26 de nov de 2008

A SEGUNDA HIPÓTESE EXPLICATIVA: O ALUNO "SEM LIMITES"

Outra hipótese muito em voga no meio escolar, produto de nosso suposto e, às vezes, perigoso "bom senso" prático, diz respeito à suposição de que "as crianças de hoje em dia não têm limites, não reconhecem a autoridade, não respeitam as regras, e a responsabilidade por isso é dos pais, que teriam se tornado muito permissivos". Quase todos parecem concordar com essa hipótese do "déficit moral" como explicativa da indisciplina. Pois bem, esse tipo de entendimento da questão disciplinar, mais de cunho psicológico, merece pelo menos dois reparos: o primeiro, com relação à idéia de ausência absoluta de limites e do desrespeito às regras; o segundo, sobre a suposta permissividade dos pais. Vejamos o primeiro: se prestarmos um pouco de atenção nos alunos mais indisciplinados fora da sala de aula, num jogo coletivo, por exemplo, veremos o quanto as regras são muito bem conhecidas pelas crianças e adolescentes. Não é nada estranho a um jovem de hoje em dia a vivência de uma situação qualquer de acordo com regras muito bem estabelecidas, rígidas na maioria das vezes. Um bom exemplo disso se encontra quando, num jogo ou brincadeira infantil, alguém não cumpre aquilo que foi acordado previamente entre os participantes, e este assim considerado "desviante" ou infrator é severamente punido ou mesmo expulso do jogo. No limite, pode-se afirmar que um "governo" infantil é nitidamente despótico, porque não prevê jurisprudências, prerrogativas, maleabilidade. Nesse sentido, as crianças, quando ingressam na escola, já conhecem muito bem as regras de funcionamento de uma coletividade qualquer, mesmo porque elas são inerentes a qualquer tipo de atividade humana, a qualquer tipo de relação grupal. Podemos encontrar um outro exemplo concreto disso na língua. Quando escolhemos uma palavra ou uma construção lingüística específica para narrar algo, estamos nos sujeitando automaticamente a um conjunto já dado de regras. E isso todos fazemos, queiramos ou não. A criança e o jovem também o fazem, talvez até com mais força e veemência do que os adultos. Isso é tão factual que, curiosamente, no mundo infantil as regras nem sequer permitem muitas exceções. Quando uma criança diz, por exemplo, "eu fazi" em vez de "eu fiz", ou "eu trazi" em vez de "eu trouxe", ela está demonstrando o quanto está apegada a uma norma invariante já dada e que descarta possíveis alterações, desvios. Ela está sendo, portanto, rigorosa ao extremo. Dito de outra maneira, os seus "limites", inclusive intelectuais, são extensivos, implacáveis - ao contrário do que possa parecer à primeira vista. Desse modo, não se pode sustentar, nem na teoria nem na prática, que as crianças padeçam de falta generalizada de regra e de limite, embora esta idéia esteja muito disseminada no meio escolar. Ao contrário, a inquietação e a curiosidade infantis ou do jovem, que antes eram simplesmente reprimidas, apagadas do cotidiano escolar, podem hoje ser encaradas como excelentes ingredientes para o trabalho de sala de aula. Só depende do manejo delas... Não é evidente que quanto mais engajado o aluno estiver nas atividades propostas, maior será o rendimento do trabalho do professor? E que quanto maior for a reapropriação das regras da matemática, da língua ou das ciências, maiores serão o aproveitamento e o prazer em aprendê-las? Uma vez de posse da "mecânica" de determinado campo de conhecimento (as operações matemáticas, da gramática, das ciências, das artes, dos esportes etc.), o pensamento do aluno parece fluir com maior rapidez e plasticidade. Pois bem, um segundo reparo a essa idéia da falta de limites da criança e do jovem refere-se à suposta permissividade dos pais que, por sua vez, estaria criando obstáculos para o professor em sala de aula. Segundo boa parte dos professores, a família, em certa medida, não estaria ajudando o trabalho do professor, pois as crianças seriam frutos da "desestruturação", do "despreparo" e do "abandono" dos pais (vale lembrar, oriundos também das décadas de 60/70). E mais ainda, os professores teriam se tornado quase "reféns" de crianças tirânicas, deixados à mercê de crianças "sem educação". Será isso verdade? É muito comum imaginarmos que "criança mal-educada em casa" converte-se automaticamente em "aluno indisciplinado na escola". Pois alertemos que isso nem sempre é necessariamente verdadeiro. Não é possível generalizar esse diagnóstico para justificar os diferentes casos de indisciplina com os quais deparamos. Além disso, há uma evidência irrefutável de que os mesmos alunos indisciplinados com alguns professores podem ser bastante colaboradores com outros. Ora, precisamos recuperar alguns consensos quanto às funções da família e da escola, distinguindo claramente os papéis de pai e de professor. Família e escola não são a mesma coisa, e uma não é a continuidade natural da outra; porque se assim o fosse, também o inverso da equação acima deveria ser igualmente plausível. Ou seja: "aluno indisciplinado na escola" converter-se-ia em "filho mal-educado em casa". Estranha essa última fórmula, não? Quando desponta algum entrave de ordem disciplinar na sala de aula, uma das atitudes usuais por parte dos professores é convocar as autoridades escolares, e estes, os pais para que "dêem um jeito no seu filho". Imaginemos se, a cada vez que o filho desses mesmos pais apresentasse um problema disciplinar em casa, eles convocassem o professor para que este também "desse um jeito no seu aluno". Muito estranho, não? Esse exemplo ficcional revela o quanto se costuma confundir e, às vezes, justapor os âmbitos de competências, os raios de ação das instituições escola e família. Portanto, precisamos admitir um consenso básico, muitas vezes esquecido no dia-a-dia escolar: o de que aluno não é filho, e professor não é pai. Em geral, a maioria dos professores imagina que o trabalho de disciplinarização moral da criança (de introjeção das regras e, portanto, da constituição dos famigerados "limites"), a cargo mormente dos pais, é um pré-requisito para o trabalho de sala de aula. E esta idéia, embora correta em parte, também precisa ser repensada, pelo menos em parte. Quando falamos genericamente em "educação" de uma criança ou jovem, compreendemo-la como resultado conjunto da intervenção da família e da escola. Embora essas duas instituições basais sejam complementares e possam chegar a se articular, elas são bastante diferentes em suas raízes, objetos e objetivos. O trabalho familiar diz respeito à moralização da criança - essa é a função primordial dos pais ou seus substitutos. A tarefa do professor, por sua vez, não é moralizar a criança. O objeto do trabalho escolar é fundamentalmente o conhecimento sistematizado, e seu objetivo, a recriação deste. O resto é efeito colateral, indireto, mediato. No caso da família, o que está em foco é a ordenação da conduta da criança, por meio da moralização de suas atitudes, seus hábitos; no caso da escola, o que se visa é a ordenação do pensamento do aluno, por meio da reapropriação do legado cultural, representado pelos diferentes campos de conhecimento em pauta. Uma diferença e tanto, não é mesmo? Mas mesmo se se argumentasse que determinadas crianças não apresentam as posturas morais mínimas para o trabalho de sala de aula (caso isso fosse possível...), esse argumento admitiria a seguinte réplica: trata-se de um complicador, jamais um impeditivo para o trabalho em torno do objeto conhecimento, porque a docência sequer implica um trabalho semelhante àquele realizado pela família. Entretanto, muitos professores, diante das dificuldades do dia-a-dia, acabam se colocando como tarefa principal a normatização moral dos hábitos da criança e do adolescente (leia-se aluno agora) para que, só a partir daí, ele possa desencadear o trabalho do pensamento. Um bom exemplo disso é um outro tipo de máxima muito freqüente no meio pedagógico que reza, a nosso ver, equivocadamente: "para ser professor, é preciso antes ser um pouco pai, amigo, conselheiro etc." Esse tipo de enfrentamento do trabalho pedagógico é desaconselhável por três razões, pelo menos: * em primeiro lugar, trata-se de um desperdício da qualificação e do talento específico do professor, porque ele não se profissionalizou para ser uma espécie de pai "postiço". Para uma ocupação como a paternidade não se exige uma preparação profissional - cada um é pai ou mãe de um jeito peculiar e assistemático. No caso do professor, exige-se uma preparação lenta e especializada, devendo ele atuar de maneira semelhante aos seus colegas de profissão e de modo diverso dos profissionais de outras áreas; * em segundo lugar, trata-se de um desvio de função, porque ele não foi contratado para exercer tarefas parentais, e dele não se espera isso. Por mais que o trabalho em sala de aula demande muitas vezes exigências adicionais ao âmbito estritamente pedagógico, não se podem delegar ao professor funções para as quais ele não esteja explicitamente habilitado. É preciso, então, que o trabalho docente restrinja-se a um alvo específico: o conhecimento sistematizado, por meio da recriação de um campo lógico-conceitual particular. Não confundir seu papel com o de outros profissionais e outras ocupações: eis uma tarefa de fôlego para o professor de hoje em dia!; * em terceiro, trata-se de uma quebra do "contrato" pedagógico, porque o seu trabalho deixa de ser realizado. Se o professor abandona seu posto, se ele não cumpre suas funções específicas, quem fará isso por ele? Se o professor não se responsabilizar imediatamente pelo conhecimento, quem o fará? Como em todas as outras relações sociais/institucionais (médico-paciente, patrão-empregado, marido-mulher etc.), na relação pedagógica existe um contrato implícito - um conjunto de regras funcionais - que precisa ser conhecido e respeitado para que a ação possa se concretizar a contento. E é curioso constatar que os próprios alunos têm uma clareza impressionante quanto a essas balizas contratuais do encontro pedagógico. Sem dúvida nenhuma, eles sabem reconhecer quando o professor está exercendo suas funções, cumprindo seu papel. O professor competente e cioso de seus deveres não é, em absoluto, um desconhecido para os alunos; muito ao contrário. Estes sabem reconhecer e respeitar as regras do jogo quando ele é bem jogado, da mesma forma que eles também sabem reconhecer quando o professor abandona seu posto. Nesse sentido, a indisciplina parece ser uma resposta clara ao abandono ou à habilidade das funções docentes em sala de aula, porque é só a partir de seu papel evidenciado concretamente na ação em sala de aula que eles podem ter clareza quanto ao seu próprio papel de aluno, complementar ao de professor. Afinal, as atitudes de nossos alunos são um pouco da imagem de nossas próprias atitudes. Não é verdade que, de certa forma, nossos alunos espelham, pelo menos em parte, um pouco de nós mesmos? Por essa razão, talvez se possa entender a indisciplina como energia desperdiçada, sem um alvo preciso ao qual se fixar, e como uma resposta, portanto, ao que se oferta ao aluno. Enfim, a indisciplina do aluno pode ser compreendida como uma espécie de termômetro da própria relação do professor com seu campo de trabalho, seu papel e suas funções. Sob esse aspecto, valeria indagar: qual tem sido o teor de nosso envolvimento com essa profissão? Temos nos posicionado mais como agentes moralizadores ou como professores em sala de aula? Temos nos queixado das famílias mais do que deveríamos ou, ao contrário, temos nos dedicado com mais afinco ainda ao nosso campo de trabalho? Temos encarado os alunos, nossos parceiros de trabalho, como filhos desregrados, frutos de famílias desagregadas, ou como alunos inquietos, frutos de uma escola pouco desafiadora intelectualmente? Enfim, indisciplina é uma resposta ao fora ou ao dentro da sala de aula? Julio Groppa Aquino

PRIMEIRA HIPÓTESE EXPLICATIVA: O ALUNO "DESRESPEITADOR"

PRIMEIRA HIPÓTESE EXPLICATIVA: O ALUNO "DESRESPEITADOR" Uma primeira hipótese de explicação da indisciplina seria a de que "o aluno de hoje em dia é menos respeitador do que o aluno de antes, e que, na verdade, a escola atual teria se tornado muito permissiva, em comparação ao rigor e à qualidade daquela educação de antigamente". Esse primeiro entendimento, mais de cunho histórico, da questão disciplinar precisa ser repensado urgentemente. E a primeira coisa a admitir é que essa escola de antigamente talvez não fosse tão "de excelência" quanto gostamos de pensar hoje em dia. Vejamos por quê. Nossa memória costuma aplicar alguns truques em nós. Às vezes, é muito fácil incorrermos numa espécie de saudosismo exacerbado, idealizando o passado e cultivando lembranças de alguns fatos que não aconteceram ou que não se desenrolaram exatamente do modo com que nos recordamos deles. Portanto, se recuperarmos o modelo dessa escola do passado para cotejarmos nossos problemas pedagógicos atuais, precisamos recuperar também o contexto histórico da época, pelo menos em parte. Não é possível trazer de volta aquela escola sem o entorno sociopolítico de então. É muito comum nos reportarmos à escola de nossa infância com reverência, admiração, nostalgia. Pois bem, na verdade, essa escola anterior aos anos 70 era uma escola para poucos, muito poucos. Uma escola elitista, portanto. Exclusão, pois, é um processo que já estava lá, nessa escola de antigamente, hoje tão idealizada. Eram elas escolas militares ou religiosas, e algumas poucas leigas, que atendiam uma parcela muito reduzida da população. Perguntemo-nos, por exemplo, se ambos nossos pais tiveram escolaridade completa de oito anos. Lembremo-nos então de nossos avós, se eles sequer chegaram a freqüentar escolas! Quanto mais recuarmos no tempo, mais veremos como escola sempre foi um artigo precioso, difícil de encontrar no varejo social. Todos se lembram, ou pelo menos já ouviram falar, dos exames de admissão e, portanto, do níveis "primário" e "ginasial". Pois é, esse é um bom exemplo de como essas tais escolas de excelência do passado eram fundamentalmente segregacionistas e elitistas, atendendo uma parcela pequena e já privilegiada da população. O exame de admissão representava o que hoje conhecemos como o vestibular para as universidades públicas, já na passagem do primário para o ginásio. Inclusive, vale lembrar que a partir do início dos anos 70 o primário e o ginasial deixaram de existir, dando lugar ao "primeiro grau" (e mais recentemente ao "ensino fundamental"), agora com oito anos consecutivos. Desta feita, oito anos passaram a ser o tempo mínimo e obrigatório de escolaridade - uma conquista e tanto! Além disso, o número de vagas e estabelecimentos de ensino foi ampliado consideravelmente, democratizando cada vez mais o acesso à escola. Entretanto, as conquistas que o povo brasileiro obteve do ponto de vista da democratização do acesso ao ensino formal, com a abertura de novas escolas/vagas e os oito anos mínimos, continuam um projeto inacabado, uma tarefa por se encerrar, uma vez que, decorridas quase três décadas da penúltima grande reforma do ensino brasileiro, ainda não conseguimos fazer valer integralmente essa proposta de democratização lá desencadeada. Outrossim, o grande desafio dos educadores atuais passou a ser a permanência "de fato" das crianças na escola - o que, sabidamente, se consegue apenas com a qualidade do ensino ofertado. Essa é a grande tarefa dos educadores brasileiros na atualidade: fazer com que os alunos permaneçam na escola e que progridam tanto quantitativa quanto qualitativamente nos estudos. Mesmo porque escolaridade mínima e obrigatória é um direito adquirido de todo aquele nascido neste país. E desse princípio ético-político, e também legal, não podemos abrir mão sob hipótese nenhuma. Quando conseguirmos fazer com que a cada criança corresponda uma vaga numa escola, bem como condições efetivas para que lá ela permaneça (e queira permanecer) por pelo menos oito anos, algo de radicalmente revolucionário terá acontecido neste país! Contudo, é curioso comparar o contingente da população efetivamente atendido pelas escolas hoje e aquele de antigamente. De certa forma, a porcentagem efetiva de aproveitamento escolar é ainda semelhante àquela de antes. Poucos são aqueles que conseguem permanecer na escola até o final do segundo grau, e menos ainda freqüentar uma universidade, consolidando-se assim a famosa mas indesejável "pirâmide" educacional brasileira. Parece, então, que ainda não conseguimos fazer valer aquele célebre artigo da Constituição de 1988, o de número 205, que prega: "educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família". É tarefa de todos nós (principalmente os educadores) garantir uma escola de qualidade e para todos, indisciplinados ou não, com recursos ou não, com pré-requisitos ou não, com supostos problemas ou não. A inclusão, pois, passa a ser o dever "número um" de todo educador preocupado com o valor social de sua prática e, ao mesmo tempo, cioso de seus deveres profissionais. Outro dado que precisa ser reconfigurado com certa imparcialidade quando evocamos essas escolas do passado é o fato de que elas eram fundamentalmente militarizadas no seu funcionamento cotidiano. E o que isso significa? Se buscarmos exemplos em nossa memória, veremos isso com clareza: as filas, o pátio, o uniforme, os cânticos, e particularmente a relação de medo e coação que tínhamos com as figuras escolares (que descuidadamente nomeamos hoje como "de respeito"), revelavam um espírito fortemente hierarquizado/hierarquizante da época, desenhando os contornos das relações institucionais. É possível afirmar, então, que essa suposta escola de excelência de antigamente funcionava, na maioria das vezes, na base da ameaça e do castigo - traços nítidos de uma cultura militarizada impregnada no cotidiano escolar daquela época sombria da história brasileira. Estamos nos referindo, é claro, à ditadura militar. Assim, quando constatamos que nosso aluno de hoje não viveu esses tempos históricos obscuros, que ele é fruto de outras coordenadas históricas - e agora estamos nos referindo à abertura democrática -, fica claro que precisamos estabelecer outro tipo de relação civil em sala de aula. É óbvio que uma relação de respeito é condição necessária (embora não suficiente) para o trabalho pedagógico. No entanto, podemos respeitar alguém por temê-lo ou podemos respeitar alguém por admirá-lo. Mas, convenhamos, há uma grande diferença entre esses dois tipos de "respeito". O primeiro funda-se nas noções de hierarquia e superioridade, o segundo, nas de assimetria e diferença. E há uma incongruência estrutural entre elas! Antes o respeito do aluno, inspirado nos moldes militares, era fruto de uma espécie de submissão e obediência cegas a um "superior" na hierarquia escolar. Hoje, o respeito ao professor não mais pode advir do medo da punição - assim como nos quartéis - mas da autoridade inerente ao papel do "profissional" docente. Trata-se, assim, de uma transformação histórica radical do lugar social das práticas escolares. Hoje, o professor não é mais um encarregado de distribuir e fazer cumprir ordens disciplinares, mas um profissional cujas tarefas nem sequer se aproximam dessa função disciplinadora, apassivadora, silenciadora, de antes. Em contraposição, boa parte dos profissionais da educação ainda parece guardar ideais pedagógicos que preservam, de certa forma, a imagem dessa escola de antigamente e desse professor repressor, castrador. Muitas vezes, para esses profissionais o bom aluno do dia-a-dia é aquele calado, imóvel, obediente. Será este um bom aluno, de fato? É muito estranho tomar uma descrição do cotidiano escolar do século passado ou do meio desse século, e perceber que as escolas atuais têm um funcionamento ainda parecido, em termos das normas disciplinares, com aquelas escolas do passado. A punição, a represália, a submissão e o medo ainda parecem habitar silenciosamente as salas de aula, só que agora, por exemplo, por meio da avaliação. Não é verdade que muitas vezes alguns professores chegam a ameaçar seus alunos com a promessa de provas difíceis, notas baixas etc? Não será isso também outra estratégia dissimulada de exclusão? O que dizer, então, das expulsões ou das "transferências"? Sob esse ponto de vista, talvez a indisciplina escolar esteja nos indicando que se trata de uma recusa desse novo sujeito histórico a práticas fortemente arraigadas no cotidiano escolar, assim como uma tentativa de apropriação da escola de outra maneira, mais aberta, mais fluida, mais democrática. Trata-se do clamor de um novo tipo de relação civil, confrontativa na maioria das vezes, pedindo passagem a qualquer custo. Nesse sentido, a indisciplina estaria indicando também uma necessidade legítima de transformações no interior das relações escolares e, em particular, na relação professor-aluno. Assim, resta uma questão: afinal de contas, escola para quê? Sabemos hoje que, por meio da exclusão de grande maioria da população, aquela escola do passado não visava, em absoluto, o preparo para o exercício da cidadania. E a escola e o professor de hoje? O que eles visam, a bem da verdade? Qual o seu papel e função? São diferentes daqueles da escola de antes? Se assim o forem, quais resultados temos obtido concretamente? Enfim, estamos a serviço ainda da exclusão ditatorial ou da inclusão democrática?

24 de nov de 2008

Agravamento da crise revela estelionato eleitoral

As eleições de 2008 foram marcadas pelo continuísmo. Tanto o bloco formado pelo PT e a base governista quanto a oposição de direita, capitaneada pelo PSDB e DEM, beneficiaram-se da conjuntura de crescimento econômico nos últimos anos. Isso fez com que a taxa de reeleição fosse a maior da história. Mas tanto o bloco do governo quanto a oposição de direita, investiram pesado em promessas eleitorais. Cada candidato tentou se firmar como um "bom administrador", que realiza mais obras. A palavra "crise" não apareceu em nenhuma de suas propagandas da TV. Se para o governo era bom esconder a fragilidade do país diante da crise, tampouco para a oposição de direita isso era um bom negócio. A realidade, porém, falou mais alto e a crise chegou. Aos poucos, vai ruindo o estelionato eleitoral erguido nesses meses de campanha. Em São Paulo, o prefeito reeleito Gilberto Kassab já afirmou que vai cortar o Orçamento em 2009, diante da previsão de queda da receita. Os mesmos que se beneficiaram do crescimento econômico serão os mesmos que atacarão os trabalhadores numa conjuntura de recessão, que se desenha a passos largos que fará o governo Lula? Apesar dos reflexos da crise econômica e suas conseqüências que já são sentidas no Brasil, ela está apenas no início. Qual será a política do governo Lula no momento em que a crise se agravar? As medidas do governo não se limitarão às políticas de benefícios aos bancos e empresas. Assim como já anunciou o corte no orçamento para 2009, num cenário de aprofundamento da crise o governo terá que partir para a ofensiva contra os trabalhadores. Algumas medidas já estão em gestação. O Secretário para Ações de Longo Prazo, Mangabeira Unger, foi incumbido pelo próprio presidente a elaborar uma proposta de reforma trabalhista. A base do governo também ressuscitou o Projeto de Lei 4302/98, de FHC que, acaba com as obrigações trabalhistas e direitos do empregado em caso de contratações. É uma forma de promover a terceirização e oficializar a flexibilização das leis trabalhistas. Já a oposição de direita, não expressa uma alternativa a essa política. Tanto PSDB como DEM fazem exigência ao governo para impor um corte maior no orçamento e a implementação das reformas, como a trabalhista e previdenciária. É necessário, o fortalecimento de uma verdadeira alternativa à política do governo e da oposição de direita. Uma alternativa de esquerda, que aponte um programa dos trabalhadores para a crise e os problemas que afligem a classe. Que os ricos paguem pela crise A realidade cumpriu o papel de desfazer o discurso do governo Lula, sobre suposto descolamento da economia do país. A tão propalada reserva internacional, que chegou a ultrapassar os 200 bilhões de dólares, e transformado o Brasil em "credor internacional", é um castelo de areia formado por capitais especulativos de curto prazo, que podem virar pó da noite para o dia. O Brasil teve que recorrer a uma ajuda de 30 bilhões de dólares do Fed, o banco central dos EUA. As remessas de lucros ao exterior explodiram nos últimos meses, para cobrir prejuízos das matrizes. Aumentou também a fuga de capitais e o dólar disparou. A balança comercial sofre um duro golpe e caminha para o déficit. As férias coletivas prenunciam uma onda de demissão e desemprego. É necessário um programa dos trabalhadores para enfrentar a crise e exigir: - Ao invés de garantir bilhões aos bancos, estatizar o sistema financeiro sob o controle dos trabalhadores, a fim de que este sirva á população e não à especulação. - É necessário impedir a fuga de capitais especulativos e dos lucros ao exterior, estatizando as empresas multinacionais. - Ao invés de Férias Coletivas e demissões , que o governo garanta a estabilidade no emprego dos trabalhadores, inclusive com a estatização das empresas que insistirem em demitir. - Redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, a fim de gerar mais empregos. - O não pagamento da dívida pública, direcionando esses recursos a um plano de obras públicas, a fim de absorver a mão de obra desempregada.

18 de nov de 2008

PUBLICADO NO ARTIGO "ESCOLAS HIGH-TECH", PP. 24-30 EDUCAÇÃO Escolas high-tech Equipamentos digitais e interativos, como simuladores de realidade virtual e robôs, são cada vez mais utilizados por colégios paulistanos e ameaçam decretar a aposentadoria do giz e da lousa convencional Edison Veiga ... (pp. 29-39) E há quem ainda não confie totalmente no uso dos computadores. "Um dos maiores problemas do ensino é o fato de ele ser excessivamente abstrato", aponta Valdemar Setzer, professor do departamento de ciências da computação da Universidade de São Paulo e autor do livro Meios Eletrônicos e Educação: uma Visão Alternativa. "Qualquer tecnologia irá torná-lo mais abstrato ainda." Para ele, os colégios investem em equipamentos por puro marketing, na expectativa de atrair mais alunos. Setzer acredita que os computadores podem causar prejuízos ao desenvolvimento físico, intelectual e psíquico das crianças. Acostumadas a estar a um clique de tudo, elas assumiriam posturas imediatistas e, em casos extremos, se isolariam do convívio social. Como antídoto, o professor sugere aulas de arte e artesanato para desenvolver a imaginação. Afinal, se as coisas continuarem nesse ritmo, logo, logo a criançada só vai se comunicar via MSN Messenger. -------------------------------------------------------------------------------- ENTREVISTA COMPLETA Perguntas formuladas por Edison Veiga Jr., respostas enviadas em 16/4/06 1) Antigamente as escolas proibiam até que o aluno usasse calculadora em salas de aula. Hoje, cada vez mais, computadores fazem parte da paisagem educacional, jovenzinhos carregam laptops nas mochilas... Como o senhor vê essa mudança? É irreversível? Essa mudança é fruto do desconhecimento dos efeitos negativos que o computador produz nas crianças e jovens e, em particular, das pesquisas científicas recentes que provam que o computador na educação produz, em geral, uma diminuição do rendimento escolar, entre várias outras conseqüências negativas (ver o último artigo em português em meu "site" www.ime.usp.br/~vwsetzer). Além disso, está havendo um efeito de mercenarismo: introduzindo computadores na educação, as escolas esperam atrair os pais que, erroneamente, acreditam que eles são essenciais e benéficos à educação, preparando melhor seus filhos para a convivência social e o mercado de trabalho - precisamente o contrário do que os computadores fazem. Antes, eu era convidado a dar palestras nas escolas sobre o assunto, por mera curiosidade de se ouvir uma voz diferente, contrária ao uso de computadores na educação, no lar e na escola. Agora, estou sendo convidado por pais e mestres desesperados pois as crianças e jovens que os usam estão indo cada vez pior na escola. Querem ouvir minha opinião sobre as causas e o que fazer. Quanto ao que fazer, a receita é uma só: crianças e jovens não devem usar o computador. Ele perturba o desenvolvimento sadio físico, intelectual e psíquico, produz isolamento social e exige um auto-controle e discernimento que eles não têm. Por exemplo, crianças e jovens estão usando a Internet até altas horas da noite e no dia seguinte passam as aulas meio adormecidos. Quanto aos "jovenzinhos" carregando "laptops" na mochila, já foi constatado nos EUA que, devido ao seu peso, isso provoca problemas de coluna e de postura. A propósito, é provável que nenhuma escola tenha salas de computadores com mesas, suportes e cadeiras de altura variável, para que os alunos de várias idades, e portanto de vários tamanhos, assumam uma postura correta ao usá-los (com cotovelos na altura do teclado, coxas na horizontal, pés apoiados, telas só de LCD com altura adequada, uso de "touch pad" e não de "mouse", etc.). O governo tem um horrível plano de dar um "laptop" por criança, embarcando nesse projeto de certos coveiros da humanidade. É importante notar que esse projeto é simplesmente de construção dessas máquinas, pois não está acompanhado de absolutamente nenhum programa educacional, isto é, é um projeto tecnológico e não educacional. Independente da corrupção que invariavelmente resultará desse programa de um bilhão de dólares (alguém poderia esperar outra coisa neste país?), já se imaginou como ocorrerão roubos desses micros quando as crianças carregarem-nos para as escolas, ou mesmo em suas casas, e a frustração que isso provocará nas crianças? Com a péssima qualidade do ensino público em nosso país, com a péssima remuneração dos professores, com a péssima condição das escolas, esse projeto chega a ser obsceno. A citada mudança não é irreversível. Tenho esperança de que um dia escolas e pais serão convencidos pelas pesquisas científicas, já disponíveis, de que o uso de computadores por crianças e jovens é altamente prejudicial. O problema é que o impacto negativo dessas máquinas dá-se principalmente no nível emotivo e mental, portanto não é visível como o desastre causado por uma máquina física, por exemplo um automóvel guiado antes de o jovem ter uma certa maturidade. A primeira vez que publiquei algo contra o uso de computadores na educação foi em 1976 (veja-se em meu "site"). Quantas crianças e jovens não teriam sido ou não estariam sendo prejudicados pelos computadores se me tivessem dado ou me dessem ouvidos? 2) Em artigo de 1996, o senhor disse: "E por falar em "seriamente," o que acontece se uma criança ou jovem usam um software educacional, digamos, de Geografia? Eles serão atraídos enormemente, terão um entusiasmo que dificilmente um professor-gente conseguirá despertar. Mas, pergunto, o entusiasmo é pela Geografia? Não, o entusiasmo é por todo o aspecto visual, auditivo e de animação, enfim, o entusiasmo é pelo cosmético e não pelo que ele embeleza. Por detrás desse cosmético multimídia está quase zero, isto é uma face muito feia. Pensem os pais e educadores: como é que uma criança acostumada com essa embromação de cosmético vai enfrentar um livro ou uma aula de Geografia? Vocês estão viciando a criança num padrão que não é o da educação; esta leva tempo, exige calma, reflexão e um contato humano entre professor e aluno, exige a arte do professor para atrair a atenção do aluno e ao mesmo tempo transmitir conhecimento. " Hoje em dia, com o advento das lousas digitais, esse "cosmético" pode estar nas salas de aula. Aí não há mais o livro didático na aula de geografia. Então o seu posicionamento passa a ser outro? Então os softwares passam a ser aceitáveis? Meu posicionamento não mudou. Um dos maiores problemas do ensino é que ele é excessivamente abstrato. Qualquer tecnologia vai torná-lo mais abstrato ainda. Afinal, o que vai se exibir em uma lousa digital será absolutamente virtual. Os velhos mapas escolares não eram suficientes? As lousas digitais, conectadas à Internet, permitem que se empregue, por exemplo, o "Google Earth" e se mostrem mapas com vários níveis de detalhes. Isso é tão essencial assim, ou a aula passa a ser um joguinho eletrônico, com mais atração ainda pelo cosmético? Será que muito mais importante não é o que o professor conta, excitando a imaginação, não é o que o aluno deveria ler calmamente em livros, adquirindo um amor pela leitura e desenvolvendo seu pensamento e imaginação? O que é preferível, o aluno escrever um trabalho à mão, treinando sua letra, fazendo desenhos e caprichando no aspecto, ou reduzir sua ação a apertar teclas e mover o "mouse", relegando tudo aquilo a uma máquina? A solução para as escolas não é a introdução de mais tecnologia, mas é a humanização do ensino, e a introdução de matérias essenciais para a formação ampla, como artes e artesanato. O curioso é que, quando eu fui estudante, da 5a à 8a séries (antigos 1o a 4o ginasiais), no início da década de 50, era obrigatório em todo país o ensino de Canto Orfeônico (iniciativa genial de Villa Lobos), e de Trabalhos Manuais. Só que estou propondo o ensino intensivo de todas as artes, (como é feito, com imenso sucesso, desde 1919, nas escolas Waldorf no mundo inteiro, inclusive entre nós; é só visitar uma - ver os diretórios em www.sab.org.br - para observar o resultado altamente positivo do ensino artístico.), e não só de música. Quanto ao desaparecimento do livro didático, isso será apenas mais um passo no caminho de se ler cada vez menos - uma característica terrível do brasileiro em geral. Cada vez que se lê calmamente um livro impresso, está se treinando a concentração mental, o pensamento e a imaginação, justamente o que é prejudicado pelos meios eletrônicos, com trágicas conseqüências. 3) Gostaria que o senhor elencasse, em síntese, quais são os maiores argumentos contra o uso das novas tecnologias em sala de aula. E, caso julgue pertinente, quais seriam os argumentos favoráveis. Há inúmeras razões para não se introduzir computadores e novas tecnologia na sala de aula. Vejam-se vários argumentos em meus livros e em meu "site", principalmente no último artigo em português, que atualiza e complementa o que escrevi antes. Uma das razões que não se lê na literatura a respeito é que, dentre as novas tecnologias, o computador força um pensamento lógico-simbólico, sempre que se lhe dá algum comando. Somente depois dos 15 anos os jovens deveriam exercer esse tipo de pensamento e uma linguagem formal como exigida pelos comandos do computador. Antes dessa idade, há um prejuízo para seu desenvolvimento intelectual gradual e harmônico - segundo minha conceituação, uma das causas principais para o problema de piora no desempenho acadêmico, inclusive em matemática, como foi detectado por pesquisas recentes, inclusive com cerca de 700.000 estudantes que fizeram o exame internacional PISA (o Brasil ficou em um dos últimos lugares). Vou citar um outro argumento que ainda não coloquei no citado artigo. É fundamental reconhecer que TV, "video games" e computadores induzem indisciplina - e do pior tipo, a mental. Recentemente houve a publicação de um estudo científico mostrando que a disciplina é mais importante para o rendimento escolar e acadêmico do que o QI. Aquela indisciplina está ligada, em minha conceituação, à fragmentação e à velocidade das imagens e dos conteúdos, com a conseqüente destruição da força de vontade e da concentração provocada por aqueles meios eletrônicos, principalmente em crianças e jovens, que ainda as estão desenvolvendo. Quanto aos argumentos a favor da introdução das novas tecnologias, veja-se meu artigo fazendo uma revisão dos mesmos em termos do computador. Essa introdução não se deve em absoluto a estudos científicos mostrando que essas tecnologias trazem algum benefício, e sim à mania catastrófica de achar que qualquer tecnologia é benéfica. Basta respirar o ar de São Paulo e ver-se-á como a tecnologia - na verdade, toda tecnologia - tem efeitos colaterais indesejáveis. Por causa daquela mania, nossa civilização materialista está destruindo a matéria do mundo - bem como a psique de crianças e jovens. O resultado disso já está sendo terrível, mas se não houver uma mudança rápida, a juventude de hoje crescerá com um desenvolvimento psíquico completamente alterado e doentio, incluindo uma admiração e veneração horríveis às máquinas e, pior de tudo, achando que o ser humano é uma máquina - imperfeita. Os horrores causados pelo nazismo e pelo fundamentalismo não terão sido nada perto do que elas vão fazer, pois não há sentido, por exemplo, em se ter compaixão por uma máquina (se bem que os abomináveis "tamagotchis" provocaram precisamente essa aberração). 4) Considerando que a incorporação do computador e das novas tecnologias em sala é um processo irreversível, quais regras deveriam ser adotadas para o seu uso? O que pode ser feito pelos pais é o seguinte: 1. Procurar uma escola onde ainda haja um resto de sensibilidade humana e não se use o computador e novas tecnologias no ensino, a menos dos últimos anos do colegial. No entanto, nesse caso deve-se usar o computador para se ensinar como ele funciona internamente - do ponto de vista dos circuitos e da lógica dos programas -, que é justamente o que não se está fazendo; vejam-se materiais didáticos a respeito em meu "site". Não há mais necessidade de ensinar a usar, por exemplo, editores de texto, a Internet, etc., pois isso é muito fácil de aprender e quase todos já sabem. Além disso, é absolutamente essencial ensinar a ética do uso dos computadores e quais os problemas que causam, como por exemplo os que estão expostos em meu artigo "A miséria da computação". 2. Se um pai não pode mudar seu filho de escola e esta, erradamente do ponto de vista científico, usa computadores na educação, é absolutamente necessário que seja feito um equilíbrio com muita atividade artística (a esse respeito, leia-se meu artigo sobre um antídoto contra o pensamento computacional, em meu "site"). 3. Se a escola ou os pais acharem erradamente que é necessário que crianças e jovens usem o computador, é absolutamente essencial que esse uso seja bem limitado no tempo e acompanhado de perto, constantemente, por adultos. Crianças e jovens adolescentes não têm discernimento e auto-controle para saberem o que é bom ou ruim para eles e se estão usando a máquina exageradamente. Estive dando há pouco um curso e palestras em Cuiabá, e fiquei sabendo que lá, em uma sala de computadores para alunos em uma certa grande escola, segundo relato de um deles, os meninos estavam vendo nas telas "strip-tease" "ao vivo" de alunas (que, certamente, não sabem o perigo que estão correndo, pois podem ser chantageadas se seu rosto puder ser reconhecido). É claro que essa sala de computadores não tem nenhum controle por parte dos professores. 4. A pior falta de controle é uma criança ou jovem ter TV, "video game" ou computador em seu quarto de dormir. A propósito, um artigo científico de abril deste ano mostrou o óbvio ululante de que crianças que vêem muita TV começam mais cedo sua vida sexual. É urgente os pais perceberem o crime que estão cometendo contra seus filhos colocando esses aparelhos lá. É fundamental os pais perceberem que o mais fácil, e de maneira nenhuma prejudicial aos seus filhos, é não terem esses aparelhos em casa ou então não deixá-los disponíveis sem rígido controle no seu uso. Infelizmente, estamos na época em que uma boa parte, senão a maioria dos pais, perdeu totalmente a noção do que vem a ser educação e não coloca mais limites para seus filhos. Pobre mundo futuro! A miséria social de hoje parecerá um paraíso perto do que os atuais filhos pequenos e netos enfrentarão - ou provocarão!
OI PESSOAL OUVI Á ENTREVISTA COM Valdemar W. Setzer, ACHEI MUITO INTERESSANTE, QUEM GOSTOU PODE ACOMPANHAR MAIS COMPRANDO O LIVRO. Lazer deveria ser construtivo e instrutivo, e não um desligamento interior. Quais são as razões que o levaram a escolher a metodologia Waldorf? A pedagogia Waldorf é baseada numa visão de mundo em que o ser humano não é considerado nem uma máquina, nem um animal. Não conheço outra corrente pedagógica tão abrangente, levando em conta a educação do ponto de vista físico, psicológico e psíquico. Além disso, é a única que conheço que preserva a infância das crianças e a juventude dos adolescentes, sem forçá-los a adotar atitudes físicas, sentimentais e mentais de adultos. Ela o faz seguindo um modelo de desenvolvimento do ser humano que leva em conta todos os aspectos humanos, e não só o intelecto como em muitos outros sistemas ou falta de sistemas pedagógicos. Ela educa para as habilidades e conhecimentos sociais, artísticos e científicos (intelectuais) - cada um a seu tempo -, procurando produzir adultos equilibrados e livres. Finalmente, está aí para ser vista e estudada. Fico sempre impressionado com o fato de que ela, sendo um método coerente, todo publicado, ainda revolucionário apesar de existente desde 1919, usado em cerca de 800 escolas no mundo todo, seja simplesmente ignorada pelos meios acadêmicos. Isso mostra que, se alguém quiser achar preconceito, é só ir a uma universidade… Em seu livro recentemente lançado, "Meios Eletrônicos e Educação" é feita uma análise minuciosa de itens eletrônicos que de uma forma ou de outra, todos nós e principalmente as crianças, jovens, e educandos tem acesso diariamente. Fazemos uso destas tecnologias nos dias de hoje naturalmente, e sem a menor cerimônia impomos o uso das mesmas aos nossos filhos. Não há limites, não há consciência dos malefícios, ainda o homem se deslumbra com as facilidades que consegue criar e não se atemoriza com o atrofiamento do pensamento, das idéias ou mesmo do seu físico. Isto me parece um movimento da humanidade, como conscientizar as pessoas dos perigos envolvidos quando somente podemos olhar para os prazeres e facilidades que estas tecnologias podem gerar? De fato, há uma tendência auto-destrutiva da humanidade nesse sentido. Mas eu penso que isso é devido a uma falta de conhecimento do que vêm a ser esses aparelhos, a influência que eles exercem em crianças e adultos, e como a vida pode ser muito melhor sem eles - ou pelo menos com seu uso restrito e dirigido para o que realmente vale a pena. Meu livro (ver índice e foto da capa em meu "site" em www.ime.usp.br/~vwsetzer, onde se encontram outros artigos que não estão no livro) tenta justamente conscientizar as pessoas do que são esses aparelhos e o que deveria significar a educação de um ponto de vista humano global. Uma vez que a Televisão é a antítese da educação, por que a educação à distância "telecursos" etc. continuam a existir, mais do que isso, estão se proliferando? Não sou contra cursos à distância para adultos, quando não há possibilidade de os participantes terem um curso com professor físico à sua frente, com o qual possam trocar idéias frente à frente, e que dirija o ensino para os alunos específicos com os quais lida diretamente. Mas sou absolutamente contra ensino à distância, de qualquer forma, com crianças e jovens. Por outro lado, qualquer sucesso de ensino à distância quando existe a alternativa de ensino tradicional, pode indicar que este último está falido e deveria mudar. Só que, como se pode ler em meu livro, minha receita para resolver essa falência é torná-lo mais humano, e não mais tecnológico como está acontecendo. Uma das causas para essa falência é o fato de o ensino tradicional ser excessivamente abstrato. As crianças e jovens não têm um intelecto suficientemente desenvolvido para serem atraídos por abstrações que não têm nada a ver com a realidade e não têm aspectos artísticos que possam atrair seu senso estético e suas emoções. O ensino à distância é ainda mais abstrato, e provavelmente o que atrai nele é o cosmético que o acompanha, e não seu conteúdo. Finalmente, onde estão as provas de que os telecursos funcionam? Eles proliferam por causa da enganação de que eles são efetivos. Provavelmente empregam incentivos fiscais, sem se fazer uma análise do custo-benefício. O contato ou o aprendizado da criança com o computador não deve ocorrer antes dos 14 anos segundo sua visão e segundo a metodologia Waldorf, pois só a partir daí desenvolvem o pensamento abstrato formal. O ensino formal não propicia às crianças este espaço único de desenvolvimento, nossas casas tão pouco, nem todas as escolas tem a preocupação de uma aprendizagem mais lúdica. Como modificar hábitos sociais quando estamos inseridos na mesma até o pescoço? Não seria utopia? Não tenho esperança de mudar o mundo. Tenho esperança de conscientizar e mudar as pessoas que sentem ou pensam que há algo de errado no modo como a sociedade está evoluindo (ou involuindo…), e que acham que a educação - no lar e na escola - é o meio mais importante para a mudança social. Tenho esperança de tocar os corações dos que sentem que a infância precisa ser urgentemente resgatada, mas não sabem por que ela foi roubada das nossas crianças e como fazer para mudar essa situação. Fale-nos sobre a TV. Como esta vem prejudicando crianças e adultos? Penso que o ponto mais importante da TV é o de ela forçar um estado de sonolência, semi-hipnótico no telespectador. Em meu livro eu explico o por quê disso ocorrer e cito literatura a respeito. Como conseqüência, existe um abafamento do pensamento. É só comparar com a leitura: quando se lê um romance, é preciso imaginar os personagens, o ambiente e as ações, isto é, pensar sobre eles. Ao ler um texto científico ou filosófico, é necessário associar conceitos, isto é, pensar. Ao ver TV, a imagem já vem pronta, de modo que não há nada a imaginar. Quase não é possível associar conceitos pois tudo tem que ser muito rápido, senão os telespectadores passariam do estado de sonolência para o de sono profundo, o que seria um desastre para as emissoras que, como mostrei, vivem de vender audiência aos anunciantes. Experimente-se ver um programa e prestar atenção em tudo, pensando em cada imagem e no que é dito: a pessoa ficará rapidamente exausta, e logo "desligará" sua atenção. Assim, a TV prejudica a capacidade de imaginar e pensar. Como o telespectador não está plenamente consciente, tudo o que é transmitido é gravado em seu subconsciente, afetando seu comportamento sem que ele perceba. É por isso que se gastam fortunas na propaganda pela TV: ela funciona. Em 2000, do total de 12 bilhões de reais de gastos com propaganda em todos os meios, 63% foi para a TV. Ora, uma grande empresa não gastaria dezenas de milhões em propaganda se isso não desse retorno. Dá retorno pois a TV condiciona, não educa. Que miséria de mentalidade, achar-se que ficar em estado de sonolência é um lazer! Lazer deveria ser construtivo e instrutivo, e não um desligamento interior. A propósito, os joguinhos eletrônicos são ainda piores, pois condicionam não só pela gravação das imagens no subsconsciente, mas pelo treino de ações, como mostro no artigo sobre eles e as terríveis conseqüências disso. A tecnologia está dominando o homem? Completamente, como mostro no artigo do livro "A missão da tecnologia". Em lugar de se usá-la com consciência para nosso benefício, ela está sendo usada para satisfazer o egoísmo e a ambição de alguns fabricantes e comerciantes, que apelam para os instintos mais baixos - aqueles que deveríamos sublimar para nos tornarmos mais humanos e menos máquinas e animais -, na ânsia de atrair os consumidores. Mas o pior é que a tecnologia, usada sem consciência, não produz apenas desperdícios, poluição, etc. Ela degrada o ser humano, fazendo-o comportar-se e encarar-se como máquina. As conseqüências sociais já estão aí para serem vistas, e se a coisa continuar assim, o futuro será muito mais terrível.

2 de nov de 2008

Furacão Sobre as Américas

ESCOLHA CHOCANTEMENTE IRRESPONSÁVEL por LUIZ CARLOS AZENHA O título acima nem é nosso, mas extraído de editorial do New York Times, ao avaliar a escolha de Sarah Palin, governadora do inexpressivo Alasca, como vice-presidente na chapa do republicano John McCain. Depo is de ler o texto abaixo, temos de concordar e temer po r uma hipótese: eleita a chapa, em eventual e possível impedimento de McCain por razões de saúde, a América cair nas mãos da despreparada e imprevisível Sarah, que se diz um pittbull e acredita que, em nome de Deus, seu país pode tudo. Até nos invadir. O âncora da rede de televisão ABC, Charles Gibson, perguntou: “Você concorda com a doutrina Bush?” A candidata a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa republicana, Sarah Palin, levou longos três segundos para responder com uma pergunta, adotando a clássica tática dos políticos para ganhar tempo: “Em que aspecto, Charlie?” Ficou claro que ela não sabia do que o entrevistador estava falando. Os republicanos não se intimidaram. Escrevendo no Washington Post, Charles Krauthammer argumentou que não existe uma, mas várias doutrinas Bush, atribuiu a ignorância a Gibson e disse que o âncora “capturou perfeitamente o esnobismo e a condescendência intelectual do establishment, que tem caracterizado a reação das ‘classes falantes’ à mãe de cinco filhos que tem a presunção de disputar com elas o palco”. Se não serviu para justificar Palin, a argumentação de Krauthammer é reveladora de uma estratégia: os republicanos mais uma vez buscam explorar o ressentimento de classe e o antiintelectualismo em uma campanha eleitoral. É Palin, a “mãe de cinco filhos”, contra Obama, “a celebridade” de nariz em pé. POR QUEM OS SINOS DOBRAM ou O MONSTRO NÃO MORREU, MAS AGONIZA Todas as crises do momento, especialmente nas Américas, mais especialmente ainda no colosso do norte, são sintomas do mesmo fenômeno: a impossibilidade da ordem mundial neoliberal. por JOSÉ ARBEX JR. O FED (Banco Central dos Estados Unidos) destinou, até o dia 18 de setembro, a bagatela de 1 trilhão de dólares (cerca de 10% do PIB do país) à estatização de bancos e seguradoras falidos, com o objetivo de evitar uma quebradeira generalizada, à semelhança da que aconteceu em 1929. E trata-se mesmo de estatização: em troca dos empréstimos em caráter de emergência, as empresas cedem ao Estado o controle de uma parte de seu capital (no caso da maior seguradora do mundo, a AIG, à qual é associado o Unibanco, o Estado ficou com 80% da empresa, por um empréstimo de 85 bilhões de dólares). Há uma profunda ironia no fato de que a aprovação desse processo coube ao raivoso neoconservador George Bush, o mesmo que, em nome dos princípios neoliberais, não quis mobilizar os recursos do Estado para salvar as vítimas do Katrina, em Nova Orleãs. Salvar vidas, especialmente de negros e pobres, não pode, mas salvar empresas sim. Pois é. A crise atual (ou melhor, os sinais atuais de uma crise que se anuncia há tempos) começou em meados de 2007, com o estouro das hipotecas impagáveis nos Estados Unidos, e já provocou prejuízos de US$ 3,56 trilhões nas bolsas de valores do continente americano. Estima-se que o valor de mercado das companhias despencou 19%, de 18,32 trilhões para 14,76 trilhões de dólares. As empresas negociadas na bolsa de valores de São Paulo (Bovespa) foram as que mais perderam, em termos porcentuais (28%). E não há sinais de estabilidade à frente. Alarmados, com toda razão, os seis maiores bancos centrais do mundo – Estados Unidos, União Européia, Suíça, Canadá, Japão e Reino Unido – somaram esforços para criar um fundo comum, para enfrentar a “falta de liquidez” (eufemismo para falência) das grandes corporações. Há uma percepção generalizada de que a crise ainda está no início, como, aliás, admite Alan Greenspan, o todo-poderoso chefe do FED durante as décadas de 80 e 90, e poderá adquirir contornos inimagináveis. A panela de pressão apenas começou a acionar o apito. RETIRADO DA REVISTA CAROS AMIGOS.
La Plata Jota Quest Composição: Jota Quest Grana suja Grana justa Grana fácil Grana curta Grana pra você comprar ajuda Grana sexy Grana vídeo Grana moda Grana vício Grana pra você comprar destinos Pedágio, plágio A grana do tráfico Suborno, conforto A grana do jogo Grana pra você comprar o almoço Quanto vale o show? Quanto vale o amor? Quanto vale, então, fazer das tripas coração? Quanto vale o som? Quanto vale a dor? Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção? Grana suja Grana justa Grana fácil Grana curta Grana pra você comprar ajuda Grana sexy Grana vídeo Grana moda Grana vício Grana pra você comprar destinos Pedágio, plágio A grana do tráfico Suborno, conforto A grana do jogo Grana super-star 3º mundo... Quanto vale o show? Quanto vale o amor? Quanto vale, então, fazer das tripas coração? Quanto vale o som? Quanto vale a dor? Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção? "Yo estoy sen un puto man... Yo estoy na capa... La plata que me mata... ¿La plata, donde está? Bésame mucho...Bésame... Bésame muuucho..." Quanto vale o show? Quanto vale o amor? Quanto vale, então, fazer das tripas coração? Quanto vale o som? Quanto vale a dor? Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção? Quanto vale o show? Quanto vale o amor? Quanto vale, então, fazer das tripas coração? Quanto vale o som? Quanto vale a dor? Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção? "¿Por qué no te callas?"

FAÇA SUA PESQUISA