20 de jul de 2008

Barack Obama: um "novo rosto" para "o velho" imperialismo A vitória do senador Barack Obama nas internas do Partido Democrata é um fato inédito na história do EUA: pela primeira vez, terá um candidato negro nas eleições presidenciais, representando um dos dois grandes partidos. Mais ainda, as pesquisas indicam que tem muitas possibilidades de derrotar á seu oponente republicano, John McCain. O fato de que um jovem político negro, filho de um imigrante africano muçulmano, possa se transformar no primeiro presidente negro do país era algo absolutamente impensado anos atrás e só poderia conceber-se em alguma série de TV, como a 24 horas. É lógico, então, que gere um grande impacto no EUA e em todo mundo. Além da enorme confusão que gera - como veremos nesta edição do Correio Internacional - entre algumas correntes de esquerda. Trata-se de uma mudança real - parcial, mas importante - do sistema de poder político da principal potência imperialista mundial? Ou, pelo contrário, é só uma necessária adaptação formal deste sistema (um "novo rosto") para poder enfrentar - em melhores condições - as graves dificuldades do imperialismo norte-americano no mundo e em seu próprio país? A LIT-QI afirma claramente que se trata da segunda alternativa. Para demonstrá-lo devemos analisar, por um lado, as características centrais desse sistema que criou uma figura como a de Barack Obama e, por outro, as condições que fizeram necessário seu possível acesso à presidência do país. O sistema bipartidário O sistema político-eleitoral norte-americano baseia-se na existência de dois grandes partidos burgueses - republicano e democrata - que, segundo as circunstâncias, se alternam entre a presidência e a oposição parlamentar. Ambos os partidos apresentam diferenças políticas e se assentam sobre bases eleitorais diferentes. Os republicanos expressam tradicionalmente posições mais reacionárias e se apóiam na classe média das cidades medianas e pequenas e nas classes médias acomodadas das grandes cidades. Os democratas, por sua vez, expressavam posições mais "liberais" (no sentido norte-americano da palavra) e seu apoio eleitoral surge dos trabalhadores e a classe média "liberal" das grandes cidades, além de integrar tradicionalmente às minorias - negros e latinos - e a outros setores discriminados. Por seu peso histórico nas direções sindicais, os democratas sempre desempenharam o papel de impedir uma alternativa independente da classe operária no terreno eleitoral. No entanto é necessário agregar que, nos últimos anos, essas diferenças políticas tenderam a se diluir cada vez mais e existe uma forte direita democrata sem grandes diferenças com os republicanos. Não restam dúvidas é que republicanos e democratas são partidos da burguesia imperialista, até a medula. Algo que se demonstra, em primeiro lugar, pelas fabulosas quantidades de dinheiro que as grandes empresas contribuem para financiar ambos partidos e seus candidatos. Neste sistema, nenhum político tem possibilidade real de aceder a cargos importantes se não conta com um forte respaldo financeiro das empresas a troco de compromissos com esses patrocinadores. Analisamos estes dados em outro artigo desta edição. Eles permitem deduzir quais setores desta burguesia está mais unido a cada partido: os republicanos são apoiados majoritariamente pelas petrolíferas, químicas, as automotoras, construção e o agronegócio enquanto os democratas são fortes no setor de finanças/seguro/bens raízes, educação e saúde. Em segundo lugar, demonstra-se na política que estes partidos aplicam quando governam. Muitos têm a idéia totalmente que os republicanos são mais beligerantes e os democratas mais pacifistas. A realidade o desmente: muitas intervenções militares e guerras do imperialismo norte-americano foram iniciadas por presidentes democratas. Por exemplo, foi John Kennedy quem começou a intervenção no Vietnã, no início da década de 1960, e quem impulsionou a invasão de Baía dos Porcos contra Cuba; Harry Truman ordenou o lançamento da bomba atômica em Hiroshina e Nagasaki, em 1946; enquanto a atual Guerra do Iraque, conquanto tenha sido política de George W. Bush, contou com o respaldo parlamentar democrata. Na hora de defender os interesses imperialistas no mundo, ambos partidos terminam unificando sua política. Quem é Barack Obama? Ao ler sua biografia, uma primeira conclusão é que quase não sofreu, ou sofreu em muito menor grau, a discriminação, a violência e a falta de oportunidades que vivem cotidianamente a maioria dos jovens negros norte-americanos. Filho de um queniano emigrado, que depois voltaria a seu país, e uma norte-americana, estudou Direito na Universidade de Columbia em Nova Iorque e na exclusivíssima Escola de Direito de Harvard, onde se graduou com a menção magna cum laude. Trabalhou numa firma de advogados e depois se trasladou a Chicago onde foi nomeado professor na Universidade. Nessa cidade, relaciona-se com o partido democrata e começa uma meteórica carreira política: em 1996 é eleito para o senado estadual de Illinois e, em 2004, senador nacional, em ambos casos com o apoio de Bill Clinton. Em 2007, decide lançar sua pré-candidatura presidencial nas internas democratas, com o apoio do influente senador Edward Kennedy. O final já o conhecemos. Sua imagem de rapaz "negro de sucesso" resulta, evidentemente, bem mais simpática que a "sabe-tudo" Hillary Clinton ou que o ex-militar John McCain. Mas está bem longe de ser um outsider, um elemento marginal que foi ganhando peso numa dura luta contra o aparelho do partido democrata. Pelo contrário, é um produto genuíno desse aparelho e cuja figura foi sendo construída para poder ser útil em momentos difíceis como este. Pensar que uma possível presidência sua representará uma mudança importante no conteúdo da política norte-americana significa achar que experientes políticos imperialistas, como Edward Kennedy, e empresas como Goldman Sachs, poriam seu peso político - ou seus dólares de apoio - em alguém que seria, ainda que parcialmente, seu inimigo. As posições políticas de Obama Agora vamos dar uma olhada nas posições, levando em conta que, igualmente a outros países, os políticos norte-americanos disfarçam suas verdadeiras posições durante as campanhas eleitorais. No caso de novas figuras democratas, como Obama, costuma se cumprir uma lei: localizam-se mais à esquerda nas internas do partido, direitizam-se na campanha nacional e completam a fundo esse giro ao aceder ao governo. a) As guerras do Iraque e Afeganistão Quando era senador estadual, se opôs à invasão ao Iraque, ponto que foi muito explorado em suas críticas a Hillary Clinton que a apoiou. Em sua página, apresentou um "Obama's Irak plan" que propõe a retirada das tropas norte-americanas em 16 meses, ao mesmo tempo que se reforçaria sua presença no Afeganistão para ganhar esta guerra. No entanto, sua assessora de política exterior esclareceu que esse plano considerava "o melhor cenário possível" e que "será revisado" quando chegue à presidência. b) Israel e Oriente Médio Neste tema, Obama sim falou com toda clareza ante a necessidade de ganhar o apoio do "lobby pró-Israel" norte-americano, de grande peso político e financeiro, que o enxergava com desconfiança. Numa visita ao AIPAC (Comitê Israelo-Americano de relações públicas), expressou que existem "laços indestrutíveis entre Israel e EUA". Agregou que "todos os que ameaçam Israel nos ameaçam" e prometeu lhe oferecer "todos os meios disponíveis para se defender de todas as ameaças vindas de Gaza ou de Teerã". Afirmou que "a segurança de Israel é sacrossanta. Não é negociável". Terminou expressando que "Jerusalém continuará como capital de Israel, e deve permanecer sem divisões". Depois do discurso, o embaixador israelense em Washington declarou que "o discurso que Barack Obama pronunciou perante os delegados da AIPAC foi muito importante e animador". c) A crise econômica Num discurso pronunciado em fevereiro passado, expressou que a atual recessão que vive o país e as conseqüências que trará para o povo do EUA não se deviam "a forças fora de nosso controle nem ao inevitável ciclo dos negócios" senão às políticas impulsionadas pelo governo de Bush. Saber que medidas vai aplicar já é bem mais difícil porque o discurso só desenvolve as críticas a Bush. Na seção "Economia" de seu portal, apresenta a seguinte definição: "Acho que o livre mercado foi o motor do grande progresso de América. Criou a prosperidade que é a inveja do mundo e levou a um nível de vida inédito na história. (.) Estamos juntos nisto. Desde os presidentes das companhias até os acionistas, desde os financistas até os trabalhadores das fábricas, todos temos interesse no sucesso do outro porque quanto mais prosperem os americanos, mais prosperará América". Nada muito concreto, mas, que pode se esperar de quem considera que a base de tudo é o "livre mercado" e que os trabalhadores das fábricas "estão juntos nisto" com os empresários, financistas e acionistas? d) A questão dos imigrantes Obama participou em Chicago das mobilizações massivas dos imigrantes do 1º de Maio de 2006. Em 2008 escreveu: "Dois anos depois, nosso problema de imigração segue sem resolver-se, e aqueles que queiram mudança terão que votar por ela em novembro. Por isso hoje, eu convido àqueles que marcham pela mudança, a que trabalhem registrando votos nos meses seguintes. Seu voto é sua decisão". Em outras palavras, nada de seguir a luta, a solução é que "me elejam" como presidente. É difícil saber como poderão seguir esse conselho os 12 milhões de imigrante ilegais sem nenhum direito político. Em uma mesma carta, suas propostas a este respeito são totalmente difusas: "Quero outra vez expressar meu compromisso à reforma de imigração integral e que farei tudo o que possa para trazer ordem e compaixão a um sistema que hoje está quebrado". No entanto, é muito provável que, caso ganhe, aplique a mesma política que propôs seu mentor, o senador Edward Kennedy, no projeto de lei que leva seu nome (e que estava sendo acordada com o Governo Bush). Outra lei que busca dividir os imigrantes ilegais. Por um lado, aqueles que consigam demonstrar que viveram no EUA por mais de cinco anos poderão aspirar a obter a residência permanente, depois de um larguísimo processo de permissões temporárias com condições muito difíceis de cumprir. "Ao mesmo tempo, isto significa que os outros 5 milhões de sem-papéis serão, de fato, expulsos do país, ainda que possam solicitar um visto legal desde seus países, para poder retornar aos EUA. Como a lei propõe uma quota anual de 325.000 vistos provisórios de trabalho, a maioria, de fato, jamais poderá voltar legalmente" . e) Sobre Cuba Igualmente ao caso de Israel, também Obama buscou apoios à direita. Neste caso, na Fundação Nacional Cubano-Americana, em Miami, um dos setores mais reacionários da burguesia cubana exilada no EUA, depois da revolução de 1959. Em seu discurso, reiterou a velha fórmula de aliança com essa burguesia para que a colonização norte-americana volte à ilha e a manutenção do embargo comercial: "Encontramos-nos aqui em nosso compromisso inquebrantável com a liberdade. E é correto que o reafirmemos aqui em Miami (...) juntos, vamos defender a causa da liberdade em Cuba. (...) Não existem melhores embaixadores da liberdade que vocês cubano-americanos. (.) Vou manter o embargo. Ele nos confere o instrumento necessário para confrontar o regime. (...) É assim que se podem promover transformações reais em Cuba: através da diplomacia forte, inteligente e baseada em princípios". f) A questão racial É um tema muito importante já que o "voto negro" foi a base mais sólida de sua vitória nas internas democratas e o será também caso ganhe as eleições presidenciais. Seguramente esta base eleitoral tem muitas esperanças que um presidente negro os ajude a superar a histórica situação de opressão e discriminação que sofrem. No entanto, ao longo de sua carreira política, Obama sempre tentou evitar a "questão racial"; Quando teve que tocar no tema, relativizou seu peso e reivindicou que a "sociedade americana" tinha avançado e o estava superando. Por exemplo, num discurso na Convenção Nacional Democrata de 2004, afirmou: "Não há uma América liberal e uma América conservadora senão os Estados Unidos da América. Não há uma América negra e uma América branca, uma América latina e uma asiática senão os Estados Unidos da América" (9). Mais recentemente, para tomar distância do pastor de sua igreja que tinha dito que o racismo era um componente estrutural e histórico da sociedade norte-americana, declarou: "O profundo erro do reverendo Wright não foi que falasse do racismo em nossa sociedade, senão que falasse como se nossa sociedade fosse estática, como se não se tivesse produzido nenhum avanço, como se este país (...) ainda estivesse irrevogavelmente vinculado a um passado trágico" . Pensarão o mesmo os milhões de negros oprimidos que votaram por ele ou os imigrantes latinos ilegais? Por que Obama? Obama é parte do Partido Democrata, portanto do sistema político bipartidário. Vamos analisar porque a burguesia dos EUA, ou pelo menos setores muito importantes dela, optam por Obama. A explicação de fundo são as crises em várias crises enfrentadas pelo imperialismo norte-americano. Em primeiro lugar, o fracasso da política de "guerra contra o terror" de Bush se expressa no curso desfavorável das guerras no Iraque e Afeganistão, e no enfraquecimento de Israel após sua derrota no Líbano e sua impossibilidade de derrotar os palestinos na Faixa de Gaza. Na região do Oriente Médio, os EUA estão num pântano do qual não podem sair sem admitir uma derrota. Algo que causará grandes custos para sua tarefa de "polícia mundial". Por outro lado, não podem aumentar sua presença militar sem agravar ainda mais a sua situação. Soma-se ainda uma combinação extremadamente perigosa para a burguesia: a recessão que já afeta os EUA e as perspectivas de uma profunda crise econômica. Quer dizer, essa burguesia deverá jogar parte do custo da crise sobre as costas dos trabalhadores, através de desemprego e rebaixamento salarial. Algo que já ocorre na gigante General Motors, que ameaça demitir todos trabalhadores que não aceitam rebaixar seus salários. A classe operária norte-americana é um gigante de 120 milhões. Porém, poucas vezes em sua história ela saiu para lutar de conjunto. Mas quando lutaram estremeceram os alicerces do imperialismo. A luta dos trabalhadores imigrantes, o setor mais explorado dos trabalhadores do país, pode ser uma antecipação dessas lutas. Ao mesmo tempo, o fracasso da "era americana" de George W. Bush deixou o Partido Republicano extremamente desgastado e desprestigiado, sem "peças de reposição". Além de desgastar o regime político do país. É muito difícil que os republicanos possam enfrentar uma situação tão complexa e difícil que, em muitos aspectos, eles contribuíram para criar com suas políticas. ]A maioria da burguesia norte-americana concluiu pela necessidade de apostar na "alternativa democrata". Inicialmente, a aposta preferida foi a "mulher forte", Hillary Clinton. Contudo, diante do agravamento da situação, perceberam a necessidade de uma mudança mais profunda, um novo rosto para o imperialismo. Dessa forma, aumentaram as chances de Obama como a figura mais capaz de defender seus interesses. Um inimigo ainda mais perigoso Setores importantes da burguesia imperialista defendem a utilização de alguém que, por certas características importantes (jovem, negro, filho de muçulmano) pode ser "vendido" como parte de setores oprimidos. E, dessa forma, tentar adormecer qualquer tentativa de reação. Nas últimas décadas, o imperialismo se notabilizou em apresentar "caras novas" nas eleições presidenciais. Por exemplo, o "jovem modelo" John Kennedy, logo após o fim do macartismo, ou Bill Clinton, antigo opositor a guerra do Vietnam. Alguns jornalistas traçam uma comparação entre Obama e o democrata Jimmy Carter, eleito presidente em 1977, após a derrota no Vietnam e dos escândalos político que derrubaram o ex-presidente Richard Nixon. Mesmo que existam profundas diferenças entre ambos, existe um claro ponto em comum: a necessidade de enfrentar uma profunda crise do imperialismo e de seu sistema político. Por isso, é necessário alguém que pareça ser diferente. Durante sua campanha eleitoral, Carter, por exemplo, diziam em seus discursos: "Não sou advogado, não sou de Washington". Tais "diferenças", porém, se limitam a questões formais: todos defenderam até a morte os interesses do imperialismo norte-americano. Por isso, caso vença as eleições, Obama será o principal inimigo dos povos do mundo e dos trabalhadores dos EUA. Nessa questão, nada mudará com relação a Bush. Mas Obama será um inimigo muito mais perigoso porque tentará se disfarçar através de sua imagem nova e diferente. Se Obama vencer a corrida presidencial nos EUA, os trabalhadores os povos do mundo devem combatê-lo com todas as suas forças. Glossário Macartismo - O termo que descreve um período de intensa patrulha anticomunista nos EUA que durou até meados da década de 1950. O termo foi cunhado para criticar as ações do senador direitista norte-americano Joseph McCarthy, que desencadeou a "caça aos comunistas" no país.

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