância de possuirmos uma corporeidade situada no mundo. O mundo até pode ser imaginado como uma outra realidade que desejamos ou acreditamos ser possível existir mas, anterior a esta imaginação e desejo, existimos nas circunstâncias em que o mundo nos instala.É neste cenário que imagino possa transpor filosofia a sala de aula, o pátio escolar, os muros da escola abrangendo, assim, a comunidade. Que seja possível atualizar as discussões como pela philia em novas ágoras. Uma das questões que deve impulsionar as nossas investigações como professor de Filosofia é a tentativa de estimular a reflexão filosófica a partir da “experiência não filosófica”, das experiências do cotidiano dos alunos para daí alcançar a conceituação e experiência filosófica. Observamos que, no momento em que as questões levantadas sobre a experiência vivida de nossos alunos exigirem uma reflexão mais profunda para o seu equacionamento, a Filosofia ganha sentido, assume o caráter de necessidade, podendo, neste caso, despertar o interesse, a construção do diálogo, e, por que não dizer, até o prazer nos alunos. É perceptível um grau maior de interesse dos alunos nas aulas de Filosofia quando os temas são por eles escolhidos, são de seus interesses imediatos e fazem parte do seu cotidiano. Isto é significativo, já é um caminho a ser percorrido para o pensar crítico que é um dos vetores da Filosofia. Os alunos adolescentes contemporâneos e grande parte dos indivíduos em geral, vivem na sociedade da imagem, das propagandas midiáticas, do consumismo e da efemeridade. Portanto, pode até parecer que os temas e as perguntas que os alunos adolescentes apresentam para a discussão possam chegar a lugares comuns. Até podem chegar a isso, mas não existe um desvalor em que os temas e as indagações sejam comuns. O cotidiano e a rotina são situações que não podem fugir ao nosso olhar. São situações palpáveis, inquietantes e que poderão possibilitar uma série de discussões de crescimento intelectual, humano e social. Para estabelecer as discussões e o diálogo na prática do ensino de Filosofia. É preciso novas elaboração da Filosofia a partir da criação de novos conceitos (denominação deleuziana); humildade em reconhecer que não somos “donos da verdade”; abertura para ouvir o outro; seriedade nos posicionamentos discursivos das temáticas filosóficas que nos propomos a ensinar; e conhecimento elaborado. Vivenciar a humildade na experiência filosófica não significa humilhar-se, mas ter a nítida consciência de que o encontro com a Filosofia, assim como entre os seus interlocutores, é de construção, de amor à sabedoria, de buscar saber sempre. sala de aula não é um espaço alheio às outras circunstâncias do mundo humano. É neste lugar, que deve ser um espaço propício para as discussões e reflexões dos problemas externos da sociedade, que, por sinal, esses problemas repercutem na vida dos indivíduos na escola. Os alunos não são interlocutores fictícios, imaginários, mas são realidades corpórea, vivenciais do mundo em que estão instalados. Portanto, o ensino da Filosofia deve trilhar-se nas participações efetivas do fazer-se junto à Filosofia, na reciprocidade professor e aluno. Este novo olhar filosófico deve ser responsável. É um olhar de experiências que transitam pelas doutrinas filosóficas, mas não permanecem nelas, co-criam novos conceitos, novas circunstâncias de pensamentos, novas ações para a vida. Julián Marías: “eu diria que todo uso filosófico de uma doutrina é necessariamente criador, porque se não o for, não é um uso filosófico”. (1971: 10). Fica então a proposta de ensinarmos a Filosofia a partir do cotidiano vital, do exercício do pensar mediados pelos conceitos e sistemas filosóficos já formulados, e motivarmos os alunos a desenvolverem a arte do diálogo, a arte do autoconhecimento, deixando sempre espaço para novas discussões. Faz-se necessário admitir e construir em todos os campos educacionais, e não só no campo exclusivo da Filosofia, a arte do diálogo, a arte do encontro entre o eu e o outro, ou, melhor dizendo, entre o EU-TU. Neste sentido, a filósofa alemã Hannah Arendt, em sua obra fundamental A condição humana, escreve que todas as realidades que o humano, em sua pluralidade, realiza, pensa, sabe, experiencia, só tem significado na medida em que as relações saem do individual para o social. No ir para o outro é que se realiza a ação política e os seres humanos, na intersubjetividade, constroem a condição humana humanizada. E tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Haverá talvez verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos. [...] A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha existir. (ARENDT, 2005: 12, 16). Não é minha intenção, nem pode vir-a-ser, afirmar que o professor de Filosofia não deva apresentar e discutir com os alunos os grandes temas da filosofia e os grandes filósofos é que como no mito da caverna vendo sua realidade sombreada, é preciso que se saia dela vivenciando a realidade. JOÃO FILHO- PÓS GRADUADO EM MET.DO ENS.DE FILOSIA E GRADUADO EM HISTÓRIA

8 de mar de 2010

Rosa Luxemburgo/ e o dia das mulheres.

Rosa Luxemburgo. A mais importante revolucionária do século XX foi assassinada, mas seu legado é presença viva entre nós. Rosa Luxemburgo Polonesa, nascida em 5 de março de 1871, envolveu-se desde muito jovem em atividades estudantis, lutando contra o sistema repressivo então vigente nos colégios da Polônia. Militante ativa do movimento socialista, teve que deixar seu país em 1889 para não ser presa; em Zurique fez seus estudos sobre economia, concluindo essa fase de aprendizado com uma tese de doutorado sobre "O Desenvolvimento Industrial na Polônia". A partir de 1894, juntamente com Leo Jogiches, Rosa Luxemburgo dedicou longo período de luta contra a visão nacionalista do Partido Socialista Polonês, assumindo a liderança na criação da Social Democracia do Reino Unido da Polônia. Mas é a partir de 1898, com sua transferência para a Alemanha, que Rosa Luxemburgo torna-se personagem destacada entre os socialistas europeus. Nesse período participa de uma das principais polêmicas do movimento operário internacional, na medida que se contrapõe aos artigos de Eduard Bernstein, produzindo um competente e atual material contra o revisionismo e o reformismo, transcrito na obra "Reforma ou Revolução". Durante o período da polêmica, Rosa afirma que de fato o movimento dos trabalhadores deveria lutar por reformas, mas que isso não bastaria para abolir as relações capitalistas de produção - o movimento operário jamais poderia perder de vista a conquista do poder pela revolução. Outro momento importante na vida da militante Rosa Luxemburgo deu-se durante os primeiros anos no início do século, quando da discussão sobre a organização dos socialistas. Naquela oportunidade polemiza com Lênin sobre a organização do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores Russos. Na verdade, faz uma contundente crítica à sua proposta, expressa no conhecido texto "Um passo adiante, dois passos atrás". Em 1904 Rosa produz um texto sob o título "A Questão da Organização da Social-Democracia Russa" onde afirma: "O ultracentralismo defendido por Lênin aparece-nos como impregnado não mais de um espírito positivo e criador, mas sim do espírito do vigilante noturno". Há historiadores que afirmam que é a partir da revolução de 1905 na Rússia que Rosa Luxemburgo desenvolve sua teoria revolucionária. O certo é que sua publicação de 1906, "Greve de Massas, Partido e Sindicato", se constitui até hoje numa das principais peças teóricas sobre partido e movimento de massas - "A revolução russa ensina-nos assim uma coisa: é que a greve de massas nem é 'fabricada' artificialmente nem 'decidida' ou 'difundida' no éter imaterial e abstrato, é tão-somente um fenômeno histórico, resultante, em certo momento, de uma situação social a partir de uma necessidade histórica". Sua preocupação residia em desenvolver uma idéia estratégica, sem se afastar do compromisso com a revolução socialista, contra a inércia burocrática do Partido Social-Democrata, procurando vincular a greve às exigências transformadoras da sociedade, num desafio global contra a ordem capitalista. "A 'revolução' e a 'greve de massas' são conceitos que não representam mais do que a forma exterior da luta de classes e só têm sentido e conteúdo quando referidas a situações políticas bem determinadas". É durante esse período (1903 a 1906) que Rosa desenvolve sua teoria sobre democracia operária, movimento de massa, sempre preocupada em dar respostas concretas às necessidades da luta de classes e fundamentalmente da organização revolucionária do operariado. Também é nesse período que seus adversários recolhem informações para caracterizá-la como espontaneísta; logo Rosa, que, a vida toda, foi uma pessoa organizada. Mas isso não a impediu de afirmar que: "a massa não é apenas objeto da ação revolucionária; é sobretudo sujeito". Durante sua militância, Rosa Luxemburgo dedicou também tempo ao estudo acadêmico, em particular ao desenvolvimento do capitalismo. Segundo alguns pensadores socialistas é nesse período que produz sua mais importante contribuição teórica, em particular à teoria econômica, "A Acumulação do Capital", datada de 1912, onde desenvolve suas idéias sobre as origens e crescimento do capital, relacionando-as com o desenvolvimento histórico do sistema capitalista. É bom que se diga que é nessa obra que Rosa, não só disseca o fenômeno da reprodução do capital, mas também desenvolve sua compreensão e posição sobre o estágio imperialista do capital. Em tese desenvolve um amplo combate as posições revisionistas e adaptadas de teóricos ditos de esquerda, mas que empurravam a classe operária para os braços da burguesia. Durante a primeira guerra mundial, Rosa Luxemburgo liderou as posições contrárias ao envolvimento da classe trabalhadora nesse conflito, esclarecendo seu caráter imperialista e portanto, negando qualquer participação operária nessa guerra do capital. Quando em 4 de agosto de 1914 a bancada do Partido Social-Democrata (seu partido) votou a favor dos créditos de guerra, Rosa Luxemburgo disparou uma bateria de ataques à direção do partido que culminou com a publicação do texto "A Crise da Social-Democracia", também conhecido como "O Folheto Junius", publicado em 1915, no qual faz a seguinte afirmação sobre a guerra: "A demência não terá fim, o sangrento pesadelo do inferno não vai parar até que os operários da Alemanha, da França, da Rússia e da Inglaterra despertem de sua embriaguez, se apertem fraternalmente as mãos e afoguem o coro brutal dos agitadores belicistas e o grito das hienas capitalistas no poderoso grito do trabalho - 'Proletários de todo o mundo, uni-vos!" No período em que esteve presa, Rosa Luxemburgo escreve entre outros textos o importante documento sobre a Revolução Russa de 1917. Além de esclarecer de uma vez por todas as convergências e divergências com as posições de Lênin, "A Revolução Russa", redigido no verão de 1918, se constitui numa das principais obras sobre o socialismo no mundo. Enaltece a iniciativa revolucionária dos bolcheviques e destaca a importância da Revolução Russa no cenário internacional, mantendo, porém, sua concepção crítica sobre a violência revolucionária e a defesa da democracia proletária. Mesmo presa, Rosa Luxemburgo não deixou da fazer política, seu núcleo de esquerda, do qual participavam entre outros Karl Liebknecht, continuou se articulando dentro do Partido Social Democrata, até ser expulso; a bem da verdade atuava com programa próprio (redigido por Rosa, em janeiro de 1916) conhecido como "Princípios Diretores" ou "Diretivas". Esse núcleo foi historicamente conhecido como "Liga Spartakus". Em 1917 o Partido Social Democrata expulsou não só os espartaquistas como também um grande grupo de oposição. Esse grupo, do qual participa a Liga Spartakus, dá origem ao "Partido Social-Democrata Independente". Registre-se que a Liga manteve-se organizada no novo PSDI, conservando sua organização e sua política. Os espartaquistas permaneceram no PSDI até que este decidiu participar do governo. Em 29 de dezembro de 1918 a Liga decide fundar o Partido Comunista Alemão. É bom que se diga que a Alemanha vivia um autêntico período revolucionário (particularmente em novembro e dezembro de 1918 e janeiro de 1919), com amplas greves, motins na marinha de guerra, soldados confraternizando com o Exército Russo, com insurreições operárias. As autoridades se mostravam impotentes para enfrentar as rebeliões; os conselhos de operários e soldados cresciam e se fortaleciam. Em contraposição, o Partido Social-Democrata defendia desesperadamente a convocação da Assembléia Constituinte, numa clara posição em favor da ordem capitalista. Por força do movimento social, que a cada momento "ganhava" as ruas, Rosa Luxemburgo é posta em liberdade em novembro de 1918; sai da cadeia para reforçar a luta pela revolução socialista. Ao lado de Karl Liebknecht, aposta cada vez mais no movimento de massas, na greve de massa, dirigindo todas ações do então criado Partido Comunista Alemão. Postou-se claramente em defesa dos conselhos operários e soldados. fortalecendo-os, dotando-os de destacado papel político na construção do poder revolucionário dos trabalhadores. Enquanto socialista, Rosa Luxemburgo sabia mais do que ninguém que o futuro nos reservaria ou "socialismo ou barbárie". Em 15 de janeiro de 1919 Rosa Luxemburgo foi brutalmente retirada, juntamente com o companheiro Karl Liebknecht, do "aparelho" em que se mantinha clandestina e assassinada covardemente por paramilitares - sabidamente a serviço do governo social-democrata alemão. Um tiro levou sua vida, sumiram com seu corpo, mas nunca conseguiram ofuscar a grandeza de suas idéias: Rosa vive entre nós! "Viva o cérebro mais genial dos herdeiros científicos de Marx e Engels!".

como surgiu o Dia Internacional da Mulher?

O Dia Internacional da Mulher é celebrado em muitos países ao redor do mundo no dia 8 de março. Este ano, a data tem um significado especial: a grande marcha de Nova York completa 100 anos. A marcha reuniu mais de quinze mil mulheres nas ruas de Nova York, em 1908, e foi o primeiro protesto deste tipo, tendo chamado a atenção da imprensa. As manifestantes pediam a diminuição da jornada de trabalho, melhores remunerações e o direito ao voto. Entretanto, o Dia Internacional da Mulher é mais freqüentemente lembrado por uma tragédia. Fábrica em Nova York onde morreram 146 mulheres carbonizadas em 1911 O Dia Internacional da Mulher é celebrado em muitos países ao redor do mundo no dia 8 de março. Este ano, a data tem um significado especial: a grande marcha de Nova York completa 100 anos. A marcha reuniu mais de quinze mil mulheres nas ruas de Nova York, em 1908, e foi o primeiro protesto deste tipo, tendo chamado a atenção da imprensa. As manifestantes pediam a diminuição da jornada de trabalho, melhores remunerações e o direito ao voto. Entretanto, o Dia Internacional da Mulher é mais freqüentemente lembrado por uma tragédia. No ano de 1911, 146 mulheres morreram carbonizadas em um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, também em Nova York. O rumor era de que os donos da fábrica e sindicalistas teriam trancado os portões e ateado fogo às máquinas para reprimir um protesto por melhores condições de trabalho. Essa versão jamais foi confirmada. O incêndio é o fato mais lembrado em todo o mundo por sua dramaticidade, mas o Dia Internacional da Mulher reflete, principalmente, o clamor por direitos que, em outras épocas, foram negados às mulheres, e que, em alguns locais, ainda são. MAIS UM POUCO DE HISTÓRIA Um ano depois da grande marcha de Nova York, o Partido Socialista da América realizou o primeiro evento em homenagem à mulher, em 28 de fevereiro. Em 1910, a Internacional Socialista, reunida em Copenhague, na Dinamarca, realizou a Conferência Internacional sobre a Mulher para lembrar o movimento feminino e lutar pelo sufrágio universal. A conferência criou o Dia Internacional da Mulher, mas não estabeleceu uma data fixa. No ano seguinte, Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça realizaram celebrações em 19 de março. Além do voto, os militantes passaram a exigir também acesso da mulher ao mercado de trabalho, treinamento vocacional e o fim da discriminação profissional. Logo depois, o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist chocaria o mundo. A IMPORTÂNCIA DO MOVIMENTO NA HISTÓRIA Durante o período que compreendeu a Primeira Guerra Mundial, o Dia Internacional da Mulher serviu também como uma forma de protesto contra o conflito. Política e história caminhavam na mesma direção. Em 1917, a militância pelos direitos femininos teve um papel fundamental no processo que levou à Revolução Russa. No último domingo de fevereiro daquele ano, que correspondia ao dia 8 de março pelo calendário gregoriano, as mulheres russas foram às ruas pedir por “pão e paz”. Quatro dias depois, o czar abdicaria do trono e um governo provisório daria o tão sonhado direito ao voto às mulheres. Depois disso, o 8 de março se tornou o dia escolhido para celebrar a força e a coragem das mulheres. PAPEL DE DESTAQUE O Dia Internacional da Mulher finalmente se tornou uma data mundialmente celebrada a partir do ano de 1975, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que reconhecia o papel da mulher nos esforços de paz e desenvolvimento humano, além de condenar a discriminação. O objetivo da resolução era promover a valorização e ampla participação da mulher na comunidade internacional. Sempre com muita luta, as mulheres se tornaram influentes e conseguiram conquistar espaço de destaque na vida social, cultural e econômica. Atualmente, a data serve para reconhecer as conquistas das mulheres, independentemente de nacionalidade, grupo étnico ou poder aquisitivo, e promover a igualdade de gênero. Entre as brasileiras, são muitas as mulheres que tiveram e ainda têm papel fundamental em nossa sociedade, como a médica pediatra e sanitarista, criadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns; a estilista Zuzu Angel; a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Mas não há nem espaço suficiente para citar todas. Nos Estados Unidos, Hillary Clinton é a primeira mulher a disputar a candidatura à presidência da república. A Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, é a principal condutora da política externa do governo Bush, para citar alguns exemplos da política internacional.

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